A questão das educações alternativas serem elitistas (parte 2)

Na primeira parte deste texto, explorei algumas hipóteses em torno da pergunta “Seriam as educações alternativas restritas a poucas pessoas?” A partir da conclusão de que sim, educações alternativas são restritas a uma elite, agora vamos dar mais um passo em nossa análise.

Por que as educações alternativas são restritas a uma elite privilegiada?

É possível pensar que quem não é privilegiado a partir da ótica do sistema (de maneira simplista, quem não é branco, não tem grana nem escolaridade elevada e certamente não estudou em colégios e universidades de renome) precisa buscar nos meios institucionais formais o reconhecimento social de que necessita. Essas pessoas geralmente não têm acesso às redes de contatos e ao capital cultural (na perspectiva de Bourdieu) que quem é privilegiado têm. Vale lembrar o caso recente da prisão de Eike Batista, que foi parar numa cela comum porque não tem curso superior. Quando é que, na cabeça dele, ele precisaria disso? Quando é que ele cogitaria ser preso? Provavelmente nunca, porque ele não precisava das muletas formais — ele tinha o mais importante.

Suponho que nunca deva ter passado na mente de um jovem comum do Capão Redondo o sonho ou mesmo a possibilidade de se “criar a própria educação”, o que guarda certa proximidade com “recriar a própria vida” (a não ser que esse jovem tenha estudado ou esteja estudando no CIEJA Campo Limpo ou em algum lugar parecido). Será que ele pode mesmo recriar, reinventar seu caminho em direção a uma existência mais preenchedora de suas necessidades? Mais harmoniosa consigo mesmo? Uma realidade mais amena? Não sei. Poder talvez até possa, mas o trajeto seria incrivelmente (e dolorosamente) desafiador. Muito mais do que nós conseguimos imaginar.

Veja bem: nós, pessoas privilegiadas que estudamos em escolas tradicionais — ou seja, que nada tinham de alternativas — , sofremos opressão epistemológica. Não respeitaram nossas formas e preferências de pensar, nossos sentires e nossas vontades na escola e nos outros ambientes pedagogizantes que imitam a escola pelos quais passamos. Fomos atropelados pelo trator da verdade objetiva e desfigurados pela tortura da padronização. Ainda que tenhamos realmente penado com tudo isso, não sofremos opressão social. Não da forma e com a dureza que um jovem do Capão provavelmente sofreu. Não nos acostumamos a ver nossos conhecidos mortos em chacinas. Não perdemos familiares e amigos para o tráfico das drogas. Não ficamos sem danoninho.

O que concluo disso é: boa parte dos grupos menos privilegiados sofrem opressão social e epistemológica. No que se refere a esta última, não existem muitas iniciativas educacionais alternativas para esse público (isto é, rotas de fuga que convidam a pensar um conhecimento rizomático). Via de regra — muito cuidado aqui porque há exceções — o que essas pessoas dão conta é de se agarrar às estruturas já estabelecidas. Digo dar conta não no sentido de inteligência ou capacidade, mas sim de contexto. Agarrar-se às estruturas já estabelecidas parece mais seguro; tentar caminhos outros é arriscado ou “não é para elas”. Isso quando elas sabem que existem rotas alternativas. A superestrutura, neste caso, é bem boa em eliminar as possibilidades de fuga do trajeto único. Criar? Inventar? Empreender? Ser artista? Fazer o que nasceu para fazer ou o que se quer fazer? Não se é permitido imaginar esse tipo de coisa. Há toda uma teia cultural (e social e econômica) que asfixia esses potenciais trajetos emancipadores.

Nós já temos as garantias e as chancelas que nossos privilégios nos deram: nos é permitido vislumbrar outros horizontes.

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