A (Anti)Pedagogia do Convite

Você já parou pra pensar nas premissas que sustentam as práticas do sistema escolar tradicional? Qual é a qualidade do ar que, ao ser respirado, não só torna possível, como também impõe certos “o quês” e certos “comos” no modelo educacional dominante?

Um dos elementos desse “ar” é a obrigatoriedade. A maioria de nós — domesticada por esse sistema — se acostumou a enxergar educação como um amontoado de cadeiras bem enfileiradas do qual, se você sair, haverá alguma punição. Se você desobedecer, se você sair da linha, se você arriscar seguir o que diz sua vontade, constrangimentos de toda ordem irão ocorrer.

Para que ninguém cruze para além do que é permitido, toda uma sistemática de vigilâncias, ameaças e controles é criada. E, se tudo correr bem, alunos, professores e até mesmo as equipes pedagógicas responsáveis por operar esse sistema sequer perceberão sua tirânica existência.

Há, porém, um antídoto poderoso para questionar o elemento da obrigatoriedade. Venho trabalhando com ele já há algum tempo nos grupos de aprendizagem que conduzo. Talvez ele tenha o poder de, com o tempo, destruir a obrigatoriedade e, a partir daí, toda a sistemática que a sustenta. Esse antídoto é o que eu chamo de (anti)pedagogia do convite.

Reflita por um momento: o que é um convite? Quais foram os convites mais importantes que você aceitou e que você recusou na vida? O que nasceu a partir desses aceites e dessas recusas?

Vejo muita beleza na palavra “convite”. Quando é usada com intenção verdadeira, ela possui uma leveza e uma suavidade difíceis de superar.

Eu acredito de verdade que tudo na vida é um convite. Ou, pelo menos, tudo na vida pode ser percebido como um convite, até mesmo em circunstâncias muito desafiadoras. Talvez seja um olhar um pouco ingênuo… mas é libertador.

Eventualmente, vamos precisar nos rebelar para fazer valer nosso direito de declinar um convite que vem embalado de imposição. E nem sempre conseguiremos fazer isso, especialmente quem não possui privilégio suficiente.

Voltando para o terreno da educação, talvez seja possível diferenciar três tipos de atos cujo objetivo é fazer o outro aderir ao que eu quero: “convites”, “convites constrangedores” e “convocações”.

Começando de trás pra frente, as convocações são o que mais nos acostumamos a ver na maioria das escolas, universidades e também nas empresas. Quando você convoca, você faz uma exigência alegando algum motivo supostamente irrefutável.

Meu amigo Conrado Schlochauer diz que a gente é convocado somente algumas vezes na vida — pra ir pra guerra, pra depor e pra votar. E brinca dizendo que treinamentos dentro de empresas não deveriam seguir essa lógica, sob o risco de se igualarem aos três exemplos acima.

Concordo com ele, apesar de pensar que, na verdade, nós somos convocados quase a vida inteira, dia após dia, dentro de uma lógica educacional que nos nega quase qualquer possibilidade de intervenção ou evasão (quando alguém evade, geralmente é porque foi expelido pelo sistema, e não porque tomou uma decisão consciente).

Além das convocações, temos também o que chamo de convites constrangedores. Sabe quando alguém insiste tanto para que você vá a uma festa infantil quando, na verdade, tudo que você queria era ficar em casa assistindo seriado e comendo pipoca? Pois é. O convite constrangedor é passivo-agressivo e, ainda que tenha certa gentileza no início, vai se tornando cada vez mais hostil quanto mais sinalizamos nossa vontade em recusá-lo.

Outros exemplos de convites constrangedores são:

  • Reuniões de trabalho;
  • Aquela pessoa que se incomoda muito caso não seja respondida imediatamente no Whatsapp;
  • A viagem de férias com a família, quando na verdade você queria era tirar férias da família.

O que é comum a todas essas situações é a dificuldade em dizer não. No fundo, sabemos que negar um convite constrangedor significa comprar uma briga com alguém, às vezes alguém que amamos muito (mas não se engane: aceitar um convite constrangedor só para agradar significa mais problemas depois).

Por fim, temos os… convites verdadeiros. Um convite sempre admite a possibilidade de recusa sem que se espere qualquer justificativa. “Eu não quero e ponto”. Um convite é uma manifestação de liberdade sem aguardar nada em troca. A partir dos aceites e das recusas livremente decididos, a frase que ecoa na mente de quem convida é: “quem veio são as pessoas certas” (ainda que ninguém mais tenha vindo). Não há ressentimento diante da recusa nem veneração diante do aceite. É o que é.

Como diferenciar convocações, convites constrangedores e convites? Às vezes é bem fácil, às vezes não… Mas o fato é que a educação que eu acredito — ou mesmo a vida — é feita de convites. Precisamos acabar com as convocações, que constituem a base do sistema escolar tradicional opressor, e também com os convites constrangedores, que oprimem de uma forma mais sutil, mas igualmente cruel.

Um modelo de aprendizagem baseado em convites cria pertencimento. Isso porque, mesmo que um convite seja recusado, ele tem o poder de gerar um sentimento de inclusão naquele que o recusou (aprendi com o Charles Vogl, autor do livro The Art of Community). Todos nós gostamos de ser lembrados. O ser humano tem um anseio biológico por pertencer.

Talvez o objetivo de um convite verdadeiro não seja fazer o outro aderir ao que eu quero, mas sim incluir, gerar pertencimento e, assim, iniciar uma abertura para as combinações criativas e imprevisíveis que podem surgir a partir daí.

Uma (anti)pedagogia do convite quer dizer, então, um certo jeito de se pensar ambientes de aprendizagem em que TODOS podem fazer seus próprios convites. E, obviamente, nesse espaço também todos podem aceitar ou declinar convites sem medo de serem julgados, discriminados ou punidos por isso.

O que ocorre se apenas uma pessoa ou algumas pessoas dentro do coletivo se sentirem com o poder de fazerem convites e todas as outras não? Seus convites se tornarão convocações ou convites constrangedores, ainda que quem convida não tenha qualquer intenção de fazer isso. Quando há somente uma voz e todas as outras são silenciadas, a tendência é que ela seja seguida sem questionar.

Um ambiente em que todos se sentem legitimados e capazes de fazer seus próprios convites é um ambiente que diz: 1) “você importa” e 2) “você tem o poder de gerar pertencimento”. E, se o objetivo é criar comunidade, essa democratização da possibilidade de gerar pertencimento se torna uma ferramenta incrivelmente poderosa.

A partir disso, te convido então a pensar:

  • O que você pode fazer agora para sair da lógica das convocações e dos convites constrangedores e começar a fazer cada vez mais convites verdadeiros na sua vida pessoal, profissional e educacional?
  • Qual é o seu papel no cultivo de ambientes em que 1) todos se sintam à vontade para recusar ou aceitar convites; e 2) todos se sintam com o poder de fazer seus próprios convites?

Faz sentido pra você? O que você pensa ou sente sobre isso?

TEDx Speaker | Autor | Facilitador de comunidades de aprendizagem autodirigida — www.alexbretas.com

TEDx Speaker | Autor | Facilitador de comunidades de aprendizagem autodirigida — www.alexbretas.com