4 condições para o cultivo de comunidades de aprendizagem autodirigida

Comunidades de aprendizagem autodirigida são fenômenos complexos e diversificados. Dessa forma, o exercício de “encontrar” certas condições ou princípios necessários para a sua emergência e sustentação é, sem sombra de dúvidas, um reducionismo.

Ainda assim, talvez seja um exercício interessante.

Com a devida consciência de que “o mapa não é o território”, exponho abaixo quatro condições que neste momento considero essenciais para o cultivo de comunidades desse tipo.

Autonomia

Existem poucos espaços sociais realmente construídos com tijolos de liberdade. Quem procura por uma comunidade de aprendizagem autodirigida anseia por isso. No entanto, apenas liberdade não é suficiente: é preciso que a comunidade apoie cada um na conquista de sua autonomia. Um ambiente livre pode soar opressor para aquele que ainda não aprendeu a navegar a partir da própria bússola. Como ajudar pessoas a construírem a própria bússola? Adotar o lema “se joga que aqui tem rede” é um ótimo começo. A impossibilidade de se ensinar autonomia abre caminho para o fenômeno de inspiração mútua — ou coragem comunitária — que ocorre em um ambiente onde todos “se jogam porque aqui tem rede”. É mais fácil conquistar autonomia dentro de uma comunidade onde todos estão na mesma busca.

Conexão

É a cola humana que sustenta os relacionamentos mais profundos. Seu pressuposto é a confiança, mas só confiar não é suficiente. Eu posso confiar intensamente em um grupo de pessoas e ainda assim não dizer o que me aflige, o que me aprisiona ou o que me alegra. É preciso querer dizer. A confiança está para a conexão assim como a liberdade está para a autonomia: mesmo sendo pilares fundamentais, são incapazes de revelar toda a história. Conexão é o que nos faz ter vontade de estar uns com os outros pela simples fruição de sua companhia. É o que nos impulsiona na direção da vulnerabilidade, do acolhimento e da compaixão. Brincadeiras, risadas, arte, histórias pessoais, “mandar a real”, apreciações e celebrações ajudam uma comunidade a cultivar conexão.

Ritmo

A vida é marcada por diversos tipos de ordenações mais ou menos visíveis: as estações do ano, o dia e a noite, estrofe e refrão, dentre tantas outras. A previsibilidade das ordenações nos fornece segurança, e a segurança nos permite explorar. Uma comunidade precisa criar ou descobrir seu próprio ritmo de atividades e experiências, às vezes mais tranquilo, às vezes mais intenso. O ritmo da comunidade não deve “engolir” os ritmos de cada membro, e sim informar. Quando sou informado pelo ritmo da comunidade, consigo ter um parâmetro sobre meu ritmo individual. Além disso, o ritmo coletivo fornece um senso de compromisso que só é possível quando compartilhamos nosso percurso com outras pessoas. Ver que todos estão caminhando nos ajuda a caminhar.

Progresso

Aprendizado significa avançar, mudar para melhor — seja por meio de novos entendimentos ou novas posturas e atitudes. Se não somos capazes de testemunhar esse progresso, se não conseguimos ter clareza sobre ele, vamos perdendo o tesão de aprender com o tempo. Toda vez que sentimos que estamos avançando em direção a algo que desejamos, nosso corpo libera dopamina, e isso nos energiza. É biológico. A espuma do shampoo e da pasta de dente não altera em nada a eficácia desses produtos, mas está lá para evidenciar o progresso a cada instante de uso — os marqueteiros conhecem a biologia humana. Quanto mais você esfrega, mais espuma sai. Uma comunidade de aprendizagem autodirigida precisa criar mecanismos para que seus membros possam “sentir que estão aprendendo” de maneira concreta. Ou seja: nossas comunidades precisam de espuma.

Obs.: no que se refere à autonomia, é preciso dizer algo mais. Um ambiente livre, pressuposto para que a conquista da autonomia possa se efetivar, não é um ambiente onde “todos podem fazer o que quiser”. Se assim fosse, as relações de poder e as diferenças estruturais de privilégio “comeriam” toda a liberdade dos menos privilegiados. Toda relação pressupõe poder. Toda a sociedade é marcada por desigualdades sistêmicas. Desníveis de privilégio entre as pessoas estão conectados com absolutamente tudo que elas forem fazer e aprender. A interação dentro da comunidade é afetada por esses desníveis; a capacidade de criar e aproveitar oportunidades de aprendizagem; a própria capacidade de conquistar autonomia, que embora seja possível para todos, é muito mais difícil para uns do que para outros com base em influências familiares, raciais, de gênero, econômicas, etárias etc. Por isso, uma comunidade livre deve ser uma comunidade que ativamente cria mecanismos para equalizar o máximo possível essas assimetrias, inclusive medidas para conscientizar os membros a respeito dessas diferenças e recrutá-los na promoção da verdadeira liberdade: a inclusão.

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TEDx Speaker | Autor | Facilitador de comunidades de aprendizagem autodirigida — www.alexbretas.com

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