11 novas categorias de hábitos de aprendizagem

[Se você já é familiar com meu conceito de hábitos de aprendizagem e com as 9 categorias iniciais que criei para o Desafio 30 Dias, então pule para a segunda parte deste texto]

O que são hábitos?

São ações que não requerem uma decisão consciente. Ao longo do tempo, essas pequenas rotinas vão sendo automatizadas pelo cérebro, ou seja, você não precisa sequer pensar para executá-las.

Não apenas ações podem se tornar hábitos, como também modos de pensar. Neste caso, estamos falando de modelos mentais.

Você provavelmente não precisa pensar para tomar café da manhã. Nem para escovar os dentes.

E você também não precisa pensar quando se defronta com uma superfície de madeira apoiada por quatro pés. É uma mesa e ponto.

Também formamos hábitos e modelos mentais relacionados à maneira como aprendemos. Eles derivam de nossas experiências e crenças educacionais que acumulamos durante toda a vida.

No início de 2020, comecei uma investigação a respeito do que poderiam ser “hábitos de aprendizagem” saudáveis — no caso, a palavra “hábitos” aqui também engloba a noção de modelos mentais.

É claro que “saudável” é um juízo de valor baseado nas minhas perspectivas sobre o assunto. Outras pessoas provavelmente terão visões distintas a respeito do que é saudável ou não.

Minha ideia de hábitos de aprendizado saudáveis aponta para a possibilidade de praticar a aprendizagem autodirigida de forma efetiva. E isso, na minha percepção, é o cerne da experiência do lifelong learning — ou a capacidade de aprender ao longo de toda a vida.

A partir do estudo de diferentes referências no campo da educação e do comportamento humano, e também segundo minhas experiências pessoais conduzindo o meu próprio aprendizado e apoiando outras pessoas, sistematizei inicialmente 9 categorias de hábitos de aprendizagem:

Meta-aprendizagem significa entender como funciona seu processo de aprendizado, o que você quer ou precisa aprender, porque você deseja aprender isso e como fazê-lo.

Um percurso de aprendizagem pode às vezes ser exaustivo ou muito mental. Nesse sentido, hábitos de autocuidado são importantes para que você se permita as pausas e os reencontros consigo mesmo necessários para maximizar o aprendizado.

Muitas pessoas acham difícil cultivar a autodisciplina necessária para realizar o que querem na vida. Com o aprendizado não é diferente. Os hábitos de disciplina ajudam a inserir a aprendizagem na sua rotina e a ter consistência no processo.

Organizar o aprendizado significa construir hábitos para processar e sistematizar o que você está aprendendo. Assim, fica fácil acessar seus principais insights e combiná-los de modo a criar algo novo.

Você já reparou no modo como você escuta alguém? Ampliar a qualidade da escuta é uma das melhores formas de aprender mais. Se interrompemos o outro e não somos curiosos o bastante para explorar seus pontos de vista, perdemos uma das mais importantes fontes de aprendizado disponíveis.

Nos acostumamos a pensar que existem pessoas criativas e pessoas não criativas, o que não é verdade. Todo mundo é capaz de ampliar seu potencial criativo. E, durante um percurso de aprendizagem, é a criatividade que nos habilita a enxergar as conexões entre os assuntos e, consequentemente, gerar novos entendimentos.

Um dos maiores bloqueadores da aprendizagem é a arrogância. Pensar que sabemos tudo sobre um tema é um mau hábito que nos impede de continuar aprendendo. O modo de pensar da humildade é o antídoto.

“Compartilhar é o novo salvar” (Jonathan Antony). Compartilhar aprendizados é importante porque nos ajuda a organizar e consolidar o que aprendemos, além de nos permitir acessar feedbacks, novas perspectivas e oportunidades.

É muito comum se manter na zona de conforto da teoria e evitar aprender por meio de ações no mundo real. Mas é agindo que você testa suas hipóteses e valida o que está aprendendo. Quanto mais cedo você incorporar a prática no seu percurso de aprendizagem, melhor.

As categorias acima foram a base para o Desafio 30 Dias de Hábitos de Aprendizagem, realizado em abril de 2020. Elas representam diferentes capacidades que uma pessoa precisa desenvolver para conseguir praticar uma educação autodirigida.

Essas capacidades podem ser aprendidas, isto é, elas podem ser internalizadas na forma de novos hábitos e modelos mentais que, por sua vez, contribuem para a mudança positiva de comportamento.

Que outras habilidades importam?

Mais recentemente, porém, venho pensando em ampliar essa lista.

As 11 novas categorias abaixo ampliam a compreensão a respeito das capacidades necessárias para que uma pessoa exerça a aprendizagem autodirigida:

É o desejo pela descoberta sem ter certeza da utilidade. De forma mais poética, cheguei a definir curiosidade alguns anos atrás como “o fio que conecta o conhecido dentro de nós e o desconhecido fora da gente”. Quando em movimento, a curiosidade se torna serendipidade*. Para isso, é necessário atenção.

A aprendizagem autônoma pode acordar muitos “fantasmas” internos, especialmente por termos sido criados em uma lógica familiar e educacional bastante heterodirigida. Quanto mais nos dedicamos ao processo de conhecer, nomear e dialogar com esses fantasmas, mais chances teremos de ser bem-sucedidos no aprendizado.

Nós saímos da escola, mas a escola não saiu da gente. A visão de mundo escolarizada — linear, reducionista, individualista, hierárquica etc — permanece encrustrada em cada um de nós, e é trabalho de uma vida inteira ressignificá-la. Esse trabalho de ressignificação de crenças é uma condição fundamental para a manifestação da aprendizagem autodirigida, especialmente em pessoas adultas.

A pesquisa é um trabalho contínuo para o aprendiz autodirigido. Ao mesmo tempo, é também um conjunto de hábitos: aprender a buscar informações, verificar a credibilidade da fonte, fazer entrevistas, extrair sentido do que se encontra etc. Todo projeto de aprendizagem pode se beneficiar de alguma dose de pesquisa.

Como aprender a ter olhos de maravilhamento? Apreciar significa captar a beleza do que está bem à nossa frente. Um aprendiz autodirigido, em um dado momento de sua jornada, se encantará com suas descobertas e criações, e é isso que o fará ter olhos capazes de enxergar a beleza nos outros. A partir daí, é um ciclo virtuoso.

Cultivar autoeficácia consiste em acreditar na sua própria capacidade de ser bem-sucedido em determinada ação ou projeto. Algumas estratégias de aumento de autoeficácia são fazer pequenos progressos continuamente — sendo capaz de percebê-los com clareza — e pedir apreciação ou encorajamento ao outro.

Embora, de certo modo, todos nós tenhamos algum nível de reflexão em nossas vidas, é muito diferente quando a praticamos com intencionalidade e regularidade. Uma folha de papel, uma caneta e um timer é tudo que você precisa para criar um momento de reflexão intencional.

Aprender de maneira autodirigida quase sempre irá demandar algum grau de exposição e vulnerabilização, seja para fazer pedidos aos outros, compartilhar conhecimento ou enfrentar situações desconhecidas. É por isso que aprender a ser “cara de pau” é fundamental nesse processo.

Algumas pessoas alimentam a crença de que, somente por terem acessado alguma ideia teoricamente promissora, ela já é boa. Em oposição a isso, o aprendiz autodirigido desconfia do plano das ideias e procura criar pequenos experimentos para testá-las sempre.

Uma postura de deslocamento implica em “mudar de lugar para ver com novos olhos”. Uma vez que o aprendiz autodirigido tem consciência de que os contextos em que está inserido condicionam seu olhar, ele pode eventualmente trocar alguns deles a fim de enxergar novas perspectivas.

A aprendizagem sempre acontece na relação. Dessa forma, é possível ampliar e diversificar nossas interações com os outros e com o mundo a fim de maximizar descobertas. Conhecer histórias e realidades diferentes é um caminho para isso.

Cada uma das novas categorias acima poderá ser preenchida com novos hábitos de aprendizagem. Pretendo fazer esse exercício em breve.

Por ora, o que vejo é que há muitos músculos envolvidos.

Quais ainda por conhecer?

*Serendipidade é quando fazemos descobertas e conexões “por acaso”, isto é, quando o universo nos apresenta exatamente o que estávamos procurando sem procurar.

TEDx Speaker | Autor | Facilitador de comunidades de aprendizagem autodirigida — www.alexbretas.com

TEDx Speaker | Autor | Facilitador de comunidades de aprendizagem autodirigida — www.alexbretas.com