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E se tudo que te ensinaram sobre aprender… estiver errado?

A educação tradicional como herança colonial

8 min readJul 21, 2025
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📢 ATENÇÃO: este post é um trecho do meu próximo livro, A2C: Aprendizagem Autodirigida em Comunidade (título provisório).

Estou escrevendo esse livro “a céu aberto” e você pode me acompanhar nessa aventura: é só apoiar a partir de R$ 15 reais. Saiba mais aqui.

O que é essa educação que temos hoje — se é que podemos chamá-la assim — e como podemos compreendê-la a partir de lentes mais aguçadas? A resposta é longa e complexa, e quem sou eu pra tentar ser completo nela (nós nunca conseguimos atingir a completude em nada, aliás — que alívio). Mas, com humildade, vou te dizer o que vejo.

Certa vez, escrevi um livrinho chamado Crenças Escolarizantes: a educação heterodirigida e tradicional que ainda vive em você. O livro é resultado de uma investigação que parte da seguinte hipótese: muitos anos sentado num banco de escola causam rasuras profundas em nós. Crenças ou visões de mundo específicas nascem nas pessoas a partir dessa experiência; um desvio ou amassamento das rotas de vida a partir de uma escolarização quase sempre forçada e, por vezes, traumática. Ivan Illich fala sobre currículo oculto — as coisas que são ensinadas através dos modos como as coisas existem e são feitas na escola. Assim é que o tablado ensina hierarquia, as cadeiras enfileiradas ensinam centralidade, a não participação na escolha do que aprender ensina submissão, a impossibilidade de influenciar nas decisões coletivas ensina conformidade etc.

O meio torna-se a mensagem. Se você é um peixe e passa o tempo todo na água, você esquece que a água existe. Ela passa a ser algo dado, mas suas características não deixam de afetar seu corpo aquático. Muitas crianças e adolescentes passam boa parte de suas vidas como peixes no aquário das escolas — e, na vida adulta, teimam em reduzir seus envolvimentos educativos a meros mergulhos ocasionais e enfadonhos nos simulacros de escola da maioridade: cursos e treinamentos. A qualidade da água do aquário-escola não mudou muito no decorrer dos séculos, e isso se deve aos seus procedimentos empedrados: aulas, aulas e mais aulas; a figura onipresente e central da professora ou do professor; anotações sem sentido; recreio para atenuar o sofrimento; matérias, ensinadas via de regra separadamente; conteúdos preestabelecidos e padronizados; provas e trabalhos com avaliação linear; mensuração e comparação de performance; punições e recompensas; vigilância; hierarquias rígidas; arquitetura predial e asséptica etc.

Por trás desses modos de proceder pairam algumas ideias fundantes da erva daninha escolarização. As escolas se parecem em todos os lugares e isso não é coincidência, é o poder de um único povo sobre os outros. Ao escarafunchar as raízes éticas e epistêmicas desse modelo, algumas premissas são reveladas: “a realidade é objetiva e precisa sempre ser explicada” (a experiência direta que se pode ter para conhecer as coisas é quase perigosa); “há uma verdade, e ela provavelmente está nas mãos das pessoas adultas, que sabem o que fazem”; “aprendizes precisam estar sempre sob controle” (um termo mais preciso seria “domesticação”); “certos saberes são mais importantes que outros, e quem decide isso são pessoas específicas do mundo adulto (burocratas educacionais) com base em verdades universais”; “certas formas de ver e fazer as coisas são mais válidas que outras, e algumas são totalmente inválidas”; “os saberes do mundo já estão dados, e serão apresentados de uma maneira organizada, neutra, progressiva e inofensiva”; “certas pessoas são percebidas como mais capazes e inteligentes que outras” (e isso só se sustenta pois há uma priorização do que fazer com essa inteligência, além de parâmetros ideais de capacidade a serem atingidos).

Estamos falando de um aparato ideológico que funciona como chave de fenda, apertando sem pestanejar os parafusos frouxos das engrenagens que regem a sociedade. Um nó na garganta de quem teima arriscar outras composições de mundo. Uma porta lacrada através da qual não confluem diferentes modos de ser. Um baú cujos segredos — os jeitos “certos” de saber e fazer — só são revelados a quem finalmente aceita a anestesia.

As escolas estão baseadas na suposição de que há um segredo para tudo nesta vida; de que a qualidade da vida depende do conhecimento desse segredo; de que os segredos só podem ser conhecidos em passos sucessivos e ordenados; de que apenas os professores sabem revelar corretamente esses segredos. Um indivíduo de mentalidade escolarizada concebe o mundo como uma pirâmide, composta de pacotes classificados; a eles só têm acesso os que possuem os rótulos adequados.

Ivan Illich vai afirmar que não somente as escolas refletem uma visão de mundo escolarizada, mas toda a sociedade. O mundo tornou-se escolarizado. É assim que os procedimentos e as premissas que descrevi acima, além de tantos outros, vão se enfiando em nossos modos de viver, e nisso os reproduzimos. Vão se alastrando fora de nós e dentro também. Petrificam as existências. Com John Holt podemos misturar mais alguns lampejos à crítica de Illich: três metáforas úteis para compreender a educação tradicional (metáforas emolduram entendimentos através de imagens, e assim influenciam o pensar e o agir). A primeira é o aprendizado como uma linha de produção industrial, de modo que alunos e alunas são os produtos.

(…) a educação como uma linha de montagem em uma fábrica de enlatados ou engarrafados. Penduradas nas esteiras estão filas de recipientes vazios de diferentes formas e tamanhos. Ao lado delas, uma série de aparelhos de esguichar, controlados pelos empregados da fábrica. À medida que os recipientes passam, os empregados esguicham em seu interior variadas quantidades de diferentes substâncias — leitura, ortografia, matemática, história, ciências. (…) O pressuposto é que qualquer coisa que se esguiche no recipiente entrará nele, e uma vez em seu interior, ali permanecerá.

A segunda metáfora é a do laboratório, que apresenta as pessoas estudantes como cobaias de testes descolados da realidade.

(…) os alunos na escola como ratos de laboratório em uma gaiola, sendo treinados para fazer algum tipo de truque. Na maioria das vezes, um tipo de truque que nenhum rato da vida real teria qualquer razão para fazer. Põe-se, por exemplo, o rato em um lado da gaiola e, no outro, um triângulo e um círculo. Se o rato pressiona a figura ‘“certa” — aquela que o experimentador quer que ele pressione –, lá vem uma saborosa recompensa. Se o rato pressiona a figura ‘errada’, a indesejada, recebe um choque elétrico.

A terceira é a escola como um hospital, ou até mesmo um hospício, onde estudantes têm deficiências a serem tratadas.

Mais recentemente, no entanto, os educadores encontraram outra explicação para a não-ocorrência de aprendizagem: ‘deficiências de aprendizagem’. Essa explicação se tornou popular porque oferecia um argumento a todos os envolvidos nesse assunto. Pais de classe média necessitados de se livrar da culpa pelo fracasso dos filhos puderam parar de perguntar “O que fizemos de errado?” Os especialistas lhes diziam: “Vocês não fizeram nada de errado; o problema é só o fato de que seu filho tem uns parafusos soltos na cabeça”.

Além das três metáforas que John Holt aponta, eu adicionaria ainda uma quarta: as escolas como igrejas e o processo educacional como dogma — uma catequese secular de corpos e mentes. Não à toa a escolarização em massa surgiu historicamente a partir de uma investida religiosa: trata-se de um tipo de aculturação bem específico. Um doutrinamento de si é praticado nos templos escolares, e ai de você se não internalizá-lo: não terá um lugar no céu da “cultura do sucesso”, da “cultura erudita”, da “cultura científica” e nem da “cultura globalizada”. É por isso que a escolarização foi utilizada amplamente nos últimos séculos como aliada da colonização. Com isso vemos escolas em territórios indígenas, quilombos, comunidades rurais, mas isso sequer seria necessário, pois já ensinamos boa parte do mundo, através das escolas, a humilhar essas territorialidades. A matança também é epistêmica e não é de hoje.

No Brasil, além da importação de um sistema educacional europeu que nada tem a ver com as teorias e práticas de aprendizagem dos povos originários — bem mais aderentes ao aprendizado autodirigido em comunidade, é bom dizer –, há o apagamento, silenciamento e a apropriação dos saberes que chegaram até aqui embarcados pela diáspora africana. Isso também não é acidente, é projeto.

Nessa dinâmica, o aparelho educacional tem se constituído, de forma quase absoluta, para os racialmente inferiorizados, como fonte de múltiplos processos de aniquilamento da capacidade cognitiva e da confiança intelectual. É fenômeno que ocorre pelo rebaixamento da autoestima que o racismo e a discriminação provocam no cotidiano escolar; pela negação aos negros da condição de sujeitos de conhecimento, por meio da desvalorização, negação ou ocultamento das contribuições do Continente Africano e da diáspora africana ao patrimônio cultural da humanidade; pela imposição do embranquecimento cultural e pela produção do fracasso e evasão escolar. A esses processos denominamos epistemicídio.

O trecho acima de Sueli Carneiro — uma de suas elaborações a respeito da ideia de epistemicídio — é uma forma de entrar em contato com a dolorosa ferida colonial e escravista que habita o modelo educacional dominante. Racismo e colonialismo tornam-se parte da paisagem e se reproduzem como vírus em ambos os currículos, oficial e oculto. A base filosófica do processo de escolarização em massa é branca e europeia: alunos e alunas trancafiados em carteiras por horas e anos ouvindo alguém explicar fragmentos segregados de mundo, isso é uma ideia prussiana, comênica (relativo a Comenius, um dos principais sistematizadores da pedagogia moderna). Está longe de representar um ideal universal de educação — o tal “ensinar tudo a todos” — como queriam nossos colonizadores. Se realmente quisermos pensar uma educação que nos emancipe dos edifícios coloniais, é preciso entender que o ódio à diferença e a tentativa de exclusão do diferente são produtos não apenas do que se ensina, nem somente da maneira com que se ensina, mas sobretudo de um modelo educacional alicerçado e acorrentado ao ensino — compulsório, linear, hierárquico, punitivo e compartimentalizado.

“O que as crianças aprendem quando ficam presas? A fugir”. Assim Ailton Krenak resume a contradição da escola do Ocidente, que já invadiu e contaminou os modos de vida de muitos povos originários por imposição governamental. Não havia escolas, do jeito que as conhecemos, em comunidades indígenas. Ao afirmar que a liberdade aos olhos do colonizador era um risco, Krenak denuncia o apetite disciplinador colonial e sua busca por enquadrar corpos, mentes e almas em uma ontologia universal. Um monoteísmo ético, uma monogamia estética, uma monocultura epistêmica: a escolarização — projeto burguês e cristão europeu — desejou assumir as rédeas da psique de diferentes povos e conseguiu.

Fato é que, depois de tantos anos vivenciando a cultura educacional escolarizada — que vai muito além das escolas –, a gente se acostuma com ela (é complicado, pois o ser humano é capaz de se acostumar com coisas terríveis — sempre com boas doses de opressão, é claro). Quando se internaliza essa cultura, algo devastador acontece: passamos a achar que “educação” significa “aprender que nem na escola”. Aí vem a cegueira: todo o resto que não se comporta exatamente como o ensino escolar não é educação. A visão de mundo escolarizada — eurocêntrica, racista, colonial, cartesiana, conteudista, mensurável, adultista, séria, moralizante — então se espalha, atingindo o mundo profissional, a política, as relações sociais, a lida com o próprio eu, a relação com o conhecimento, o trato com as emoções, as maneiras de perceber e interagir com a natureza, enfim, tudo.

A vida foi sequestrada pela escola — e pelo trabalho, alicerce e eco da escola — e achamos isso normal.

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Alex Bretas
Alex Bretas

Written by Alex Bretas

Escritor, pesquisador e palestrante especialista em aprendizagem autodirigida e ao longo da vida.