Crise de pertencimento e o valor das pop-up communities

Quando eu tinha por volta de 9 anos, eu sentia a escola como um lugar bastante hostil. Talvez por eu me encaixar no que se esperava de um “bom” aluno — o que significava prestar atenção na aula, fazer os deveres e tirar boas notas — , eu não me encaixava na hierarquia social dos meus colegas. Meus comportamentos eram vistos como estranhos, minha aparência era repelida e, como se não bastasse, eu era ruim no futebol e em quase todos os outros esportes.

Em outras palavras, minha experiência na escola foi marcada por um anseio em ser aceito e pertencer. E, mesmo que suas vivências escolares tenham sido totalmente diferentes das minhas, eu aposto que você também ansiava por essas mesmas coisas.

Ser aceito, amado, reconhecido pelo que se é, valorizado e apreciado, ser visto como um ser humano infalivelmente legítimo, pertencer a espaços e grupos que enxerguem em você uma peça essencial do coletivo… Nós precisamos muito disso.

Mas quantos de nós realmente conseguimos?

Vivemos uma crise de pertencimento. Cidades se tornam cada vez maiores e apartamentos cada vez menores. Não falamos com o vizinho, mas habitamos um corpo cuja biologia foi formada nos tempos da tribo. Para muitos, o trabalho virou religião e o culto à performance invadiu todas as áreas da vida. Em um cenário tão individual quanto utilitarista, o cultivo de relações significativas — a base de toda comunidade — fica sufocado.

Por mais que seja legal acreditar, aceitar e amar a si mesmo, a coragem, a aceitação e o amor são emoções sociais. Eu acredito, aceito e amo a mim mesmo na proporção em que desenvolvo relações que me ajudem a sustentar isso. O ambiente em que estamos é o elemento-chave.

É por isso que boa parte do meu trabalho no campo da aprendizagem autodirigida nos últimos anos tem a palavra comunidade como base. Desde criança eu não só desejava pertencer, como também já criava estratégias de comunidade para conseguir lidar com a falta de aceitação. Na 2ª ou 3ª série, lembro de ter criado um “clube” de amigos com carteirinha, regras e combinados. Na faculdade, organizava rodas de conversa para discutir os temas que realmente importavam para os alunos — já que boa parte das aulas não fazia isso.

Mesmo se eu trabalhasse com gastronomia ou engenharia, é provável que a busca por criar comunidades continuaria viva em mim. Mas como gerar senso de comunidade em um mundo onde tudo é instantâneo e efêmero?

Um caminho são as comunidades pop-up (pop-up communities). Antigamente, uma comunidade facilmente durava por toda a vida: a igreja, o clube, o grupo da empresa… Agora, ao mesmo tempo que as carreiras e os relacionamentos se tornam cada vez mais múltiplos e menos duráveis, as comunidades as quais pertencemos seguem na mesma linha.

Uma comunidade pop-up pode ser entendida como um espaço de pertencimento temporário. Se você vai para um retiro de meditação de 4 dias e se sente profundamente conectado com as pessoas lá, isso pode ser considerado uma comunidade pop-up. Se, durante um curso online, você usa o fórum virtual para se abrir com seus colegas de turma e sente que criou vínculos verdadeiros com eles, idem.

Desde o final da faculdade até por volta dos meus 25 anos, eu fiz muitos cursos de facilitação e autoconhecimento, e alguns deles envolviam viagens e imersões. Nessas ocasiões, eu me lembro com frequência de me sentir muito conectado ao grupo. Era como se ali eu pudesse ser quem eu sou sem me preocupar em agradar.

Alguns dos meus melhores amigos hoje vieram dessas experiências. E, pelo que observo, isso é comum em qualquer experiência de comunidade pop-up: você carrega fragmentos da comunidade consigo depois que ela acaba. Esses fragmentos podem ser conhecimentos, amigos, conexões e oportunidades profissionais, mudanças de comportamento e até mesmo novos propósitos de vida.

Com a aceleração desequilibrada do mundo, talvez seja difícil nos comprometermos com comunidades de longo prazo. Mas com comunidades pop-up nós conseguimos nos comprometer. O fato de existir um prazo de validade gera, paradoxalmente, alívio e ansiedade. Ficamos aliviados porque logo poderemos voltar para nossas vidas atribuladas e ao mesmo tempo ansiosos porque a experiência de pertencer é muito boa para acabar tão rápido. Como lidar com isso? Se você souber, me conta.

Em alguns aspectos, a comunidade pop-up se assemelha à jornada do herói de Joseph Campbell:

  • Saímos do nosso mundo conhecido curiosos com o que acontecerá;
  • Encontramos aliados, mentores e inimigos no decorrer da aventura;
  • Acessamos medos e vulnerabilidades que permitem nos conectar com o outro e com a gente mesmo;
  • Voltamos ao mundo conhecido portando fragmentos que modificarão nossa existência dali em diante.

Se você, assim como eu, quer se sentir aceito, reconhecido e pertencente, e se sobretudo você deseja criar esse tipo de ambiente para outras pessoas, então as comunidades pop-up podem ser uma ferramenta interessante. Em vez de nostalgiar por uma experiência perene de comunidade que é cada vez mais rara, é possível aprender a navegar por comunidades temporárias e ir conectando os fragmentos em uma colcha de retalhos só sua.

Há muito ainda para refletir sobre esse tipo de comunidade. Mas só o fato de nomeá-las e ter consciência ao criá-las já aponta um caminho…

Agradeço à Mariana Jatahy por me apresentar ao conceito de comunidades pop-up, à Ria Baeck por ter escrito um post sobre o tema e à Marcelle Xavier pelas conversas sempre instigantes sobre comunidade.

TEDx Speaker | Autor | Facilitador de comunidades de aprendizagem autodirigida — www.alexbretas.com

TEDx Speaker | Autor | Facilitador de comunidades de aprendizagem autodirigida — www.alexbretas.com