Fiz um doutorado sem entrar na universidade — eis o que aconteceu
Minha história desde o doutorado informal até a Aprendizagem Autodirigida em Comunidade
📢 ATENÇÃO: este post é um trecho do meu próximo livro, A2C: Aprendizagem Autodirigida em Comunidade (título provisório).
Estou escrevendo esse livro “a céu aberto” e você pode me acompanhar nessa aventura: é só apoiar a partir de R$ 15 reais. Saiba mais aqui.
Entre 2014 e 2016, fiz a melhor loucura da minha vida. Com 23 anos, mal sabia eu que essa loucura significaria percorrer centenas de quilômetros a pé, enviar uma carta para um ídolo morto e viajar propondo a pessoas contarem suas biografias para desconhecides. Essas foram algumas das ações estranhas e fascinantes que realizei no meu doutorado informal sobre aprendizagem livre. Eu queria estudar esse tema a fundo, mas, depois de muito rodear, percebi que não queria voltar para a universidade. A possibilidade mais interessante mesmo era conduzir meu próprio caminho de estudos e vivências, até porque essa liberdade me pareceu coerente com meu objeto de pesquisa.
Decidi tornar minha vida um experimento: eu era o ratinho de laboratório. Antes de embarcar nesse caminho fora das rotas preestabelecidas, quase fui parar na pós-graduação formal. Tinha até projeto nas normas da ABNT e tudo, uma chatice. Foi por pouco, mas consegui desviar em câmera lenta de todos os golpes institucionais que nem o Neo em Matrix. Era importante pra mim poder decidir não apenas o que eu iria pesquisar, mas sobretudo como eu iria pesquisar. Meu envolvimento era total: sem “neutralidade”, “objetividade” e essa coisarada toda. A minha existência estava ali, entremeada com a pesquisa. Eu era Um com ela. “Noventa por cento do que escrevo é invenção, só dez por cento é mentira”, disse o poeta (Manoel de Barros). Inventei uma nova forma de me colocar no mundo, e essa forma nasceu quando comecei a botar reparo nas coisas com olhar de menino. Sustentar rigorosamente um olhar de menino durante um, dois, três anos: eis o doutorado informal.
Esse estranho jeito de fazer pesquisa nasceu das ousadias de André Gravatá, que conheci logo quando me mudei pra São Paulo, em 2013. Foi ele quem primeiro propôs e vivenciou um percurso de aprendizado com esse nome e com o posicionamento filosófico que deriva dele. Ao conhecê-lo, fiquei com uma coceira enorme: algo dentro de mim já sabia que eu queria percorrer aquele caminho. No ano seguinte, comecei a juntar pessoas pra pensar quais seriam os contornos mínimos da proposta do doutorado informal. O que difere um doutorado informal de qualquer outra iniciativa de aprendizado que uma pessoa realiza fora das instituições formais? Eu queria contornos epistemológicos em vez de metodológicos. Estruturar o doutorado informal como um método seria uma afronta ao seu caráter libertário. Cada pessoa deveria criar seus próprios métodos de investigação e reinvenção da realidade a partir do guarda-chuva conceitual que estávamos rascunhando.
Nas reuniões que convoquei pra pensar o doutorado informal, chegamos em cinco princípios: Curiosidade, Autonomia, Percurso, Entrega e Sabedoria. Ao perceber a sigla CAPES, gargalhamos. Quem diria que seríamos capazes de criar uma outra CAPES — uma melodia dissonante e em alguns aspectos quase oposta ao órgão que regula a pós-graduação em universidades brasileiras? Desde então, o doutorado informal assumiu ares de movimento e outras pessoas se sentiram chamadas a vivenciá-lo. Seus princípios foram desenhados há muito tempo, mas se hoje eu fosse abri-los, seria assim:
Um doutorado informal nasce do fogo da Curiosidade, a ponte entre o conhecido dentro de nós e o desconhecido fora da gente. Curiosidade é faísca, coceira, tesão, vontade de escarafunchar, de descobrir o mundo e a si simultaneamente.
A chama da Curiosidade se expande com o ar da Autonomia, sopro de liberdade conquistada e esculpida. Em um doutorado informal, pouca autonomia é fogueira sem ventania: sem respirar, o fogo rapidinho se apaga.
A terra-caminho que se apresenta ao caminhar é o Percurso — na verdade é ele quem nos caminha, pois o caminho somos nós. O Percurso de um doutorado informal flui entre estrutura e caos, ação e reflexão, sonho e realização, observação e criação, individual e coletivo, pensamento e sentimento, saber e não saber, prosaico e poético, tensão e resolução, cura pessoal e contribuição para o mundo. Reflete o ciclo da vida ao anunciar junto com seus fins sempre novos começos.
A água que brota do chão de um Percurso é a Entrega: um transbordamento de saberes cozinhados durante um doutorado informal. Toda vez que embalamos as descobertas e criações de um Percurso e as mostramos — toda vez que as fazemos velejar –, estamos realizando uma entrega, por menor que seja.
Depois de fogo, ar, terra e água, podemos pensar num quinto elemento: consciência. Sabedoria é exatamente isso: uma maneira de ver, de conjurar mundos a partir de um princípio ético — o que requer capacidade crítica e afiadas leituras de mundo. Um doutorado informal não pode prescindir da sabedoria como os planetas não podem desistir de seus sóis.
Embora hoje eu não utilize os cinco princípios, essa formulação ainda me soa cativante. Do ponto de vista teórico, a CAPES orna muito bem com a Aprendizagem Autodirigida em Comunidade. Como a chave de uma casa antiga que misteriosamente ainda funciona na porta da casa nova. Um doutorado informal é isto: uma chave mágica, capaz de abrir portas nos mundos atual e futuro. Também é um caminho de aprendizado intencional, localizado no tempo, que flui entre a estrutura e a profundidade da palavra “doutorado” e a brincância e a liberdade da palavra “informal”. Um caldeirão epistêmico regulamentado pela CAPES.
Ao optar por um caminho educativo profundo e fora das instituições, eu precisava entender como iria operacionalizar — e financiar — isso. Fui então aprender a fazer campanhas de financiamento coletivo, uma das primeiras jornadas de aprendizado dentro do guarda-chuva maior do meu doutorado informal. Literalmente, aprendi a pedir dinheiro na internet. Era assim que as pessoas que eu admirava estavam viabilizando suas iniciativas. Criei um projeto, precisava de um nome. Como eu sentia que estava me desencaixotando por meio da minha abertura para aprender, nascia ali a Educação Fora da Caixa. Escrevi na descrição do projeto tudo aquilo que estava querendo investigar e como eu faria isso — óbvio que muitas coisas desse planejamento mudaram depois. Disse, em alto e bom som e para quem quisesse ouvir, que aquele era o meu doutorado informal. Não sem medo. Cerca de um mês e meio antes do início da campanha, foi meu aniversário. Enviei um e-mail a pessoas próximas pedindo para não me darem nada de presente — melhor seria apoiarem minha maluquice prestes a ver as cores do mundo.
O projeto ficou no ar por 45 dias. No fim das contas, arrecadei bem mais do que previa. As pessoas realmente confiaram em mim, fiquei surpreso. Acreditei tanto na ideia do doutorado informal a ponto de contagiar outras pessoas, mesmo sem ter vivido ainda o processo. Em três anos, experimentei paisagens típicas de um percurso acadêmico — entrevistas, estudos de caso, leituras, pesquisa documental — e também banho de cachoeira no sertão, trocas de cartas com uma doula, um revolucionário, um poeta e um filósofo insurgente, caça ao tesouro com jovens em uma ilha paradisíaca, a dor aguda de tirar esparadrapo dos pés machucados e até uma balada escolar para estudantes com deficiência. Me espantei e me deleitei em ter conseguido finalizar o percurso. Havia mais vento do que calmaria em minhas velas, e essa navegação fez de mim um ser novo.
A educação que eu sonhava e nunca tinha recebido era mesmo algo a ser criado, construído. Foi o que fiz. Só que naquele momento eu ainda vivia a ideia de que o aprendizado era uma caminhada mais individual do que coletiva. Pensava nas pessoas inventando seus doutorados informais e se jogando neles sem pestanejar, escavando seus interesses como cristais brutos debaixo da terra e os lapidando como joias raras — sozinhas. Até hoje não sei explicar muito bem como isso aconteceu comigo. Talvez nunca saiba. O que sei é que as maiores sabedorias que bebi ao longo do percurso vieram de comunidades — vidas se ajuntando para alimentar o desejo de botar reparo nas coisas. No fundo o que eu buscava era pertencimento: desde criança era essa sensação que a escola não conseguia preencher. Um calor no peito que destrava aventuras, um avizinhamento de rotas existenciais, uma intimidade cosmofílica com o outro: era isso que eu queria. O doutorado informal me fez enxergar essa possibilidade. Mas só enxergar não é chegar. É preciso ir.
As primeiras companhias que me fizeram saltar da visão para o ato — processo ainda em curso — eu conheci pesquisando casos e histórias para o doutorado informal. Outras vieram escorregando pelos cabos de fibra ótica com os textos que eu compartilhava frequentemente no meu blog. Tenho uma fascinação por esse fenômeno. Escrever publicamente, ou qualquer outra coisa que você transborda, mostra, escancara, é como acender uma fogueira na escuridão: logo chegam novas presenças atraídas pelo calor e pela luz. Faço isso há anos, mais por teimosia do que estratégia. Com novas companhias — amigos e amigas que me notaram no recreio da vida –, fundei coletivos que chamei de comunidades de aprendizagem autodirigida: o Desaprender, a Multiversidade, o GINE (Grupo de Investigadores da Nova Educação), o ALC São Paulo e o Mol.
Eu estava feliz com esses projetos. Ao mesmo tempo, escrevia novos artigos e livros e iniciava minha carreira na aprendizagem corporativa. Consegui inventar uma forma de viver do que inventei: um privilégio que deveria ser um direito. As comunidades no início tinham pouca gente, depois cresceram: no Mol havia centenas de pessoas. Meu sonho virou realidade, mas quem disse que eu sabia o que fazer depois? Talvez tenha sido a crise do sucesso ou algum passarinho que eu não consegui ouvir, mas algo se remexia: era eu mesmo. As comunidades de aprendizagem autodirigida estavam me esgotando e eu me via com cada vez menos vontade de me envolver. Sentia minha cabeça como um quarto escuro e gavetas abertas. Em paralelo, meu desejo de seguir pesquisando, escrevendo e criando era grande, e o Mol me apontou uma pista: as Arquiteturas de Aprendizagem Autodirigida (A³), um conjunto de ferramentas para criar espaços de descoberta à imagem e semelhança do que estávamos vivendo. Só me faltava firmeza e energia vital para elaborar essa proposição.
Ao pensar nas Arquiteturas a partir da prática no Mol, acabei me rendendo a um lugar mais utilitário, afinal elas, as Arquiteturas, são conjuntos de métodos e princípios para alcançar um fim. Comunidades de aprendizagem autodirigida até podem ser criadas com o auxílio das Arquiteturas e funcionarem bem, mas eu ainda não estava formulando uma teoria a respeito de como o aprendizado pode ser. Com este livro, a ideia é brincar disso. Inverter comunidades de aprendizagem autodirigida para aprendizagem autodirigida em comunidade, pois aí ela pode, além de animar espaços, ser uma maneira de ver, um corpo que fala, uma proposta de reconstrução educacional rumo ao invisível da vida.
Gostou? Você pode ser parte do nascimento desse livro a partir de R$ 15.
Me ajude a derrotar minha acrasia apoiando o financiamento coletivo do livro da Aprendizagem Autodirigida em Comunidade (A2C).
