Aprendendo para curar nossas feridas

Este texto foi reescrito a partir do post “Caminhos de cura pela aprendizagem”, que publiquei em 2014. Veja o original aqui.

A aprendizagem pela paixão acontece primeiro no terreno da curiosidade. Rubem Alves dizia que o curioso tem coceira nas ideias. Mas o que está por trás dos nossos impulsos curiosos? Em outras palavras: por que ficamos curiosos com determinadas coisas e outras não?

Quando não conseguimos parar de “coçar” o que nos desperta curiosidade, surge o que eu chamo de inquietação. Essa sensação já é uma velha conhecida minha. Por exemplo: ao descobrir o movimento da educação democrática — minha porta de entrada para o universo da aprendizagem autodirigida -, era como se meus dedos dançassem sozinhos no teclado do computador. Site após site, autor após autor, eu podia sentir meu entusiasmo crescendo cada vez mais.

Um termo que descreve bem esse sentimento é learner’s high, que pode ser traduzido como a brisa ou onda do aprendiz. Sabe quando ficamos extasiados pelas novas descobertas que estamos fazendo sobre o mundo e/ou sobre nós mesmos? Pois é.

Ao me permitir seguir o fio da minha curiosidade, algo mágico aconteceu. De súbito, o mundo me presenteava com referências ao assunto do meu interesse em cada rua que caminhava. Talvez as referências estivessem sempre ali, mas eu mudei. Meu olhar mudou. As sincronicidades me tomaram por inteiro. Longe de ser obra do acaso, eu sabia que isso tinha nome: serendipidade.

Eu já havia sentido essa mesma inquietação muitos anos antes, ao participar de fóruns na internet sobre temas que me interessavam na adolescência — especialmente técnica vocal, espiritismo, musculação e nutrição. Durante boa parte do tempo em que eu não estava no colégio, eu estava aprendendo.

Hoje em dia, consigo perceber claramente quando chego na fase da inquietação. É uma das preciosidades da vida de um aprendiz autodirigido.

Mas o que habita um lugar ainda mais profundo que a inquietação? Por que esse sentimento aparece em algumas de nossas buscas e em outras não?

Com a consciência que tenho hoje, olho pra trás e vejo que minha história na educação formal foi uma história de opressão — ainda que povoada por alguns pequenos momentos de autonomia. Infelizmente, minha trajetória não é incomum: é a realidade da maioria das crianças e adolescentes. Só que, no sistema escolar tradicional, a opressão é tão naturalizada que parece normal. Como assim, educação sem sala de aula, prova e professores despejando conteúdo sem parar? Aos olhos de muitos, qualquer caminho que questione as raízes do sistema parece inconcebível.

Porém, quando li o primeiro artigo sobre alternativas ao sistema educacional convencional — acho que era do José Pacheco -, eu descobri que essa não era a única forma de se pensar educação. Uma fresta se abriu.

A curiosidade que eu senti pelo aprender com autonomia, e que depois se transformou em inquietação, me mostrou um machucado que eu nem sabia que tinha. E quanto mais eu descobria projetos educacionais pautados por essa ótica, mais eu conseguia enxergar com clareza que milhares de outros seres humanos — crianças, jovens e adultos — já viviam essa outra realidade.

A partir dessa dolorosa e esperançosa constatação, uma escolha foi sendo gestada: quero trabalhar para fortalecer em mim e em outras pessoas o “gosto” pela aprendizagem autodirigida — termo que fui conhecer anos depois do meu primeiro contato com o assunto.

A curiosidade que virou inquietação agora virou propósito. E logo eu percebi que esse propósito tem uma conexão profunda com a cura da minha própria ferida educacional.

Ficar curioso, então, é a primeira pista de que algo acendeu uma faísca em nossos corações — ou o topo do iceberg. A inquietação pode surgir em seguida como uma intensificação desse processo. Poderíamos dizer que ela é a “curiosidade apaixonada”. Em algum momento, podemos vir a descobrir (perceber) os motivos mais profundos do nosso envolvimento. Provavelmente esses motivos estarão relacionados com nossas histórias de vida, histórias de pessoas que amamos ou simplesmente um acontecimento que nos atravessou emocionalmente.

Dar vazão ao que nos deixa curiosos se torna, então, uma forma de curar uma ferida importante. O entusiasmo é consequência.

Perguntas de reflexão:

  • O que instiga minha curiosidade?
  • Como me sinto quando estou constantemente curioso com algo?
  • Por que me sinto assim?
  • Quais histórias e acontecimentos emocionais se conectam com essa minha inquietação? Quais feridas preciso curar em mim e no mundo? Como seria me dedicar a esse caminho de cura?

Publicado originalmente em www.alexbretas.com.

TEDx Speaker | Autor | Facilitador de comunidades de aprendizagem autodirigida — www.alexbretas.com

TEDx Speaker | Autor | Facilitador de comunidades de aprendizagem autodirigida — www.alexbretas.com