Formação em Agile Learning em Quito, Equador

De 18 a 23 de maio de 2018 estive em Quito, no Equador para participar da formação ALF (Agile Learning Facilitator) da rede de projetos ALC (Agile Learning Centers).

Foi uma experiência incrível. A rede conta com projetos nos cinco continentes e sua filosofia e método baseiam-se no que já vem sendo feito nas escolas democráticas, porém com a adição de princípios e ferramentas ágeis. A ideia é criar intencionalmente uma cultura de aprendizagem positiva e diminuir o tempo gasto com reuniões e tomadas de decisão. Uma das premissas é que é preciso falar menos sobre as mudanças e testá-las mais. É na prática que nossas ideias se mostram relevantes ou não.

Abaixo, faço um relato sobre cada dia da formação e compartilho os conteúdos a que tive acesso. Em breve, escreverei mais textos sobre aspectos específicos que me chamaram atenção.

Dia 1 (sexta, 18 de maio)

Impressão geral: foi um dia introdutório, com atividades “oficiais” acontecendo somente de 17h às 19h15. Várias pessoas ainda estavam chegando em Quito.

  • Ao começar, Rubén, um dos facilitadores da formação, pediu permissão ao grupo para nos conduzir durante os cinco dias de formação. Tudo a ver com a questão do consentimento na educação que o Blake Boles coloca.
  • Em seguida, Rubén pediu que cada pessoa manifestasse, por meio de um gesto simples, qual era o seu nível de energia naquele momento.
  • Rubén e Rebecka, facilitadores da formação, são pessoas geniais. Ambos estão a frente de projetos de educação autodirigida no México.
  • O curso começou com brincadeiras teatrais propostas pelo Rubén (com-tato). Pessoas andando pelo espaço, fazendo contato visual, encenando algumas esquetes e se divertindo juntas.
  • Uma das experiências mais marcantes foi a brincadeira da estátua. Rubén dividiu o grupo em dois e pediu para um deles representar estátuas que simbolizassem a educação tradicional. O outro grupo pôde, então, interagir com as “obras”, tocando nelas para ver o que elas faziam. Em seguida, foi a vez das pessoas do segundo grupo se transformarem em estátuas, desta vez representando a educação ideal. De novo, o grupo visitante do “museu” podia tocar nas pessoas para ver o que acontecia. Eu fui uma das estátuas da educação ideal e, quando interagiam comigo, eu fazia três movimentos: a pergunta “O que você quer aprender?”; um abraço; e a pergunta “Qual a pergunta mais poderosa que você poderia se fazer agora?”
  • Outra brincadeira muito interessante foi o programa de entrevistas. Cada pessoa ficou responsável por uma “tarefa” necessária para o programa acontecer (havia alguém fazendo a filmagem, outra segurando os refletores, outra controlando os microfones e uma última responsável por gerenciar os aplausos da plateia). Rubén, então, convidou uma pessoa do grupo por vez para sentar de frente com ele para ser entrevistada. Era uma forma de fazer todo mundo se sentir acolhido ao poder falar um pouco sobre sua vida para o grupo. Um formato de check-in diferente e lúdico. Só talvez precisaria ser adaptado para grupos maiores.
  • Rubén facilita de uma forma muito espontânea, leve e divertida.
  • Depois de um breve intervalo, voltamos para jogar o jogo “Zip, Zap, Zup”. Uma pessoa começa direcionando um “Zip” para alguém, que então o transmite para uma terceira pessoa como um “Zap”. Depois vem o “Zup”. Se alguém erra, todo mundo comemora como se seu país tivesse ganhado a Copa do Mundo. Logo em seguida, alguém pode recomeçar jogando um “Zip” para alguém.
  • A última atividade foi um círculo de gratidão, uma prática que costuma ser utilizada nos ALC ao final de cada dia. Foi utilizado um bastão da fala e as pessoas do grupo foram convidadas a contar pelo quê eram gratas em suas vidas. Foi uma experiência de conexão, presença e vulnerabilidade. Agradeci às pessoas que viabilizaram minha vinda ao Equador por meio de doações. A ideia por trás desse tipo de prática é a criação intencional de cultura por meio de processos que favorecem um ambiente de comunidade, respeito e valorização das pessoas presentes. É muito melhor criar cultura assim do que por meio de normatizações ou regras restritivas.
  • Pequenos rituais parecem ser muito importantes na formação da cultura dos ALC. Ao final de cada dia no ALC que Rubén trabalha, todo mundo fica em pé em círculo e fala junto “o dia terminou”, fazendo um gesto de onda com a mão. As ondas todas se encontram no centro, e aí todo mundo joga os braços para o alto e comemora.
  • Insight: a grande questão ao criar comunidades de aprendizagem para pessoas adultas é como fazê-las ter tempo para se dedicar. Em escolas livres e ALC, é comum que as crianças simplesmente estejam lá com frequência. Na idade adulta, as pessoas têm muitos afazeres e acham difícil priorizar o tempo dedicado à aprendizagem, especialmente quando não há um esquema de punições ou constrangimentos no caso de ausência. Formações como esta são mais curtas (5–7 dias), porém as pessoas estão plenamente dedicadas ao processo.

Dia 2 (sábado, 19 de maio)

Impressão geral: hoje foi o primeiro dia de atividades mais voltadas para o conteúdo. A ideia era replicar o funcionamento de um ALC durante os dias do curso. Na prática, foi um grande Open Space, porém com algumas diferenças de formato.

  • Começamos, assim como no dia anterior, com movimentos, brincadeiras e jogos. Caminhando pelo espaço, imitando animais e imaginando (e encenando) situações inusitadas ao caminhar. Um exercício para quebrar o gelo e para nos aproximarmos uns dos outros por meio do ridículo e da brincadeira.
  • Um jogo que achei muito interessante foi o Arremesso Caótico. Em círculo, começamos a jogar objetos uns para os outros, de modo que sempre precisávamos receber das mesmas pessoas e arremessar para as mesmas pessoas. Diferentes fluxos de arremesso foram sendo criados. Depois, desfazemos o círculo e começamos a caminhar, e precisávamos manter os fluxos de arremessos. À tarde, jogamos uma variação do jogo em que falávamos uma palavra ao arremessar, e a pessoa que recebeu o objeto precisava falar outra palavra que conectava com a anterior. Rebecka explicou que esse jogo é uma metáfora do que ocorre nos ALC: para quem vê de fora, pode parecer caótico e bagunçado, mas as pessoas que estão criando as atividades sabem exatamente no que estão concentradas e se divertem com a experiência.
  • Outro jogo muito legal foi a Mímica de Coisas Importantes. Em pares, precisávamos dizer para a outra pessoa, somente por meio de gestos, cinco coisas que eram muito importantes em nossas vidas. Depois, era a vez do nosso par. Em seguida, encontrávamos outro par e dizíamos para ele/ela, agora com palavras, o que nosso par anterior havia nos dito com gestos. É um exercício de escuta lúdica muito interessante.
  • Acabamos a sessão de brincadeiras com um telefone sem fio. Em círculo, de pé, compartilhávamos com a pessoa ao nosso lado, só para ela ouvir, uma coisa que nos apaixonava e uma coisa que poderíamos oferecer ao grupo. Depois, Rubén pediu para algumas pessoas compartilharem para todo o grupo algumas das coisas que ouviram de seus colegas.
  • Depois dos jogos, a primeira atividade foi o preenchimento do Kanban coletivo, uma ferramenta que me parece central nos ALC.
  • O Kanban coletivo parece bastante com um mural de Open Space, mas, como se vê na foto acima, há alguns campos novos. O princípio básico do Kanban é “intencionar”, isto é, explicitar suas intenções, a primeira etapa do ciclo ágil (Intencionar > Crear > Reflexionar > Compartír). A coluna “Possível” é composta por três categorias: Intenções, Ofertas e Pedidos. Post-its de diferentes cores são utilizados em cada uma delas. As pessoas foram então convidadas a escrever post-its pare preencher as três categorias.
  • Depois, montamos a agenda do dia a partir das ofertas e pedidos possíveis. A agenda do dia é exatamente igual o mural do Open Space: uma tabela com horários e espaços a ser preenchida com proposições de atividades vindas do grupo. A ideia era que todo o grupo colaborasse para cumprir essa tarefa. Algumas coisas que já sabíamos que seriam melhor aproveitadas em outros dias nós já deixamos na coluna dos outros dias. A ideia é que os post-its possam ser movidos de um lugar para o outro no Kanban. Há ainda duas colunas à direita, Fazendo e Terminado. Assim que íamos executando e finalizando as atividades do dia, movíamos os post-its para essas duas colunas. O princípio básico é tornar visível tudo que está acontecendo para que as pessoas possam ter feedback imediato. Se alguém chega no ALC, ela pode olhar para o Kanban e entender rapidamente o que está rolando.
  • Rebecka e Rubén haviam proposto três atividades que eles consideravam básicas para a formação: “O que é um ALC?”, “Padrões e hábitos da escolarização tradicional” e “Comunicação efetiva em comunidade”. Ainda que eles tenham enfatizado que eram conteúdos importantes, eles não disseram que eram obrigatórios (nada é obrigatório num ALC).
  • Ainda que o grupo tenha gerado muitas ofertas e pedidos, a primeira agenda do dia que montamos foi totalmente baseada nos conteúdos básicos sugeridos por Rebecka e Rubén. O grupo estava ávido por ouvir mais deles.
  • A primeira atividade prevista no Kanban para o dia foi “O que é um ALC?”. Rebecka começou apresentando “A Árvore Ágil”, uma imagem que representa a essência dos ALC.

Alguns quotes e anotações que fiz durante essa atividade:

  • “Damos o máximo de apoio com o mínimo de interferência”
  • “Reuniões concretas, práticas e rápidas”
  • A limpeza é compartilhada ao final de cada dia entre todos
  • Documentar o que está sendo feito e aprendido é muito importante
  • Existe um kanban coletivo e kanban individual
  • Reflexão: como evitar que os processos se tornem rígidos/burocráticos?
  • 95 dólares anuais para abrir um ALC (usando o nome)
  • Percepção de que escolas democráticas gastavam muito tempo tomando decisões
  • Surgiu na cidade de Nova York
  • “A revolução da educação começa devolvendo 100% da responsabilidade a quem aprende. Responsabilidade = habilidade de responder corajosamente ao ambiente”
  • Proporção de crianças e facilitadores sugerida pelos ALC: 7 crianças para 1 facilitador
  • A cultura dos ALC me parece bastante rígida com o tempo (os horários e durações das atividades)
  • Reunião “Desenhando a a Semana”: reunião obrigatória em que toda a comunidade utiliza o Kanban coletivo para planejar as atividades que ocorrerão durante a semana
  • “Reunião de Mudança”: reunião obrigatória em que a comunidade se reúne para levantar questões que precisam ser modificadas no ALC

  • Criando o Jogo: mural que serve para explicitar combinados/acordos que estão sendo aplicados em determinado momento. Também atende à mesma premissa de feedback instantâneo
  • A atividade “Padrões e hábitos da escolarização tradicional” começou com Rebecka facilitando um World Café. As perguntas foram “Quais padrões e hábitos a escola me ensinou, fora os conteúdos ensinados pelos professores?”; “Como esses padrões afetam minha vida hoje?”; e “Como posso conscientemente me desescolarizar e ressignificar esses padrões?”
  • Depois, Rubén complementou trazendo algumas reflexões sobre o mesmo tema

Alguns quotes e anotações que fiz durante a atividade sobre padrões e hábitos da escolarização tradicional:

  • 4 tipos de inteligência coletiva:
  • Inteligência coletiva el cambre (?): a gente se molda ao todo, constrangimentos culturais
  • Inteligência coletiva original: feedback imediato, grupos menores. Tomada de decisão imediata
  • Inteligência coletiva piramidal: classes, castas. Hierarquia. Assimetria de informação. Autoridade centralizada
  • Inteligência coletiva holomidal: regressar à inteligência coletiva original, mas, com o auxílio da tecnologia, aumentar a escala. Surge com o advento da internet
  • Escola = trabalha a partir da inteligência coletiva piramidal (cúpula toma decisões de maneira impositiva)
  • Cultura escolar faz com que:
  • Nós não possamos nos autodirigir
  • Nós não possamos nos autorregular
  • Nós não possamos nos auto-organizar
  • Crença da cultura escolar: toda aprendizagem vem do ensino
  • Escola: trabalha a partir de uma dinâmica de punições e recompensas. Isso faz com que as atividades percam o valor em si mesmas (autotélico do Blake Boles). Necessidades/desejos originais, criativos, vindos da vontade, perdem valor frente ao que deve ser feito, ao que se espera de você. Normose. Na escola, é muito forte o sentimento de querer ser aceito. Existe um medo muito grande de não ser aceito. Isso diminui a tolerância ao risco de se expor, ser diferente, ousar, ser original
  • Escola valoriza escrita, lógica matemática e memorização. O resto importa muito pouco
  • Noção de desenvolvimento não pode ser padronizada. O que antes era tido como incivilizado, selvagem primitivo, agora se tornou “subdesenvolvido” (cultura norte-americana imperialista penetrando em todos os países do mundo). Isso vale para países e pessoas
  • Epistemologicamente, a ideia de cultura dos ALC é que a cultura comunitária e individual está sempre se fazendo e se refazendo
  • Aprendizagem fenomenológica: a partir de um fenômeno, é possível acessar aprendizagens de todas as áreas. Tudo está conectado (exemplo do pão do livro “Economia do Amor” do Marcos Arruda)
  • “O trabalho do facilitador é tornar o invisível visível”
  • O jogo e a brincadeira como veículos primordiais da aprendizagem, e não como um “descanso” para que as crianças depois voltem para o que realmente importa, as aulas e conteúdos formais
  • A escola tradicional diz que só crianças podem brincar. Adultos precisam fazer coisas sérias
  • Lembrei do exemplo de como surgiu o futebol americano: alguém saiu correndo com a bola na mão porque estava perdendo o jogo. Os outros jogadores entraram na brincadeira e, com isso, nasceu um novo jogo
  • Jogo infinito: “an infinite game has no fixed rules or boundaries. In an infinite game you play with the boundaries and the purpose is to continue the game” (http://www.worldtrans.org/pos/infinitegames.html)

Alguns quotes e anotações que fiz durante a atividade sobre Comunicação efetiva em comunidade:

  • Exemplo de ambiguidade na comunicação: “vamos marcar? Vamos mesmo!” E nunca rola
  • 4 ferramentas para comunicação efetiva nos ALC:
  • Convite: serve para conectar valor entre duas pessoas ou entre uma pessoa e um conhecimento.
  • Declaração: compromisso pessoal assumido por alguém perante a comunidade. Precisa ser claro (o quê, quem, como, quando, como, onde e porquê). Comunidade pode te ajudar a se manter firme no compromisso (“posso te ajudar a se lembrar?”). Quando fvocê faz uma declaração, está permitindo às pessoas da comunidade te ajudarem a se manter responsável em fazer o que você disse que ia fazer. Comunidade te ajuda a formar novos hábitos. E hábitos novos alimentam a cultura da comunidade que queremos sustentar/criar
  • Promessa: mais no nível de propósito. Tem uma carga mais espiritual. Postura ética, filosofia de vida
  • Algumas declarações partem de promessas
  • Petição: pedido claro. É sempre um pedido, e não uma exigência. Pode sempre haver uma contraproposta (negociação).

  • Dúvida sobre se o Kanban (e os ALC de maneira geral) consegue sustentar aprendizagens mais duradouras (por exemplo, em escolas democráticas há cursos e atividades recorrentes). Resposta: sim. A estrutura de ofertas do Kanban é flexível o suficiente para contemplar propostas recorrentes. A pessoa que oferece é quem define o tempo da atividade, que pode ser dado em dias, semanas, meses, etc. Exemplo: aulas de yoga às terças e quintas durante todo o ano
  • No limite, toda educação é impor uma cultura. Se você vai impor algo, que seja uma autoridade que faça as pessoas não dependerem de você. Uma cultura de respeito, consentimento e autonomia

Dia 3 (domingo, 20 de maio)

Impressão geral: hoje foi o dia em que as pessoas descobriram que o formato não é perfeito. Uma ideia-chave para os ALC é criar uma cultura que consiga testar novas soluções de formato rapidamente, pois nenhum modelo é isento de falhas.

  • Comecei o dia fazendo uma caminhada com a Cristina, uma colombiana cujo pai é haitiano. Andamos pelos arredores da casa onde estava acontecendo a formação e contemplamos um pouco das montanhas de Quito. Foi interessante perceber que eu posso sustentar uma conversa em espanhol com alguém.
  • Ao regressarmos da caminhada, as atividades oficiais do dia começaram. Desta vez, não houve jogos e brincadeiras para começar o dia. Ao preenchermos o Kanban coletivo, demos um passo além e, antes de montarmos a agenda do dia, selecionamos as ofertas e petições que já queríamos reservar para os dias subsequentes. Assim, seria mais fácil montar a agenda dos dias seguintes.
  • Preencher o Kanban coletivo foi um processo desafiador, e isso suscitou reflexões no grupo. Algumas pessoas sentiram que não conseguiram participar da cocriação da maneira como gostariam. Refletindo sobre isso e conversando com as pessoas, percebi dois lados nessa questão: 1) a filosofia de aprendizagem do ALC é muito sobre confiar na capacidade de autodireção de todas as pessoas, logo, se alguém está muito passivo e não faz nada a respeito, talvez seja uma questão que a própria pessoa precisa resolver consigo mesma; 2) no entanto, o design dos processos influencia muito na facilidade ou dificuldade das pessoas em participar e, no caso, havia problemas de design a ser resolvidos. Por exemplo, o espaço físico disponível para as pessoas conseguirem enxergar os post-its era muito pequeno, o que dificultava a participação de todos. Havia também uma mesa muito próxima de onde estavam a maioria dos post-its, o que também dificultava o trânsito das pessoas no espaço.
  • O processo do Kanban coletivo acabou durando bem mais tempo que o planejado. Notei que algumas pessoas ficaram ansiosas para terminar dentro do tempo, em vez de questionarem a duração preestabelecida.
  • Diferentemente do dia anterior, houve alguns momentos da agenda em que mais de uma atividade ocorreu ao mesmo tempo. Ainda assim, foram poucos. Percebi que muitas pessoas ficaram assustadas com a possibilidade de “estarem perdendo” alguma coisa (Fear of Missing Out). Ao notar isso, Rubén foi enfático ao afirmar que é assim mesmo, e que nós precisamos lidar com nossa ansiedade de querer estar em todos os lugares ao mesmo tempo. É o preço da liberdade
  • Notei uma outra questão que parece acometer algumas pessoas: a necessidade de que cada modificação na agenda tenha o aval de todo o grupo (ou pelo menos da maioria). Se alguém pensa que, para mover um post-it na agenda, precisa de um consenso ou de uma maioria, ela provavelmente se sentirá desencorajada a tomar a iniciativa. Isso levará tempo e será dispendioso. Tal desencorajamento é ainda mais intenso num ambiente em que a pressão para que se acabe as atividades rapidamente é grande.
  • Depois do preenchimento do Kanban coletivo, preenchemos os Kanbans individuais.
  • A ideia do Kanban individual é que ele seja uma espécie de lista de tarefas de cada pessoa durante o dia. As pessoas participantes tinham 5 minutos para colar post-its com as atividades que planejaram fazer no dia, incluindo as coletivas (que deveriam ser reproduzidas do Kanban coletivo) e as individuais. Ainda que o planejamento de alguém seja não fazer nada o dia todo ou “dormir por três horas depois do almoço”, isso deve ser explicitado no Kanban individual. Após todas as pessoas preencherem, Rubén dividiu o grupo em dois e propôs que cada pessoa compartilhasse o que queria fazer no dia (algo como uma estratégia de comprometimento público).
  • Uma reflexão que fiz durante o preenchimento do Kanban individual foi: e os momentos e encontros que não podem ser previstos antecipadamente? Quando guiamos nossa aprendizagem a partir da nossa vontade, algumas coisas são passíveis de serem planejadas, ao passo que outras simplesmente emergem no calor do momento. Essas coisas, quando acontecem, costumam ser muito especiais. Por exemplo: tive conversas incríveis com o Rubén e com a Rebecka durante o dia que não estavam no meu Kanban. Além disso, nossa vontade muda ao longo do dia.

Alguns quotes e anotações que fiz durante a atividade “Do Egocentrismo ao Ecocentrismo”:

  • Cosmovisão: como enxergamos a realidade e a vida. Basicamente, pode ser egocêntrica (somos o centro do todo) ou ecocêntrica (somos parte do todo).
  • Narrativas: as histórias que transmitem nossa cosmovisão e como são contadas.
  • Precisamos mudar nossa cosmovisão (do ego para o eco) e criar novas narrativas para sustentá-la. O sistema educativo é somente uma parte da questão. É preciso uma mudança de todo o sistema.
  • Há uma cultura que oprime. Por isso, precisamos ser geradores intencionais de outra cultura (creio que isso é uma das essências dos ALC). Para isso, há ferramentas.
  • Existe uma corrente que diz que as tecnologias são uma extensão dos nossos sentidos. Porém, as tecnologias e ferramentas não são neutras. Muitas delas estão configuradas de acordo com as pretensões do sistema dominante. Exemplo dos grupos de Whatsapp: são projetados para promover uma comunicação instantânea e, não raro, superficial. Exemplo do like do Facebook: é projetado para alimentar um algoritmo que te direciona anúncios.

  • Rubén me contou sobre os “listening circles” inspirados na cultura dos Quakers:

We can learn a lot about silence from Quakers, whose traditional meetings for worship have little or no ritual, leadership, or conversation, nor do they take turns around a circle. Rather, they sit in a silence which they perceive as being filled with Spirit. From time to time a member who feels “called” (moved from within by Spirit, by their “inner light”) rises and speaks. When finished, they simply sit down. No one responds. The pregnant silence settles once more among and within the congregation. (https://www.co-intelligence.org/P-listeningcircles.html)

  • Reflexão: um app/site simples poderia ser criado para aprimorar o processo de construção do Kanban coletivo. Algo semelhante ao app do Open Space da IDEC 2016.
  • Tenho pensado muito em como criar um ALC para pessoas adultas, ou pelo menos algo inspirado nos ALC. O maior desafio é como criar cultura com pessoas que não tem tempo disponível (como é o caso de boa parte das pessoas em uma cidade como São Paulo). Uma ideia nesse sentido surgiu quando a Cristina disse que trabalhava em um museu e que queria criar um ALC lá. Rubén sugeriu que ela criasse um ALC temático, com os finais de semana, por exemplo, sendo dedicados a aprendizagem ágil de ciências e artes.

  • No almoço, Rubén compartilhou sobre “Como começar um ALC”. Qualquer pessoa pode começar um ALC com os recursos que dispõe sem que seja necessária nenhuma autorização. No entanto, para poder se chamar ALC e oficialmente fazer parte da rede, acessando os recursos que ela dispõe, é preciso contribuir com 95 dólares anuais (se uma pessoa e não um projeto quiser se inscrever na rede, esse valor cai para 45 dólares). Há muito material disponível no site a respeito de como começar um centro e como facilitar os processos.
  • Depois do almoço, jogamos Zip-Zap-Zup :)
  • Rebecka conduziu uma atividade sobre comunicação não-violenta da qual eu não participei, porém tirei fotos dos flipcharts que ela produziu:
  • Hoje, tivemos nossa primeira reunião de mudança, que usualmente nos ALC é alimentada por um quadro que fica disponível todo o tempo chamado “quadro de acordos comunitários”.
  • Nesse quadro, podemos pregar post-its com observações a respeito de coisas em nossa convivência/processos que poderiam ser melhoradas. No início da reunião de mudança (semanal em alguns ALC, e quinzenal ou mensal em outros), todas as observações são lidas e o grupo então decide qual delas quer discutir primeiro. A partir das observações, o grupo propõe possíveis soluções, e então uma delas (ou uma mistura delas) é eleita para ser testada. Assim, a solução escolhida passa para a linha “Prática”, o que significa que ela será implementada até haver uma nova reunião de mudança. Nessa próxima reunião, avalia-se a qualidade da solução a partir de seus resultados práticos e, dessa forma, o grupo pode decidir se vale a pena continuar com ela (fazendo ajustes, se necessário) ou descartá-la. Se ela persiste, ela então sobe para a linha “Integrada”, o que significa que ela agora é algo incorporado no dia-a-dia da comunidade. Foi nessa reunião de mudança que discutimos sobre a dificuldade em preencher o Kanban coletivo e propomos soluções (tirar a mesa que estava atrapalhando a movimentação e utilizar as outras horas do dia para montar a agenda).
  • Rebecka fez uma petição para que eu apresentasse o jogo Grok para o grupo como uma forma de ajudá-los a incorporar a comunicação não-violenta. Facilitei a Roda de Necessidades Humanas e, depois, fizemos uma demonstração do jogo. Pra mim foi um super desafio facilitar em espanhol sem ter fluência na língua, mas consegui me fazer entender e no final a experiência foi bem proveitosa.
  • Finalizamos o dia com um círculo de aprendizados facilitado pela Vanessa, uma das participantes, e em seguida tivemos nosso já tradicional círculo de gratidão, que é sempre feito com todos de mãos dadas.

Dia 4 (segunda, 21 de maio)

Impressão geral: o dia hoje fluiu como nunca. O grupo estava muito mais autorregulado e eficiente, e parece ter entendido que tudo bem ter várias atividades simultâneas.

  • Antes de iniciar o dia oficialmente, entrevistei o Rubén. Gravei a conversa em vídeo.
  • Várias pessoas chegaram mais cedo do que o horário oficial (10h) e já começaram a mexer no Kanban coletivo e a preparar suas agendas pessoais (Kanban individual). O Marco, um dos participantes e anfitrião do evento, assumiu um papel informal de facilitação nesse momento, ainda que de uma maneira um pouco improvisada. Não houve um início formal com todo o grupo junto: o planejamento do dia fluiu de maneira orgânica. No entanto, na visão do Rubén, pulamos algumas etapas importantes, como por exemplo a explicitação das intenções de cada pessoa após o preenchimento do Kanban individual. Para mim, pelo menos, isso não fez muita falta.
  • Minha primeira atividade do dia foi jogar com o Rubén. Começamos em círculo, sentados, brincando de passar gestos ou sons para a pessoa ao nosso lado. Depois, cantamos e “dançamos” (sentados) uma música típica, algo como um Escravos de Jó mexicano. Em seguida, mais uma música regional, agora em duplas e tentando acertar os gestos com as mãos, pés com a melodia da música. Um exercício de coordenação motora e coesão grupal.
  • Em seguida, entrevistei a Rebecka, que, junto com o Rubén, é das facilitadoras da formação. Gravei a conversa em áudio.
  • Consegui pegar o final da sessão de arquétipos do Rubén, que propõe alguns perfis de personalidade/trabalho úteis para compor uma equipe de projeto. A apresentação dele foi baseada no trabalho de Laureli Shimayo, da ThriveTypes.
  • Geralmente existe um arquétipo que nós pensamos que é a “nossa cara’, mas que foi imposto pela cultura (família, escola, trabalho, relações). Por exemplo, a cultura escolar tradicional acaba nos transformando em “scholars”.
  • Assisti à entrevista que o Marco fez com a Cristina, na qual ela falou sobre sua experiência trabalhando em um museu de ciências na Colômbia.
  • Participei de uma conversa logo depois do almoço, conduzida pelo Rubén, em que ele respondeu a algumas perguntas relacionadas a como é um dia típico em um ALC.

Alguns quotes e anotações que fiz durante a atividade “O dia-a-dia de um ALC”:

  • Alguns ALC começam o dia sempre com jogos
  • O dia começa com o Kanban. Cada pessoa maneja o kanban e coloca seus oferecimentos e pedidos
  • Depois, as pessoas escrevem e compartilham suas intenções pessoais com o grupo (Kanban individual)
  • Ao final: círculo de reflexão, limpeza coletiva e documentação. A maneira de organizar a limpeza foi evoluindo com as reuniões de mudança/quadro de maestria comunitária
  • A documentação das atividades/aprendizagens desenvolvidas pelas crianças é fundamental. Às vezes, ela é realizada pelas próprias crianças (geralmente as maiores), mas muitas vezes quem se responsabiliza por isso são os facilitadores. A documentação é importante porque, no futuro, poderá ajudar a própria criança em suas investidas profissionais, além de também servir como evidência para pais e autoridades de que as crianças estão realmente “fazendo alguma coisa” no ALC
  • Existem alguns ALC que requerem a participação de todos na reunião de mudança (geralmente semanal). Outros perguntam quem quer participar das decisões da comunidade e liberam as outras pessoas, que deverão dar sua anuência em relação aos acordos firmados. Ainda assim, a tarefa de criar observações de coisas que não estão funcionando é de todos
  • “Autodireção também é sobre fazer as pazes com a direção. É entender a direção como uma função, e não como algo hierárquico” (Rubén). Tenho refletido muito sobre a noção de autoridade. Autoridades existem em ambientes horizontais/autodirigidos, pois naturalmente há pessoas boas em certas coisas e outras que são boas em outras coisas. A autoridade se dá pelo conhecimento/experiência de alguém em determinada coisa, e não por uma hierarquia ou pela imposição. Se fôssemos por esses caminhos, estaríamos falando de autoritarismo, e não de autoridade.
  • Como os ALC costumam lidar com conflitos: 4 níveis. 1. Não gosto (voz); 2. Não gosto (voz + gesto com o corpo); 3. Procura outra pessoa, facilitador ou criança; 4. Leva a questão para o comitê de cultura, que busca resolver os conflitos mais complicados e também desenvolve melhores práticas para fomentar a cultura que se quer sustentar. O Comitê é formado por crianças e facilitadores
  • A mediação tem por objetivo sempre resolver a questão. Ao final, gera-se um plano de ação. Não usam castigos
  • Quadro “Criando o Jogo”: serve para saber como vamos operar e explicitar isso para todas as pessoas (feedback visível/instantâneo)
  • Para se tornar um facilitador de ALC: 1. Passar pela capacitação que estamos passando; 2. Praticar e ter mentoria com alguém mais experiente
  • Qualquer oferta existente em um ALC passa antes pelas crianças, para ver se elas de fato desejam aquilo (não pode, por exemplo, uma pessoa de fora chegar e querer ofertar algo que nenhuma criança se interessa)

  • À tarde, a Rebecka compartilhou a parte 3 de seu conteúdo sobre comunicação ágil. A palestra girou em torno de como interagir com as crianças em situações de conflito ou estressantes.
  • Hoje, tivemos outra reunião de mudança, e ela durou 20 minutos. Inicialmente, eu achei que não ia dar tempo, mas deu. A premissa é que as soluções só se provam boas de fato na prática. Discutir as soluções é menos importante (por isso a rapidez) do que colocá-las em prática e avaliá-las. Avaliamos as soluções que havíamos proposto no dia anterior para melhorar o processo de preenchimento do Kanban e o grupo pareceu bastante satisfeito. De fato, o processo ficou muito mais fluido. Após validar as soluções que havíamos testado, o Rubén nos instigou a pensar em como poderíamos melhorar ainda mais o processo. Achei isso muito interessante: não se trata apenas de resolver o problema, mas sim de uma melhoria contínua.
  • Fechamos o dia com uma reflexão e a partilha de gratidão em círculo.
  • Como bônus, tivemos uma aula de salsa com a Sandra ;P

Dia 5 (terça, 22 de maio)

Impressão geral: hoje foi um dia em que mais participei de atividades. Marco facilitou o Kanban no início e houve alguma correria para preenchê-lo, mas nada demais. Senti as pessoas mais à vontade para ocuparem seu tempo de maneira mais equilibrada, incluindo também conversas informais e encontros espontâneos.

  • Comecei o dia caminhando com a Cristina e a Sandra. A paisagem nos arredores de Quito é maravilhosa, com direito a uma vista dos Andes em 360 graus.
  • Minha primeira atividade oficial foi uma sessão de criação de jogos com o Rubén. Jogamos três jogos e, depois, Rubén compartilhou sua visão a respeito dos elementos necessários para criarmos jogos.

Alguns quotes e anotações que fiz durante a atividade “Criando Jogos” do Rubén:

  • Os jogos foram: “Mingo, Mingo, Mingo”, que geralmente é utilizado para problematizar o tema da violência; “Direito à Informação”, que trabalha comunicação interpessoal (passar corretamente uma mensagem); e “Jogo dos Escudos”, que pode ser utilizado para lidar com qualquer tema problemático em um grupo. Neste último, as pessoas ficam de pé em círculo e uma pessoa fica no centro da roda. As pessoas ao redor, então, tentam acertar as pernas da pessoa ao centro com uma bola. A bola é a representação de alguma coisa ruim que está afligindo a comunidade. Na segunda rodada, o grupo conversa sobre possíveis “escudos” para se defender da questão problemática, e assim a pessoa ao centro pode escolher outra para, literalmente, se defender.
  • Os elementos para criar um jogo segundo o Rubén são:

Intenção do jogo

Especificar intenção (dentro do que queremos atacar, qual é o ponto central?)

Regras/dinâmica do jogo

Configuração física (círculo, área delimitada, etc)

Materiais necessários

Progressões do jogo (geralmente, em jogos educacionais, existe uma progressão do que “não funciona” para o que “funciona”. Isso pode ser feito através de reflexões desenvolvidas pelo próprio grupo, mudanças nas regras, novos elementos, etc)

  • Rubén gosta de propor jogos para iniciar conversas e para estimular pensamento crítico
  • Ele compartilhou uma pasta no Google Drive com vários exemplos de jogos cooperativos, a maioria inicialmente pensada no contexto de treinos de futebol.

  • Em seguida, participei da palestra “Etapas de uma conversação”, também oferecida pelo Rubén.

Alguns quotes e anotações que fiz durante a atividade “Etapas de uma conversação” do Rubén:

  • Conversações são ideias. Rubén apresentou 7 etapas pelas quais toda ideia passa antes de ser amplamente aceita na sociedade
  • 1. Alguém “escuta” a ideia (seja de outra pessoa, seja por meio de um sonho, uma visão ou uma elaboração). A pessoa, então, expressa a ideia para outro alguém. Obstáculos: não dar importância para a ideia, visões diferentes, preconceitos, pessoa não viveu a mesma experiência, níveis de interesse diferentes
  • 2. Lembrar-se da ideia. Obstáculos: desgastar (por fazer a mesma coisa sempre), “se não lembro não é pra mim”, distrações. É possível criar lembretes e “armadilhas” para se lembrar, inclusive com o auxílio da comunidade
  • 3. Receber apoio para sustentar a ideia. Obstáculos: frustrar-se e desistir diante de um fracasso
  • 4. Ajustar, melhorar a ideia. Obstáculo: acomodação
  • 5. Expandir, fortalecer a ideia. Obstáculos: “inundação”, desespero por perder o controle e ver que a ideia que as pessoas estão materializando não corresponde à original. O que fazer: não basta só explicar, é preciso se fazer entender (metáforas, simplificação da mensagem) e dar espaço para viver a experiência.
  • 6. “Distinguir” = tornar apto
  • 7. Deixar ir. Obstáculos: apego. Deixar outras pessoas se apropriarem da ideia para construir um legado

  • Antes do almoço, a Lucia, uma das participantes, compartilhou sobre seu trabalho com o teatro-oficina, uma das variações do teatro do oprimido de Augusto Boal. Ela nos mostrou um vídeo de uma das peças que realizou e explicou como funciona a dinâmica de interação com a plateia, que, após a encenação inicial, sai da posição de espectador e se torna “espectator”. O objetivo central do teatro-oficina é empoderamento. É gerar consciência sobre problemáticas complexas que afetam comunidades.
  • No almoço, conversei com o Rubén sobre a história dos ALC e o surgimento do movimento ágil. Pesquisar: holochain, mundo pós-monetário, Arthur Brock (um dos fundadores dos ALC). Os ALC são a junção do movimento de escolas alternativas, especialmente as escolas democráticas, com o modo de funcionar da metodologia ágil. A ideia é otimizar o que muitas escolas democráticas já vem fazendo ao redor do mundo, criando uma cultura de aprimoramento veloz e constante.
  • À tarde, Rubén me pediu para compartilhar com ele sobre sociocracia. Contei a ele como a estávamos utilizando na comunidade de novas economias. Algo que quero ainda refletir e investigar mais é como combinar o melhor da sociocracia com a tomada de decisão da metodologia ágil (que experimentamos especialmente nas reuniões de mudança). Me parece que a sociocracia é um modelo muito interessante e consistente, mas ela pode aprender com o pragmatismo do método ágil (não importa tanto falar sobre o que será feito, e sim fazer para depois avaliar, e depois fazer de novo para aprimorar mais ainda, e assim vai. Um ciclo ininterrupto de aprimoramento)
  • Também à tarde, Rubén compartilhou sobre sua experiência com a “economia de la generosidad” (gift economy).

Alguns quotes e anotações que fiz durante a atividade “Economia de la generosidad” do Rubén:

  • Muitos conflitos contemporâneos são relacionados ao dinheiro, ainda que nem sempre diretamente
  • Economia de mercado: requer reciprocidade obrigatória (“eu te dou isso, você me dá aquilo”). Relações simétricas
  • Gift economy: relações assimétricas. Eu te dou porque quero te dar. Uma vez que te dei, o ciclo termina. Não precisa haver reciprocidade. A ideia é se despir da expectativa de receber de volta
  • Em quantas situações fazemos coisas por amor, sem expectativa, e em quais fazemos por obrigação?
  • Rubén teve uma primeira experiência com gift economy no Emerging Leader Labs, que funcionava a partir da gift economy
  • Há muitas formas de ser rico: Dinheiro, amor, tempo, atenção
  • De currency para current. Gift economy é sobre perceber os fluxos de riqueza que acontecem ou podem acontecer a cada momento
  • Fazer a opção por viver na gift economy significa ter menos segurança e mais amor ao risco e liberdade
  • Trabalhar na base da gift economy não é trabalhar de graça nem trabalhar por doação, nem viver na pobreza
  • “Para aprender a dar incondicionalmente, é preciso aprender a receber incondicionalmente”
  • Viver na gift economy requer rever constantemente nossos desejos/necessidades. Do que realmente precisamos? O que realmente queremos? O que é desejo nosso e não do nosso ego?

  • No final do dia, tivemos mais uma reunião de mudança, que fluiu bem. Não houve muitas demandas. Percebi que facilitar uma reunião de mudança requer do facilitador uma postura de escuta ativa, buscando reconhecer o que está querendo emergir do grupo, e também uma clareza na fala, para que ele possa ajudar o grupo a chegar nas soluções rapidamente.
  • Terminamos o dia com um círculo de reflexão facilitado pela Sandra, uma das participantes. A ideia era incorporar às reflexões uma consciência maior a respeito das atividades que cada pessoa realizou durante o dia, para que pudéssemos ter um momento para avaliar o que correu conforme o planejado inicialmente no Kanban individual e o que foi diferente (sem julgamentos, somente como uma forma de entender mais profundamente nossos interesses).
  • À noite, jantei com uma parte do grupo e com a Rebecka, uma das facilitadoras. Alguns participantes expressaram à ela uma certa frustração/confusão por conta do formato coparticipativo do curso. Eles esperavam que os facilitadores aportassem mais conteúdo e que dissessem para eles quais coisas eram mais importantes. Foi interessante perceber como a mudança de paradigma da heterodireção para a autodireção leva um tempo para acontecer, e não ocorre sem que haja algum nível de crise.

Dia 6 (quarta, 23 de maio)

Impressão geral: como foi o último dia, o clima era de despedida e as pessoas queriam aproveitar as atividades ao máximo. Pela manhã, ainda tivemos ofertas e pedidos, e à tarde fizemos algumas dinâmicas de encerramento.

  • Na reunião de mudança do dia anterior, foi deliberado que repassássemos as “senhas” (gestos) grupais para que as utilizássemos com maior frequência durante o encontro. Fizemos isso no momento em que estávamos preenchendo nossos Kanbans individuais. As senhas são: “gosto”, “mais ou menos”, “não gosto”, “te escuto”, “te acolho”, “mudar o processo” e “foco”.
  • Participei da palestra “Porque castigos e recompensas não funcionam” da Rebecka.

Alguns quotes e anotações que fiz durante a atividade “Porque castigos e recompensas não funcionam” da Rebecka:

  • Quando uma criança não se comporta como queremos, a primeira pergunta que devemos fazer é: de quem é o problema? Geralmente, o problema tem a ver com as expectativas do adulto.
  • Se o problema é do adulto, a responsabilidade para resolver também é do adulto, e nisso se inclui uma eventual mudança de expectativa.
  • Ameaças, punições e recompensas geram desempoderamento.
  • O que é preciso fazer é apoiar as crianças no desenvolvimento de autocontrole
  • É comum castigos serem disfarçados de “consequências”
  • Castigos: relações de poder. Crianças que sofrem castigos os percebem como injustiças. Isso diminui a confiança. Diminui a chance de que a criança colabore. E aumenta a chance de que o comportamento se repita.
  • Uma pesquisa mostra que, quando castigamos, temos uma sensação de bem-estar (creepy!)
  • Negociar recompensas gera “inflação”. Criança está no comando
  • Às vezes, nossas expectativas como adultos são irreais, e então é preciso ajustá-las e mudar as circunstâncias. Circunstâncias: não levar a criança em algum lugar, alterar a configuração do espaço, etc.
  • Quem não recebe recompensa e vê outros recebendo se sente castigado e injustiçado
  • Competitividade: os pais querem “ganhar o jogo” e a criança também. Reduz a colaboração.
  • Em situações-limite (choro, desespero, raiva, etc), não podemos esperar resolver o problema. A criança não é capaz de refletir e escutar bem nesse momento. No momento do caos, é melhor só esperar (se preciso, acolher a criança).
  • Checar sempre: onde está a capacidade real da criança e onde está minha expectativa?
  • Quando entregamos respeito e confiança, colhemos respeito e confiança.
  • As emoções são contagiosas. Se estamos angustiados, a criança sente e é influenciada.
  • É importante prever as situações que podem ser problemáticas/difíceis para a criança e ajudá-la antecipadamente a lidar com isso (preparar o terreno)

  • Em seguida à palestra da Rebecka, dei uma entrevista sobre o trabalho que desenvolvo com adultos para algumas pessoas participantes.
  • No final da manhã, o grupo havia decidido que faríamos uma sessão de perguntas e respostas para sanar as dúvidas que ainda permaneciam. Para cada pergunta, podíamos ouvir até três respostas (para dar a chance de várias perguntas serem feitas). A pergunta era feita para todos, e não somente para os facilitadores.

Alguns quotes e anotações que fiz durante a atividade de perguntas e respostas:

  • Frase do Rubén: “Entender que o segundo anterior não determina o seguinte”.
  • Nós adultos muitas vezes temos liberdade e não tomamos as decisões mais adequadas. Com as crianças é a mesma coisa (elas vão errar, e tudo bem).
  • Não há certificado de facilitador de ALC. Um facilitador de ALC se faz por meio da experiência, da reflexão e da troca de experiências entre pares. Contudo, entrar para a rede te dá mais chances e recursos para se aprimorar.
  • Estão sendo criadas uma escola de música autodirigida, uma escola de futebol autodirigida e uma escola de teatro autodirigida.

  • No almoço, conversei sobre planos de aprendizagem individuais com o Rubén.

Alguns quotes e anotações que fiz durante a conversa sobre planos de aprendizagem:

  • Nos ALC, há liberdade para cada facilitador criar abordagens que ajudem as crianças a aprender. Inclusive ferramentas de planejamento da aprendizagem, quando necessárias.
  • Algumas crianças pedem por mais estrutura em sua aprendizagem. É aí que o facilitador pode sugerir/construir junto abordagens de planejamento.
  • Cada pessoa funciona melhor de um jeito e está num momento de vida diferente.
  • É preciso balancear planejamento com viver o momento. Nos últimos anos, o Rubén tem experimentado aprender de maneira mais orgânica. “O que minha intuição diz que preciso saber para atuar bem no meu contexto ou em outros nos quais futuramente eu quero estar?”

  • Após o almoço, tivemos duas atividades de encerramento. Uma foi um World Café para pensarmos em ações com o objetivo de manter viva a comunidade. As perguntas nos convidavam a refletir sobre quais estratégias seriam úteis para aproveitar/potencializar o que aprendemos na formação nos níveis individual e coletivo. Ao final, o Rubén facilitou a colheita e nos ajudou a elaborar um plano de ação com tarefas, prazos e responsáveis. Fiquei responsável por organizar um encontro internacional da rede dos ALC, previsto para ocorrer em 2019. :)
  • Para finalizar, fizemos um círculo em pé e compartilhamos o que essa experiência significou para cada um de nós. Cada pessoa que falava recebia um novelo e, quando terminava, passava para outra pessoa, e esse movimento ia configurando entre nós uma rede. Em seguida, fizemos mais uma rodada de partilha, desta vez de agradecimentos pessoais. Muitas pessoas se emocionaram nesse momento.
  • Encerramos o evento com muitos abraços e nossa já tradicional limpeza coletiva do espaço.

Impressão geral do evento e da metodologia: a sensação de família que cultivamos ao longo dos dias foi muito marcante. A progressiva conquista de autonomia do grupo também foi algo interessante de se observar. No início, o desejo principal da maioria das pessoas era aprender com os facilitadores (Rubén e Rebecka). Ao final, percebi que o grupo estava mais à vontade com a dinâmica de “todos podem aprender e ensinar”. As ferramentas dos ALC parecem conjugar bem a autonomia individual (cada um pode fazer o que quiser, inclusive nada, e diversas atividades podem ocorrer simultaneamente) e o ritmo/cultura coletiva (que se manifesta na linguagem comum, nos rituais e processos grupais e no senso de comunidade). A metodologia parece ser bastante versátil, de modo que pode ser aplicada em diversos contextos e consegue englobar diferentes perfis e percursos de aprendizagem.

No último dia, o Marco gravou um vídeo com todos os participantes falando sobre suas impressões do evento:

TEDx Speaker | Autor | Facilitador de comunidades de aprendizagem autodirigida — www.alexbretas.com

TEDx Speaker | Autor | Facilitador de comunidades de aprendizagem autodirigida — www.alexbretas.com