Caminhos da aprendizagem

Como a antroposofia pode nos ajudar a compreender como aprendemos

Segundo a antroposofia, ciência espiritual sistematizada pelo filósofo alemão Rudolf Steiner, todos nós possuímos as faculdades anímicas do Pensar, Sentir e Querer/Agir. A partir dessa compreensão do ser humano, chamada de arquétipo da trimembração, também é possível obter insights a respeito de como ocorre o fenômeno da aprendizagem.

Visualize por um momento um fluxo que começa no Pensar, passa pelo Sentir e chega ao Querer/Agir. Podemos compreender a aprendizagem a partir desse fluxo: na verdade, é por meio desse caminho que a educação moderna se estruturou. Na escola ou na universidade em geral o que acontece é: recebemos um conteúdo (Pensar), que pode ser uma teoria, um estudo de caso ou o passo a passo de um método, por exemplo; absorvemos o conteúdo a partir dos “encaixes” que ele faz com nossas visões e hábitos relacionados ao tema em questão, o que usualmente acaba gerando em nós simpatias e antipatias imediatas (Sentir); e, por fim, executamos o novo conteúdo que nos foi transmitido, quer seja por meio de um teste ou de uma avaliação ou por meio de desafios reais no trabalho e na vida (Querer/Agir). Esse processo pode então ser resumido da seguinte forma: Receber (P) > Absorver (S) > Executar (Q).

O caminho descrito acima é atualmente o mais comum na educação formal. No entanto, ao considerar o que ocorre em dinâmicas de aprendizagem informal, um processo inverso pode ser identificado. Imagine, por exemplo, como um empreendedor aprende: ele primeiro cria um novo produto, projeto ou organização aplicando os conhecimentos de que dispõe (Querer/Agir); em seguida, percebe como a solução criada se encaixa ou não às necessidades e ao perfil das pessoas que interagem com ela (Sentir); e, finalmente, conclui o que pode ser aprimorado na solução e que conceitos e teorias podem estar operando por trás dela (Pensar). Tal processo pode ser resumido, portanto, do seguinte modo: Criar (Q) > Perceber (S) > Concluir (P).

Vale lembrar que as dimensões do Pensar, Sentir e Querer trabalham, cada uma, com um objeto distinto: o Pensar lida com conteúdos (interpretações e ideias), o Sentir com a interação (como nos comunicamos com os outros e com o mundo) e o Querer com procedimentos (formas de se fazer as coisas).

Os dois caminhos de aprendizagem sintetizados na figura acima são igualmente válidos e importantes. Não há certo e errado. A depender da situação, a ênfase do processo de aprendizagem poderá recair sobre um deles. Por exemplo: alguém que quer aprender a pilotar um avião provavelmente precisará recorrer mais ao Receber > Absorver > Executar do que ao Criar > Perceber > Concluir, isso porque estamos falando de uma atividade arriscada e que já foi amplamente estudada e sistematizada anteriormente. No entanto, se uma outra pessoa deseja se tornar um chef de cozinha, em algum momento ela precisará apostar alto no Criar > Perceber > Concluir, mesmo que a princípio utilize receitas para preparar seus pratos. Isso acontece devido ao fato de a gastronomia ser uma atividade bastante ligada à observação e à experimentação sucessiva (empirismo). Um chef de cozinha não pode se contentar em apenas seguir receitas.

Possivelmente, ao se deparar com os exemplos acima, você já percebeu que em qualquer esforço de aprendizagem é importante conciliarmos os dois caminhos, ainda que em momentos diferentes. Se entendemos isso, fica mais fácil perceber que os dois processos são complementares e se retroalimentam.

O caminho do Receber > Absorver > Executar é chamado Caminho da instrução, ao passo que o Criar > Perceber > Concluir é denominado Caminho da descoberta.

Faz sentido? Ao aprender algo novo, quais oportunidades de aprendizagem pelas vias da instrução e da descoberta você é capaz de criar?

Este texto foi baseado num dos conteúdos oferecidos pelo Programa Germinar de formação de líderes facilitadores do Instituto EcoSocial. Agradeço imensamente ao Germinar por contribuir na disseminação de uma visão ao mesmo tempo simples e profunda sobre a aprendizagem.

Para saber mais sobre mim, acesse o site www.alexbretas.com.

TEDx Speaker | Autor | Facilitador de comunidades de aprendizagem autodirigida — www.alexbretas.com

TEDx Speaker | Autor | Facilitador de comunidades de aprendizagem autodirigida — www.alexbretas.com