Desafio #7: Você consegue identificar as crenças da escolarização na sua vida?

Por que Desescolarização é importante?

[Texto publicado no dia 22/02]

Nós saímos da escola, mas a escola não saiu da gente. A visão de mundo escolarizada — linear, reducionista, individualista, hierárquica — permanece incrustada em cada um de nós, e é trabalho de uma vida inteira ressignificá-la.

Esse trabalho de ressignificação de crenças é uma condição fundamental para a manifestação da aprendizagem autodirigida, especialmente em pessoas adultas.

Nós, adultos, passamos muito tempo sentados no banco da escola. Respiramos por muito tempo aquele ar.

Já disse aqui que não sou contra escolas, muito pelo contrário. Elas são um equipamento social indispensável, especialmente em países como o Brasil.

Mas não dá pra negar que a maneira como se pratica educação nas escolas tradicionais nos ensina muito pouco sobre autonomia, cuidado, protagonismo, solidariedade e colaboração.

Não dá tempo de vivenciar esses valores na escola. Todos estão muito ocupados estudando sobre as organelas da célula ou fazendo bagunça na turma do fundão.

Ivan Illich nos conta sobre o “currículo oculto” da escola, que acaba também informando quase todo o sistema educacional formal.

O currículo oculto é o que se introjeta culturalmente. É aquilo que passamos a reproduzir sem questionar.

Conformidade, obediência, ordem, valorização de certas inteligências e conhecimentos e desvalorização de outras, hierarquia, competição e normalização do preconceito são alguns de seus componentes.

Precisamos entender exatamente como a escolarização que vivemos nos influenciou — e isso é muito mais amplo do que os conteúdos que estudamos.

Desafio #7: passo-a-passo

  • A lista abaixo representa o conjunto de crenças da escolarização tradicional, ou seja, tudo que o sistema escolar nos fez acreditar. Leia a lista atentamente.

Não sou capaz de aprender sem um professor ou um mestre.

Aprender = ser ensinado.

Existem pessoas que são “gênios”, pessoas com uma inteligência “normal” e pessoas “abaixo da média”.

Só existe um tipo de inteligência, medida pelo QI e pelas notas nas provas.

Pessoas de idades e “desempenhos” acadêmicos distintos não se misturam.

Só adultos podem “transmitir” o conhecimento necessário para se tornar um “bom adulto” (o que quer que signifique ser um bom adulto).

É proibido ajudar e compartilhar conhecimento com os outros.

Os assuntos que me interessam não são importantes. O que importa é o que está dentro do currículo.

Todo mundo precisa saber sobre todos os assuntos do currículo (português, matemática, história, biologia etc).

Se eu passar na prova, então eu sei.

A nota da prova atesta o meu valor.

O único jeito de aprender algo é fazendo um curso ou assistindo aulas.

O tempo fora da escola ou do estudo focado não serve de muita coisa.

Brincar, imaginar, conversar e viajar fazem a turma ficar com o conteúdo “atrasado”.

É preciso separar vida pessoal e estudos (e, depois, vida pessoal e profissional).

Professores não podem ser amigos de seus alunos, sob pena de se tornarem permissivos.

É o mestre quem diz quando o aprendiz estará pronto.

Aprender se reduz a estudar.

Só tenho disciplina se alguém ficar me cobrando.

Só irei aprender realmente se eu ler muito e dominar todas as teorias.

A prática só pode vir depois da teoria.

Tem o jeito “certo” e o jeito “errado” de se pensar e fazer as coisas.

Só existe uma única verdade, e ela está nos livros.

Questionar é importante, desde que você não questione demais ou não questione “quem detém o conhecimento”.

No melhor dos casos, a hierarquia deve ser respeitada, e no pior, obedecida.

A progressão do conhecimento humano é uma trajetória linear e bem ordenada.

O conhecimento se divide em caixinhas que atendem pelo nome de “matérias” ou “disciplinas”.

O conhecimento de alguns é mais válido do que o de outros (e o mais valorizado de todos é branco, ocidental, científico, machista, heteronormativo, individualista, antropocêntrico e mantenedor de desigualdades).

Ir bem na prova é reproduzir o jeito de pensar do professor e do livro didático.

O professor precisa sempre estar no controle e sua autoridade não pode nunca ser contestada.

O acúmulo de diplomas prestigiados é a a única forma de ter sucesso na vida.

Se todos tiverem acesso à escola, então todos terão a mesma oportunidade de “vencer na vida”.

Seu valor enquanto indivíduo é definido pelas suas conquistas (e quem define o que é conquista e o que é fracasso não é você).

“Vencer na vida” significa estudar muito, tirar boas notas e continuar fazendo o que esperam de você.

  • Todos nós, em maior ou menor grau, ainda alimentamos várias dessas crenças, seja de maneira consciente ou inconsciente. Na sua vida pessoal e profissional, quais delas você têm mais dificuldade em desconstruir? Quais delas, quando você leu, foram mais marcantes?
  • Selecione as 3 crenças mais difíceis de quebrar na sua experiência e escreva um pequeno relato contando porque elas te desafiam tanto (1 parágrafo para cada é suficiente). Este é o Desafio de hoje.
  • O Desafio só será concluído quando você compartilhar o seu relato nos Comentários do canal no Telegram. Aproveite para contar quais sentimentos e reflexões você teve ao ler a lista.

Obs.: a lista acima foi criada por mim, mas contou com preciosas colaborações de alguns tutores da primeira turma do MoL (Masters of Learning), realizada em 2020.

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TEDx Speaker | Autor | Facilitador de comunidades de aprendizagem autodirigida — www.alexbretas.com

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Alex Bretas

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