Esqueça o 70–20–10 — e faça isto no lugar

70–20–10 não só está ultrapassado, como também é um modelo impreciso e ilusório.

Para quem não sabe, 70–20–10 equivale à ideia de que 70% do aprendizado adulto se dá por meio de desafios e experiências informais, 20% através de trocas e relações e 10% mediante cursos e treinamentos formais.

Desde o seu surgimento em 1996, essa abordagem se tornou a “queridinha” das áreas de aprendizagem e desenvolvimento das organizações.

Sua simplicidade, exatidão e obviedade são bastante atraentes…

Mas, na minha humilde opinião e na de vários outros especialistas, o 70–20–10 apresenta vários problemas.

1. É uma generalização: em fenômenos humanos — que são, via de regra, subjetivos e complexos -, é impossível precisar com tamanho rigor a proporção da ocorrência de diferentes “tipos” de qualquer coisa, inclusive aprendizados. Até mesmo o processo de categorizar a aprendizagem, separando-a em três “caixinhas” diferentes, pode ser visto como um reducionismo arriscado.

2. Não existem evidências empíricas suficientes: o estudo original foi feito usando uma amostra muito pequena de executivos. A partir dos fatores que os fizeram ser bem-sucedidos, os pesquisadores derivaram um modelo geral de desenvolvimento que supostamente seria aplicável para qualquer pessoa e em qualquer organização. Só que não, pois não há pesquisas mais robustas cientificamente que o comprovem.

3. Seu uso pode levar a uma redução no investimento em T&D: se antes as áreas de T&D das empresas adotavam um olhar quase exclusivamente focado no fornecimento de treinamentos formais, e agora esses treinamentos correspondem a somente 10% do aprendizado das pessoas, então faz sentido reduzir custos nessas áreas, certo? NÃO! Nutrir o aprendizado autodirigido e em comunidade também requer dedicação… e dinheiro.

4. Os números podem levar a falsas prescrições: já vi empresas planejando toda a estrutura de atividades de T&D a partir das porcentagens 70, 20 e 10. Isso equivale a levar uma parábola ao pé da letra. Um outro modelo alternativo à abordagem do 70–20–10, o modelo 3–33 de aprendizagem pervasiva, defende que 33% do aprendizado é informal, 33% é social e 33% é formal. Até quando vamos continuar acreditando em generalizações e tomando decisões que afetam a vida de milhares de pessoas a partir delas?

O trabalho da área de aprendizagem dentro de uma organização não é prever, categorizar e planejar/controlar diferentes “tipos” de aprendizado, e sim florestar os contextos nos quais a aprendizagem autodirigida e em comunidade encontra mais facilidade em se desenvolver.

Obs. 1: a aprendizagem autodirigida é um fluxo contínuo que se utiliza dos quatro “lugares” onde o aprendizado pode acontecer (formal, não formal, informal e incidental) e das quatro fontes de aprendizado disponíveis (Conteúdos, Experiências, Pessoas e Redes — CEP+R). Somente a própria pessoa pode decidir como navegar por entre esses lugares e a partir dessas fontes. A obsessão por prever em quais águas cada um irá navegar só é possível dentro de uma lógica que considera que outras pessoas, e não eu mesmo, sabem o que é realmente melhor para mim — em outras palavras, heterodireção.

Obs. 2: algumas fontes interessantes que aprofundam o 70–20–10 e que eu utilizei de inspiração para este post podem ser acessadas aqui e aqui.

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TEDx Speaker | Autor | Facilitador de comunidades de aprendizagem autodirigida — www.alexbretas.com

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Alex Bretas

Alex Bretas

TEDx Speaker | Autor | Facilitador de comunidades de aprendizagem autodirigida — www.alexbretas.com

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