GINE Yourself: como foi e o que aprendi em uma das primeiras aplicações do Learning Sprint

Print do último encontro do grupo, depois das apresentações das entregas finais.

Durante os meses de maio a agosto de 2019, o GINE — Grupo de Investigadores da Nova Educação — tornou-se algo diferente. A proposta inicial do grupo, criado em outubro de 2017 (lá se vão dois anos!), era ser “um grupo de estudos permanente e online para quem quer se aprofundar em uma educação que liberta”.

Desde então, o GINE foi um espaço de experimentação metodológica constante. Passamos por diferentes formatos: encontros focados no diálogo a respeito de temas propostos por mim, encontros temáticos propostos a partir de fagulhas de interesse dos participantes e encontros facilitados pelos próprios investigadores de maneira rodiziada. Cada vez mais, a ideia era ampliar a liberdade — e, consequentemente, a possibilidade de exercitar a autonomia — das pessoas que embarcaram comigo nesse processo.

Em maio, no entanto, eu não esperava que o GINE fosse passar por mais uma mudança. Na teya, eu e Conrado Schlochauer estávamos sistematizando o Learning Sprint, uma jornada de três meses para que pessoas aprendam a aprender baseada em pequenos grupos de suporte mútuo. Fiquei com muita vontade de testar como seria utilizar o Learning Sprint com o grupo do GINE. Nessa altura, todos já estavam acostumados com minha obsessão em testar coisas novas, então ninguém se assustou.

Fiz um post para promover o novo formato do grupo e, no fim das contas, o GINE Yourself — a versão do GINE com o “software” do Learning Sprint instalado — aconteceu com sete pessoas ao longo de 13 encontros semanais. Foi uma aventura emocionante e, além disso, um dos percursos de aprendizagem mais rico em descobertas que já facilitei. Três meses é pouco tempo se comparado com outros processos. E é impressionante o quanto conseguimos avançar nesse período se as condições certas para maximizar a aprendizagem estiverem presentes.

Como foi

Por ser um método ainda em fase de sistematização (tomara que nunca pare de ser!), o Learning Sprint que aconteceu no contexto do GINE Yourself foi se transformando a cada encontro. Minha rotina era criar um documento-guia no Google Drive para a reunião da semana, fazer o encontro e logo em seguida refletir sobre o que aconteceu, já pensando em como a interação da semana seguinte poderia ser melhorada.

Os 13 encontros (eram 12 inicialmente) podem ser divididos em três etapas — Exploração, Sprints e Entrega — , e eles serão descritos em maiores detalhes nos próximos parágrafos. Um panorama do programa pode ser visto abaixo:

Exploração: semanas/encontros 1 a 3

  • Encontro 1 (2h): check-in do percurso e boas-vindas, “Que coisas estão me fascinando neste momento / o que eu adoraria aprender?” (mapear tudo que vem à cabeça), apresentação sobre aprendizagem autodirigida, tira-dúvidas do programa, reflexão pós-encontro “O que me motivaria a criar um percurso de aprendizagem de três meses?”, check-out de 1 palavra.
  • Encontro 2 (2h): check-in, apresentação sobre perguntas de aprendizagem, exercício individual de escrever várias perguntas, escolha de três perguntas que estão mais vivas para cada participante, dupla de pensamento sobre as perguntas, links com referências de textos sobre perguntas no final, reflexão pós-encontro “Qual é a minha pergunta de aprendizagem?”

Neste dia, achei que teríamos tempo de convergir para “a” pergunta de aprendizagem de cada participante, mas não tivemos. Deixamos isso para o encontro seguinte.

  • Encontro 3 (1h15): check-in, apresentação das perguntas por cada participante, apresentação sobre o CEP+R (Conteúdos, Experiências, Pessoas e Redes), convite pós-encontro para enviar de 1 a 3 ações de aprendizagem que cada pessoa quer se comprometer durante a semana no grupo de Whatsapp + lembrete sobre o relato semanal.

O encontro 3 marca o final da fase de Exploração. Dois rituais importantes começaram a partir desse momento. O primeiro foi o “1 a 3 ações de aprendizagem”, uma forma de aumentar a consciência e o comprometimento dos aprendizes em relação a seus percursos. O que se espera não é que a pessoa necessariamente cumpra as ações — em uma semana, muitas coisas que modificam o trajeto planejado podem acontecer — , mas que o fato de torná-las públicas e revisá-las depois seja uma oportunidade de reflexão. Além disso, fazer o “1 a 3 ações” toda semana ajuda os aprendizes a criarem o hábito de planejarem suas rotinas de aprendizado.

O segundo ritual foram os relatos semanais. Antes de cada encontro, os aprendizes compartilhavam um link no grupo de Whatsapp para algum registro contendo os aprendizados da semana anterior. Todos optaram por registrar textualmente, embora o formato pudesse ser livremente decidido por cada um. Algumas pessoas preferiram que somente os demais membros do grupo tivessem acesso a seus relatos, ao passo que outras compartilharam publicamente utilizando plataformas como o Medium.

O compartilhamento dos relatos, e especialmente os feedbacks apreciativos de todo o grupo que se seguiam, acabaram se tornando uma das práticas mais cruciais do processo. A cada link, várias pessoas comentavam, elogiavam e apontavam sugestões e reflexões, e isso fez toda a diferença em termos de motivação, colaboração e senso de comunidade.

Sprints: semanas/encontros 4 a 9

  • Encontro 4 (1h15): check-in, três apresentações de aprendizes definidas por sorteio, pergunta “O que eu posso oferecer de mais valioso para ajudar” após cada apresentação, convite pós-encontro para enviar respostas à pergunta “O que está me desafiando nesse processo?” no grupo do Whatsapp, convite pós-encontro para enviar de 1 a 3 ações de aprendizagem + relato semanal.

Sortear três apresentações foi uma maneira que encontrei de dar voz para os aprendizes sem aumentar muito o tempo dos encontros. É crucial que a duração dos encontros semanais não seja muito longa para que as pessoas não fiquem com preguiça de participar, e também para sobrar mais tempo para que elas façam o mais importante — aprender. No entanto, logo percebi que essa estratégia excluía boa parte do grupo de poder falar sobre sua semana. Por isso, adotei um método novo no encontro seguinte.

  • Encontro 5 (1h): check-in, duplas de compartilhamento utilizando o Breakout Rooms do Zoom a partir de duas perguntas, “O que você descobriu essa semana?” e “Como posso te ajudar a ir mais longe?”, rodada coletiva a partir da pergunta “Em relação ao seu percurso de aprendizagem, o que te desafiou ou surpreendeu essa semana?”, convite pós-encontro para enviar de 1 a 3 ações de aprendizagem + relato semanal, check-out de 1 palavra.

As duplas de compartilhamento funcionaram muito bem. Eu já sabia do poder de pequenas conversas simultâneas dentro de um grupo maior por causa do World Café e outras metodologias de grupo, mas presenciar isso acontecendo no ambiente online foi incrível.

  • Encontro 6 (1h): check-in, duplas de compartilhamento utilizando o Breakout Rooms do Zoom a partir de duas perguntas, “O que você descobriu essa semana?” e “Como posso te ajudar a ir mais longe?”, rodada coletiva a partir da pergunta “Compartilhe um desafio que você teve essa semana e/ou “uma ‘boa prática’ de aprendizado que conseguiu implementar”, conversa (algumas vozes) a partir da pergunta “O que conecta todas as falas?”, convite pós-encontro para enviar de 1 a 3 ações de aprendizagem + relato semanal, check-out de 1 palavra.

Continuei utilizando as duplas de compartilhamento nesse encontro, mas mudei um pouco a rodada que aconteceu depois delas, acrescentando um momento para falar de “boas práticas” de aprendizado. Também adicionei mais uma conversa após a rodada para evidenciar alguns padrões que estavam emergindo nos processos do grupo.

Nessa reunião, também anunciei para os aprendizes as mentorias individuais, isto é, conversas de uma hora que gostaria de ter com cada pessoa para escutar como tem sido suas jornadas e auxiliá-las com sugestões de caminhos a seguir. Ao longo das três semanas seguintes, as mentorias se destacaram como um dos métodos mais valiosos do programa.

  • Encontro 7 (1h): check-in, duplas de compartilhamento utilizando o Breakout Rooms do Zoom a partir de duas perguntas, “O que você descobriu essa semana?” e “Como posso te ajudar a ir mais longe?”, rodada coletiva a partir da pergunta “Compartilhe algo marcante sobre seu processo essa semana”, conversa (algumas vozes) a partir da pergunta “O que conecta todas as falas?”, convite pós-encontro para enviar de 1 a 3 ações de aprendizagem + relato semanal, aviso sobre as mentorias individuais, check-out de 1 palavra.

O encontro 7 foi bem parecido com o 6. Fiz somente uma pequena mudança na pergunta da rodada coletiva, tornando-a mais ampla, e o resultado foi ótimo.

  • Encontro 8 (1h): check-in com apreciação sobre si na última semana, duplas de compartilhamento utilizando o Breakout Rooms do Zoom a partir de duas perguntas, “O que você descobriu essa semana?” e “Como posso te ajudar a ir mais longe?”, rodada coletiva a partir da pergunta “Compartilhe algo marcante sobre seu processo essa semana”, conversa (algumas vozes) a partir da pergunta “O que conecta todas as falas?”, convite pós-encontro para enviar de 1 a 3 ações de aprendizagem + relato semanal, aviso sobre as mentorias individuais, check-out de 1 palavra.

O método do encontro 8 foi praticamente igual ao encontro 7, com exceção do check-in. Percebi que algumas pessoas estavam se culpando por não estarem conseguindo cumprir o planejamento que haviam decidido no início da semana, e por isso decidi utilizar a apreciação como uma estratégia de acolhimento.

  • Encontro 9 (1h): check-in, duplas de compartilhamento utilizando o Breakout Rooms do Zoom a partir de duas perguntas, “O que você descobriu essa semana?” e “Como posso te ajudar a ir mais longe?”, rodada coletiva a partir da pergunta “Compartilhe algo marcante sobre seu processo essa semana”, conversa (algumas vozes) a partir da pergunta “O que conecta todas as falas?”, convite pós-encontro para enviar de 1 a 3 ações de aprendizagem + relato semanal, aviso sobre as mentorias individuais, check-out de 1 palavra.

Entrega: semanas/encontros 10 a 13

  • Encontro 10 (1h15): check-in, apresentação sobre porque e como compartilhar aprendizados, conversa sobre o que mais chamou atenção a partir da apresentação, rodada coletiva com a pergunta “Como eu poderia compartilhar o que estou aprendendo no meu percurso de uma maneira que agregue valor na vida das pessoas?”, convite pós-encontro para enviar de 1 a 3 ações de aprendizagem + relato semanal, aviso sobre as mentorias individuais, check-out de 1 palavra.

O encontro 10 serviu para ampliar a consciência dos aprendizes a respeito da etapa final de compartilhamento do percurso. Quem acompanha meu Medium sabe que considero o ato de compartilhar uma das melhores coisas que você pode fazer para aprender mais. Mais sobre esse assunto aqui.

  • Encontro 11: neste dia, eu não pude participar, mas o encontro aconteceu mesmo assim. Eu gerei um link do Zoom e enviei no grupo de Whatsapp, e a partir disso os aprendizes tomaram a iniciativa. Cinco pessoas participaram e todos apresentaram o que tinham feito ao longo da semana anterior.

Fiquei muito feliz ao perceber que o grupo quis se reunir mesmo sem a minha presença. Interpretei isso como uma conquista de autonomia e, além disso, um sinal de que os aprendizes realmente tinham vontade de estar uns com os outros. Neste ponto do processo, já havia um forte senso de pertencimento no grupo.

  • Encontro 12 (1h): check-in, rodada coletiva sobre como cada um pretende compartilhar seu percurso, rodada a partir da pergunta “Como está sendo preparar minha entrega final e como eu poderia usar esse grupo para me apoiar nesse processo?”, combinados sobre a entrega final, check-out de 1 palavra.

O grupo optou por adiar uma semana a data do encontro de compartilhamento final, a fim de que as entregas pudessem ser finalizadas e lidas por todos antes das apresentações. Notei que vários aprendizes estavam ansiosos com as entregas e queriam mais tempo para terminá-las.

  • Encontro 13 (2h30): check-in rápido, apresentações das entregas finais e rodada de apreciações/apoios/feedbacks após cada apresentação, check-out final.

O encontro de apresentação das entregas finais foi um momento marcante. A sensação de se “terminar” um processo de aprendizagem autodirigida — na verdade, ele nunca acaba — foi um misto de conquista e saudade.

Princípios (que se descortinaram ao longo do processo)

Desde o início do GINE Yourself, eu estava atuando de um certo lugar. Minhas escolhas por formatar o programa seguiam um caminho específico, mas semiconsciente. Somente após o percurso terminar é que reservei um tempo para refletir o que estava guiando o método criado. Cheguei então em um pequeno conjunto de princípios que contribuem não apenas para dar mais clareza sobre a experiência, mas também para iluminar futuros processos semelhantes. São eles:

Autodireção

Tudo durante o percurso era um convite — o compromisso em postar as ações de aprendizagem, os relatos semanais, a mentoria individual, a entrega final e mesmo a presença nos encontros. Se alguém sentia que seu tempo seria melhor utilizado em outro lugar ou fazendo outra coisa, isso era realmente possível. Não havia obrigação. Esse era o mantra durante todo o programa. E, por sustentarmos a autodireção em todas as ocasiões, os aprendizes puderam ampliar sua consciência a respeito de suas decisões e como elas afetavam suas jornadas de aprendizagem.

Autodireção > intencionalidade > consciência.

A autodireção também esteve presente quando os aprendizes escolheram/criaram suas perguntas de aprendizagem e as estratégias de investigação a cada semana. Durante os encontros, eles examinavam essas escolhas à luz de seu próprio poder de reflexão e também das visões e comentários dos outros membros do grupo. Essa reflexão constante preservava a autonomia de cada aprendiz e, ao mesmo tempo, ampliava a consciência em relação a suas dinâmicas de aprendizagem.

No entanto, frequentemente a autodireção era contaminada por resquícios da cultura escolarizante a que todos nós fomos acondicionados. Culpa, frustração, angústia, ansiedade, confusão, dependência e dificuldade de assumir a responsabilidade pelo próprio processo de aprendizagem foram alguns dos fenômenos e sentimentos que surgiram em diferentes momentos por conta do “choque” cultural vivido. Nas palavras de Malcolm Knowles, o pai da andragogia, tudo isso reflete o autoconceito do aprendiz: quando adultos, valorizamos autonomia, mas se nos vemos em um contexto educacional, ligamos a chave da heteronomia: “ensine-me”. É difícil sair dessa lógica, mas programas como o GINE Yourself têm o poder de, pouco a pouco, inaugurar novos modos de se comportar perante a própria educação.

Comunidade

Não demorou muito para que os aprendizes sentissem que estavam formando uma verdadeira comunidade de aprendizagem, mesmo que seus interesses fossem até certo ponto divergentes. A prática da autonomia com consciência fica muito mais fácil quando nos sentimos encorajados e suportados por um grupo. E esse sentimento de pertença/apoio mútuo pode ser intencionalmente estimulado por meio de alguns elementos específicos (recorrência de encontros, práticas de escuta e vulnerabilidade, trocas de conhecimento, espaços “públicos” e “privados” dentro da comunidade, etc).

Em primeiro lugar, o que unia todos os aprendizes era o fato de terem escolhido viver uma aventura compartilhada. Existiam alguns inimigos comuns nessa jornada: a educação tradicional, por um lado, e as dificuldades existentes em percursos de aprendizagem autodirigidos (solidão, indecisão, indisciplina, momentos angustiantes de não saber, etc), por outro. Se o grupo fosse temático, isto é, se houvesse uma forte conexão entre os focos de investigação dos aprendizes, a “cola” do grupo seria outra. Nem melhor nem pior, apenas diferente.

Pequenos grupos questionadores e unidos por uma causa comum podem mudar o mundo. Eles fornecem a energia necessária para que cada pessoa atinja seu potencial, que talvez fosse inalcançável individualmente. Essa transferência de energia do grupo para o indivíduo ocorre de diferentes formas. Se todos na comunidade estão comprometidos, isso gera a conformidade necessária para que o comportamento individual padrão também seja se comprometer.

A troca de conhecimento é acelerada, de modo que cada aprendiz torna-se um curador de informações e referências para o outro. No GINE Yourself, a Maria, uma das aprendizes, pegou emprestado de outra participante, a Mari, o conceito que se tornaria a base de todo seu percurso de aprendizagem, a psicotecnologia. Em um mundo digital com informações infinitas e difíceis de selecionar, uma forte comunidade de suporte se transforma em um filtro catalisador de aprendizados.

Ainda assim, talvez o elemento mais importante que contribui para o sucesso de comunidades de aprendizagem seja o apoio mútuo. Processos de aprendizagem autodirigida são incômodos às vezes. Eles nos desafiam a sair da zona de conforto, mas preservam nosso poder de escolha em fazê-lo ou não. Escutar uma palavra de incentivo de outros aprendizes que também estão vivendo suas jornadas, aprender e poder colaborar com o percurso do outro, sentir-se parte dessa aventura coletiva, tudo isso é propiciado pela comunidade.

Hábito

Recentemente li O Poder do Hábito, de Charles Duhigg, e talvez o nome desse princípio tenha sido influenciado por ele. A experiência do GINE Yourself definitivamente foi baseada em hábitos. Se boa parte de nossas vidas é guiada por essas rotinas frequentemente inconscientes, quando decidimos aprender algo não poderia ser diferente. Para potencializar o aprendizado e persistir em um percurso de investigação, precisamos de bons hábitos de aprendizagem. Simples assim.

O primeiro hábito que os aprendizes foram convidados a desconstruir por meio do programa foi o de procurarem pelo ensino toda vez que queriam aprender. Como disse anteriormente, fomos condicionados à passividade pela escola. Em vez de buscarem um professor ou um curso — alternativas perfeitamente aceitáveis, desde que haja autonomia — , os aprendizes foram estimulados a buscar suas próprias fontes de aprendizado (Conteúdos, Experiências, Pessoas e Redes). Mas essa desconstrução foi apenas a primeira.

Os hábitos que sustentam o ensino eficiente não são os mesmos que sustentam a aprendizagem autodirigida eficiente. A seguir, listo alguns hábitos que o GINE Yourself ajudou os aprendizes a cultivar:

  • Parar e refletir sempre que alguém propõe um certo caminho a seguir, ainda que o caminho venha embalado na forma de uma imposição. No fundo, sempre temos algum nível de escolha e/ou possibilidade de influência. No fundo, tudo na vida é um convite.
  • Planejar ações de aprendizagem em ciclos curtos de uma semana.
  • Refletir a partir das ações de aprendizagem planejadas na semana anterior, não apenas com o intuito de saber se elas foram cumpridas ou não, mas principalmente para ampliar a consciência sobre seu processo de aprendizagem.
  • Produzir e compartilhar registros semanais de aprendizados.
  • Oferecer feedbacks apreciativos para os outros aprendizes a partir da leitura de seus registros semanais.
  • Encontrar semanalmente com um grupo de aprendizes para trocar conhecimento, apoiar e ser apoiado, bem como ampliar o próprio comprometimento e recarregar as baterias para continuar o percurso.
  • Ao aprender algo novo, pensar não somente em conteúdos (livros, vídeos, textos), mas também em experiências (ações para testar seu conhecimento, viagens, jornadas de aprendizagem), pessoas (que podem ofertar escuta, insights e novas referências) e redes (comunidades de prática, conferências, grupos de discussão).
  • Refletir criticamente sobre os objetivos de sua aprendizagem e ter coragem para implementar as melhores estratégias para alcançá-los, dimensionando essas estratégias em desafios desafiadores, mas factíveis.

De modo amplo, o programa apoiou os aprendizes na criação de hábitos que os habilitaram a incorporar integralmente a aprendizagem em suas vidas. Se por tanto tempo nos acostumamos a terceirizar as decisões relativas à nossa própria educação — afastando a aprendizagem da vida — , precisamos de pontes para reaprender a ter controle sobre elas.

Apreciação

O princípio da apreciação talvez tenha sido o mais inesperado de todos. Tomei consciência dele quando comecei a comentar os registros dos aprendizes na primeira semana após a definição das perguntas de aprendizagem. Pensei: “vou comentar todos os registros da maneira mais apreciativa que puder, sem esquecer de mencionar pontos de atenção ou de melhoria, se necessário”. Em pouco tempo, todos os aprendizes estavam fazendo o mesmo. Mesmo quando alguém não comentava, o clima de apreciação e encorajamento se instaurou no grupo. As pessoas entenderam que esse era o modo de se operar ali.

É impressionante o poder das palavras de incentivo na motivação, no pertencimento e, de acordo com o Thinking Environment, na capacidade das pessoas de pensar com mais clareza, criatividade e profundidade. Os feedbacks apreciativos se tornaram uma prática altamente valorizada pelos aprendizes durante o programa, talvez pelo fato de serem raros os espaços sociais em que conseguimos ser apreciados e apreciar com regularidade. E, se a apreciação é positivamente relacionada à habilidade de pensar melhor, é óbvio que ela também possui uma relação positiva com o aprendizado.

Nancy Kline, criadora do Thinking Environment, escreveu em seu livro More Time to Think que não podemos mais negligenciar a importância da apreciação. Nossos corpos simplesmente funcionam melhor quando ela está presente. Pesquisas mostraram que o fluxo sanguíneo no cérebro aumenta quando pensamos e sentimos de maneira apreciativa e diminui quando nos rendemos ao criticismo. Em momentos de apreciação, o ritmo das batidas do coração entra em harmonia e isso faz com que o córtex, a área do cérebro responsável pelos nossos pensamentos mais racionais e sofisticados, trabalhe melhor. A partir dessas descobertas, a autora afirma que

“Essas pesquisas e eu não poderíamos concordar mais. Demonstravelmente, pessoas pensam melhor na presença da apreciação. E elas param de pensar na presença de críticas. Isso é muita coisa se pensarmos na insaciável necessidade de gestores e professores e pais e pastores em nos flagelar com nossos erros. Simplesmente não funciona. Nunca funcionou”.

Ao criarmos o hábito de apreciar e ser apreciado em grupo, automaticamente criamos também um ambiente potencializador da aprendizagem.

Caórdico

A palavra caórdico quer dizer a junção de caos e ordem capaz de desbloquear fluxos e potencializar a criatividade. Em um programa como o GINE Yourself, repleto de pequenos hábitos cujo objetivo é sustentar a aprendizagem autodirigida, poderíamos facilmente cair na armadilha do aprendiz cumpridor de tarefas. Não se trata somente de planejar semanalmente algumas ações a partir de uma pergunta norteadora e realizá-las. O processo de aprendizagem não funciona assim. Ele é muito mais dinâmico, imprevisível e caórdico do que costumamos imaginar.

No entanto, também poderíamos cair em outra armadilha, a do aprendiz libertino. Esse perfil não se preocupa com planejamento e, quando planeja, não se compromete nem reflete em relação ao que planejou. Acredita que apenas sua espontaneidade e improviso serão capazes de fazê-lo chegar onde quer.

Ambos os pólos existem para nos ensinar uma lição fundamental: não se trata de escolher um ou outro, mas sim de equilibrar e integrar as perspectivas. Houve semanas em que alguns aprendizes relataram enorme “produtividade”, sendo capazes de cumprir todas as ações que propuseram e outras mais. No entanto, os relatos mais comuns diziam respeito a dúvidas sobre como dosar a exploração dos caminhos da vontade com o compromisso igualmente intencional de cumprir o planejamento da semana. A culpa por não terem conseguido realizar o que se propuseram também apareceu com frequência, e ter que lidar com ela, redimensionando os planejamentos posteriores, foi um aprendizado importante.

O fato é que a aprendizagem autodirigida sempre vai ser um misto de planejamento intencional e exploração apaixonada e imprevisível. O primeiro nos traz foco e capacidade de execução, ao passo que a segunda nos convida a conhecer novas possibilidades criativas. Quando descobrimos algo novo ou quando melhoramos uma habilidade, novas possibilidades que não conseguíamos enxergar agora ficam visíveis para nós. Cabe a cada aprendiz perceber o que precisa a cada momento e decidir com consciência, compreendendo suas próprias inclinações por mais ordem ou mais caos e fazendo os reequilíbrios necessários. Neste sentido, os encontros semanais foram indispensáveis para que os aprendizes tivessem um espaço seguro de reflexão e recalibragem rápida de suas rotas.

Compartilhamento

Desde o início do percurso, os aprendizes se comprometerem em entregar algo concreto que fosse resultado de seus aprendizados. Essa entrega aconteceu oficialmente no final dos três meses, mas também ocorreu com os relatos semanais. Nos encontros, boa parte das conversas era voltada para estimular o compartilhamento tanto das descobertas da jornada de cada um quanto de reflexões sobre o processo de aprendizagem que todos estavam vivendo. Os feedbacks apreciativos também representavam uma forma de compartilhar percepções encorajadoras a respeito das produções dos outros aprendizes.

De fato, o GINE Yourself foi construído a partir do DNA do compartilhamento. Havia na comunidade um espaço seguro para as pessoas dividirem seus conhecimentos, desafios, conquistas, medos e questionamentos. E elas aproveitaram ao máximo essa oportunidade. Quanto mais era compartilhado, mais o senso de comunidade era fortalecido.

Um aspecto interessante da entrega final é que ela foi sendo “diluída” nas entregas/relatos semanais. Sabe aquele costume de estudar na véspera da prova ou começar a fazer a monografia faltando duas semanas para terminar o curso? Isso não ocorreu conosco. Vários aprendizes decidiram levar a sério os registros semanais, de modo que, quando chegaram no final do programa, já tinham um rico material que serviu de base para esculpir a entrega final.

A Mari, por exemplo, criou uma publicação no Medium que ia sendo alimentada com textos a cada semana. Essa forma de progredir no processo é interessante por várias razões:

  • Aumenta a motivação, uma vez que pequenas vitórias frequentes são celebradas em vez de apenas uma ao final
  • O aprendiz percebe mais claramente seus avanços e “sente” que está aprendendo
  • Gera um portfólio de aprendizagem que pode ser utilizado pelo aprendiz durante e após o percurso
  • Ajuda o aprendiz a construir a coragem para compartilhar e coletar feedbacks constantemente
  • Os feedbacks frequentes enriquecem a jornada do aprendiz com outras visões e sugestões de novos caminhos
  • Gera responsabilização, dado que se o aprendiz não compartilhar em uma determinada semana, isso ficará explícito para si mesmo e para os outros

Escrevi um post com 10 motivos para compartilhar o que se aprende criado a partir da minha fala sobre o tema no encontro 10 do percurso. Quanto mais frequentemente compartilhamos de maneira intencional e estruturada, mais aprendemos.

Como Jonathan Anthony diz, “share is the save”.

Foi bom? Avaliação do programa

Pedi aos aprendizes para preencherem um pequeno questionário antes do programa começar e outro, mais longo e focado na avaliação do percurso, ao final. O que pude extrair dos dados aponta o seguinte:

  • NPS 100! O NPS (Net Promoter Score) do programa foi 100, o que quer dizer que 100% dos aprendizes certamente recomendariam o GINE Yourself para um amigo ou colega. É claro que eu fiquei muito feliz com isso!
  • Palavras que resumem. Segundo os aprendizes, as palavras que resumiram essa experiência foram:
  • Ganhos de aprendizagem autodirigida e autoeficácia. Antes do programa começar e depois, perguntei aos aprendizes o quanto eles se consideravam aprendizes autodirigidos e o quanto eles acreditavam que eram capazes de criar e persistir em um processo de aprendizagem (crença de autoeficácia). Após os três meses, em média, o fator aprendizagem autodirigida cresceu 16% e a crença de autoeficácia aumentou 23%.
  • Quero mais! Muitos aprendizes gostariam que o programa fosse mais longo, ou então me pediram para que tivéssemos uma segunda edição. Por um lado, três meses me parece o período ideal para sustentar o momentum da aprendizagem e os encontros semanais ajudam a dar um ritmo ágil ao processo. Por outro, talvez pudesse haver mais ciclos de três meses depois do primeiro.
  • Badge foi uma ideia boa, mas mal executada. O único método que estava previsto e não foi aplicado foi a utilização da badge (microcertificados). No início do programa, eu havia prometido para aqueles que cumprissem determinados critérios ao longo do percurso que seria concedida uma badge chamada Lifelong Learner. Era uma forma de reconhecer que o aprendiz se comprometeu com seu processo e conseguiu persistir, aumentando suas capacidades de aprendizagem autodirigida. Ao longo dos encontros, eu não registrei como deveria as informações de cada aprendiz para a emissão da badge ao final, de modo que o timing de entrega ficou comprometido. Continuo acreditando no valor das badges, mas sua execução precisa ser melhorada em futuros programas.
  • O poder da atenção e da apreciação. Os feedbacks apreciativos que instauramos como prática recorrente ao longo das semanas foram muito elogiados pelos aprendizes (nota média 10).
  • Consegui! O fato de termos entregas finais também foi muito bem avaliado pelos participantes (nota média 10). A sensação de conquista — terminar alguma coisa com êxito — é muito importante para o ser humano. Doses de dopamina são liberadas quando isso ocorre. Além da entrega final, o processo do Learning Sprint, com pequenas vitórias de aprendizado semanais, estimula descargas de dopamina frequentes.
  • O que fez do GINE Yourself algo especial? Reproduzo abaixo alguns trechos de respostas dos aprendizes em relação a essa pergunta:

“Para mim, vibra o coração pensar na comunidade que cultivamos juntos ao longo desses três meses — afetiva, acolhedora, disposta a escutar, apreciativa”.

“O Learning Sprint estimula outras formas de aprendizagem, que reverberam não só em conhecimentos e habilidades técnicas, mas no autoconhecimento, trazendo assim mais profundidade e permitindo reflexões diferentes, por vezes mais importantes que a aprendizagem “convencional”.

“Uma característica que me marcou é que todo o processo é um convite, ou seja, desde o princípio há autonomia nas escolhas. Não há cobranças ou julgamentos. Esse formato, a meu ver, ajuda a sedimentar a intencionalidade e a autorresponsabilidade durante o percurso”.

“Os formatos de engajamento (definição de ações e entregas semanais) nos auxiliam a não perder o foco”.

Aprendizados (e ideias) sobre o processo

Um percurso como o GINE Yourself nos ensina muito, e como facilitador do processo pude viver algumas pequenas epifanias. Há bastante tempo estou na busca por um certo tipo de estrutura/método/formato que consiga maximizar o apoio a aprendizes autodirigidos. Em um percurso assim, os fatores que aumentam as chances de uma ótima experiência são vários: motivação, autodisciplina/comprometimento, suporte/apoio, senso de pertencimento/comunidade, curadoria/acesso a novos conhecimentos, reconhecimento/“acreditação”, formação de hábitos de aprendizagem, ritmo, ponto de chegada, etc. Encaro isso como um playground.

Os pontos abaixo sintetizam alguns dos meus principais aprendizados sobre como desenhar programas para aprendizes autodirigidos a partir da experiência do GINE Yourself/Learning Sprint:

  • Um dos ingredientes mais importantes de qualquer iniciativa de aprendizagem é o senso de pertencimento/comunidade, mesmo quando cada pessoa está em um percurso individual. Na nuvem de palavras que sintetizam a experiência do GINE Yourself segundo os aprendizes, várias dizem respeito a elementos de grupo: “pertencimento”, “integração”, “comunidade” e “acolhimento”. Isso não é por acaso. Em quase todos os encontros, os aprendizes ressaltavam a importância desse fator. Um grupo altamente cooperativo é capaz de várias coisas: apoiar as pessoas em momentos de dificuldade; celebrar as descobertas e conquistas de cada um; ampliar a quantidade de apreciações que cada um recebe ao longo do trajeto; conferir um ritmo comum e algum nível de pressão social que contribuem para a autodisciplina dos aprendizes; troca de experiências e curadoria “viva” de conhecimentos; além daquela sensação inigualável de não estar sozinho, especialmente quando fazemos algo tão incomum quanto criar um processo de aprendizagem por conta própria. É como ouvi em outro grupo de Learning Sprint: “o pertencimento gera libertação”. Os humanos só conseguem se libertar unidos, como acreditava Paulo Freire.
  • Ler e comentar as produções de cada aprendiz fez toda a diferença no engajamento e no senso de pertencimento do grupo, e é importante o facilitador adotar uma perspectiva altamente apreciativa ao comentar (isso “contamina” as outras pessoas). No mínimo três referências importantes apontam para o poder da atenção (escuta, leitura atenta, o outro perceber que você está acompanhando seu processo) e da apreciação em processos de aprendizagem. A primeira é Joseph Jacotot, anti-pedagogo famoso no século XIX, que afirma que um professor precisa fazer apenas três perguntas a seus aprendizes: “o que você vê?”, “o que pensa disso?” e “o que poderia fazer com isso?”. A segunda é Sugata Mitra, pesquisador indiano, e sua “pedagogia das avós”: quanto mais uma criança em um percurso de aprendizagem tem acesso a alguém (uma avó do outro lado do mundo, no caso) que torce por ela e está disposta a escutar suas descobertas, mais ela aprende. A terceira é Nancy Kline, criadora de uma abordagem cujo um dos princípios é a apreciação: “oferecer um genuíno reconhecimento das qualidades da outra pessoa e do que está funcionando bem”. Pretendo escrever um material específico sobre o poder da atenção e da apreciação na aprendizagem em breve.
  • É importante criar estratégias para cuidar dos momentos de queda de energia do grupo, que podem ocorrer especialmente na metade do percurso. Nesse momento, não há nem a sensação de novidade típica dos primeiros encontros, nem o entusiasmo/ansiedade que se acumulam perto da entrega final. Algumas estratégias possíveis são: criar algum desafio ou projeto coletivo, buddies, mentorias entre pares, trazer um convidado especial, abrir um espaço de escuta e acolhimento, etc.
  • Encontros e rituais recorrentes (1 a 3 ações de aprendizagem e relatos) são fundamentais para apoiar os aprendizes na criação de hábitos de aprendizagem. Vivemos um paradoxo hoje: de um lado, o mundo nos oferece infindáveis oportunidades de aprendizagem online e offline. Conteúdos, pessoas e experiências nunca foram tão facilmente acessíveis. Por outro lado, o mesmo mundo também nos oferece infindáveis oportunidades de distração. Nossa atenção nunca foi tão disputada e fragmentada. Como aproveitar o enorme potencial de aprendizagem atual sem cair na armadilha das distrações? A resposta pode ser resumida em uma só palavra: hábito. Hábitos são o principal instrumento de navegação humano. E os encontros e rituais recorrentes do GINE Yourself ajudaram as pessoas a cultivar hábitos de aprendizagem eficazes. É difícil hoje em dia priorizar o aprendizado em nossas rotinas atribuladas. Quando finalmente conseguimos, o Whatsapp e o Instagram sempre ficam à espreita. Como o Conrado Schlochauer diz: não dá para achar que aprendizagem é ler aquelas cinco páginas do livro antes de dormir e com culpa. Precisamos garantir momentos e espaços com a qualidade e o tempo necessários para de fato conseguirmos extrair sentido de uma realidade complexa. Os aprendizes durante o programa sabiam que toda segunda haveria um encontro no mesmo horário e com uma estrutura semelhante, e isso os ajudou a reservar momentos durante a semana para se dedicarem a seus percursos de aprendizagem.
  • O paradigma escolar dissociou estudo e prática, e processos como o GINE Yourself são importantes para reintegrar as duas perspectivas. Tradicionalmente, nos acostumamos a estudar sem conexão com a prática e praticar sem conexão com o estudo/reflexão/teoria. Alguns aprendizes tendem a ser mais teóricos, outros preferem aprender com pessoas, ao passo que um terceiro grupo opta por ir para a ação rapidamente. Algo que o facilitador pode fazer é ajudar o aprendiz a se perceber em suas inclinações, de forma que ele possa ajustá-las se for o caso. Não há nada errado em seguir sua inclinação, mas eventualmente o processo pode ganhar muito se outras abordagens diferentes daquela que o aprendiz naturalizou forem experimentadas. É importante também apoiar o aprendiz na reflexão a respeito de seus objetivos: se, por exemplo, ele deseja aprender a escutar melhor as pessoas, um percurso totalmente teórico não vai adiantar, mesmo que ele leia os melhores textos sobre o assunto. Os caminhos de aprendizado escolhidos precisam ser aderentes aos objetivos de cada um.
  • O perfeccionismo, ou a dificuldade de dar a cara a tapa, é uma das maiores barreiras que aprendizes autodirigidos precisam vencer. Mais uma vez, a escolarização da sociedade tem um papel enorme nisso. A escola não criou nas pessoas o hábito de testar, se expor e arriscar; pelo contrário, instilou nelas o costume de se esconder atrás de leituras passivas intermináveis. Períodos muito longos somente “adquirindo” conhecimento sem compartilhá-lo — às vezes compartilhar é algo tão simples quanto publicar um Stories no Instagram ou escrever um post — é uma armadilha que precisamos evitar.
  • Uma das dúvidas recorrentes durante o processo é quando convergir e quando divergir. Especialmente em percursos de aprendizado voltados para a construção de conhecimento (alguns são mais voltados para a construção de habilidades ou atitudes), é importante contemplar ambas as etapas. A divergência é o momento de abrir horizontes, explorar livremente e buscar referências a partir da serendipidade. A convergência é a fase de estruturar o pensamento e criar uma narrativa consolidada a partir do que foi pesquisado. Cada aprendiz terá sua própria abordagem em relação a essas etapas: alguns irão separar muito bem uma e outra, ao passo que outros irão conjugá-las de maneira mais caótica. Depende também do momento de vida e do assunto em questão. O que vale evitar é muito tempo divergindo ou convergindo, o que se alinha ao princípio do compartilhamento em ciclos curtos. E, especialmente na fase de divergência, é interessante ter um repositório unificado de referências, reflexões e aprendizados — alguns chamam isso de commonplace book.
  • Algumas pessoas iniciam o percurso com maiores capacidades de aprendizado autodirigido do que outras. Algumas chegam traumatizadas com a educação tradicional e/ou o meio acadêmico e precisam de atenção especial. O próprio grupo é capaz de fornecer boas doses de apoio para essas pessoas, e o fato de todos estarem vivendo a autodireção na aprendizagem juntos é inspirador para elas. O mais importante é que os aprendizes com maior dificuldade no processo sintam-se totalmente acolhidos pelo grupo e pelo facilitador, sentindo também que podem se expressar sem medo de julgamentos e caminhar no próprio ritmo sem cobranças. Eventualmente, mentorias extras podem ser necessárias.
  • Processos de aprendizagem autodirigida não são previsíveis e controláveis por ninguém exceto o próprio aprendiz, que também precisa entender que não possui controle total sobre seu processo. Não existem respostas “certas”, apenas a tentativa de se obter clareza em relação aos próprios objetivos, necessidades e vontades a cada momento. Lidar com isso faz parte do processo de construção da autonomia — em ambientes heterodirigidos, as pessoas sequer se dão conta de que esse desafio existe. Na busca por dirigirem o próprio aprendizado, um dos principais dilemas que os aprendizes enfrentam é “seguir a vontade do momento” x “cumprir o compromisso que eu mesmo estabeleci”. Se a escolha é por seguir a vontade do momento, o que implica em não cumprir o compromisso, isso pode ser motivado por dois fatores distintos: “não farei porque realmente não faz sentido cumprir o planejamento neste momento” x “não farei porque estou com medo/ansioso/paralisado/com raiva”. É preciso se investigar para descobrir de onde surge a negativa em realizar uma intenção decidida previamente, entendendo que está tudo bem não realizá-la. Os encontros semanais do grupo ajudaram cada aprendiz a se perceber nesses aspectos. E, sempre que uma ação planejada não é realizada, vale se perguntar: “do que você escolheu cuidar que não as ações que você planejou?”
  • A aprendizagem autodirigida em grupo ajuda os aprendizes a desenvolver autorresponsabilidade, autodisciplina, autocuidado, autoconhecimento e ampliação de consciência sobre si mesmo e o próprio processo de desenvolvimento. Isso está totalmente alinhado ao que Yaacov Hecht diz a respeito da educação democrática: educar-se com autonomia gera inteligência emocional.

Além dos aprendizados acima, algumas ideias também surgiram. São elas:

  • Duas mentorias, uma logo após a definição da pergunta de aprendizagem e outra na metade do percurso, em vez de apenas uma
  • Mentorias entre os participantes
  • Sistema de buddies
  • Organizar ao menos um encontro presencial
  • Criar mais ciclos de três meses após o primeiro
  • Conectar vários pequenos grupos em um “grupão”
  • Plataforma online
  • Quadro “Preciso de ajuda/Posso ajudar” preenchido a cada encontro
  • No início de cada encontro, uma apresentação curta de um dos aprendizes sobre um conteúdo que ele considera interessante (inspiração: Marcelle Xavier e Ignite, da Perestroika)
  • Cada aprendiz criar seu próprio certificado, ou melhor, cada um presenteia o outro com um certificado customizado ao final do percurso (inspiração: Open Master’s)

Quem participou e quais foram as entregas

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Preparei um conteúdo com as principais pérolas da minha jornada de aprendizagem autodirigida.

É a essência mesmo. Aquilo que eu recomendaria de olhos fechados pra qualquer um que queira aprender a aprender.

E o mais legal é que eu organizei esse conteúdo no formato CEP+R (Conteúdos, Experiências, Pessoas e Redes).

CEP+R é um método que eu e Conrado Schlochauer criamos juntos. Usamos esse método em programas, workshops, mentorias e com a gente mesmo.

Acesse agora o conteúdo no meu site: www.alexbretas.com. E depois me envia um e-mail no alex@alexbretas.com me contando o que achou!

TEDx Speaker | Autor | Facilitador de comunidades de aprendizagem autodirigida — www.alexbretas.com

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