Learning Sprint: criando um projeto de aprendizagem

Um projeto de aprendizagem é como uma jornada. Em qualquer viagem, o processo que a antecede envolve reflexão e planejamento. Para onde quero ir? Que tipos de experiência gostaria de ter? Quantos dias vou ficar?

Todas essas perguntas também são úteis para um projeto de aprendizagem. Antes de embarcar, nos perguntamos: o que preciso aprender? Como quero aprender? Quanto tempo durará meu projeto? Com quem vou realizá-lo? Onde buscarei informações?

Planejar o percurso é importante para podermos vivê-lo com mais integralidade. É ter um pouco mais de cuidado no início para depois poder curtir a paisagem.

O que apresentamos a seguir é uma sugestão para você estruturar sua experiência e adquirir confiança em sua capacidade. Repetindo: é uma sugestão. A partir do momento em que acreditamos que todo o aprendizado é autodirigido, começamos a acreditar também na existência de infinitos caminhos possíveis para que cada um tenha sucesso. O percurso que vamos descrever aqui é a base do Learning Sprint, uma abordagem que temos desenvolvido na teya para apoiar pessoas na criação de seus próprios projetos de aprendizagem.

1. O começo: experimentação e consciência

O convite para o desenvolvimento da habilidade de autodireção da aprendizagem é olhar para dentro ao escolher o que você quer aprender. Se a aprendizagem é a explicitação do conhecimento por meio de uma melhoria de performance, a pergunta é: o que você gostaria de aprimorar?

As perguntas abaixo podem te ajudar a ter ideias:

  • Se você pudesse ganhar um novo superpoder, qual seria?
  • Qual habilidade ou conhecimento te ajudaria muito nesse momento de vida?
  • Que assunto tem te interessado nos últimos tempos? Onde você tem investido tempo lendo livros ou blogs, conversando ou vendo vídeos em redes sociais ou no Youtube?
  • Existe alguma atividade ou tarefa específica que você poderia fazer melhor se aprendesse algo novo?
  • Pense em algo que você gostaria de fazer em um futuro próximo e que aprender algo poderia ajudar. No campo profissional, pode ser uma transição de carreira ou uma nova posição na empresa. Pense no novo você, já com o aprendizado assimilado e sendo capaz de fazer algo hoje que você não era capaz antes.
  • O que pessoas próximas dizem sobre você? Você teve algum feedback ou avaliação de desempenho recentemente? Do que você ouviu, quais os pontos que você considera que valem a pena ser melhorados?

Esse processo de reflexão é importante porque não estamos acostumados a definir os aspectos da nossa aprendizagem. Em seguida, antes de comprar livros e cursos online sobre o tema escolhido, é importante experimentá-lo um pouco. Antes de se comprometer com um caminho mais longo, pesquise na internet o que tem sido falado sobre o assunto e converse com algumas pessoas que possuem o conhecimento que você está buscando. Teste na prática se sua escolha faz sentido e se você terá fôlego para sustentá-la.

Uma vez definido o que aprender, é hora de começar a buscar fontes de aprendizagem. Com dissemos, aprender não é só sobre conteúdo.

2. Montando as peças

Conteúdos são uma ferramenta de educação poderosa. O desafio hoje é conseguir filtrar a quantidade gigantesca de livros, palestras, informações e material online disponível. O segredo é desenvolver uma boa habilidade de curadoria e consumir apenas o conteúdo necessário para o projeto. Mais qualidade e menos quantidade (se você não quiser ficar louco ou frustrado).

Quanto mais você for ativo no consumo do conteúdo, melhor. Por exemplo: para extrair o máximo de aprendizados da leitura de um artigo, é importante sublinhar, sintetizar com suas palavras e produzir reflexões a partir do material lido. Apenas ler é menos eficaz. Ter um local único para reunir todas as suas anotações — geralmente chamado de commonplace book — também pode ser útil para facilitar as conexões entre os conhecimentos. Vale ainda variar o formato: audiolivros e podcasts, por exemplo, podem ser ouvidos durante deslocamentos, algo importante especialmente para quem passa muito tempo do dia indo de um lugar para outro. Conteúdos interessantes são criados a todo momento nos mais diversos canais e formas, e algumas delas nós não costumamos associar com aprendizagem. Já pensou em usar o Twitter e o Stories do Instagram para aprender?

Experiências são o playground da aprendizagem. Viver as coisas na pele, testar o conhecimento na prática, errar sem medo… Tudo isso faz parte do processo e deve ser estimulado de maneira intencional. Sair do consumo de conteúdo e colocar o pé na vida real te ajuda, inclusive, a entender melhor o que você está lendo ou ouvindo. Que experiências você poderia criar que te ajudariam a incorporar os aprendizados que você deseja? Pense na imagem de um laboratório de química, cheio de tubos de ensaio e substâncias estranhas e fascinantes. A vida é exatamente assim, e podemos manipulá-la para aprender. Depois, é importante refletir sobre a experiência de maneira ativa, produzindo e escrevendo, como ressaltamos acima.

Pessoas talvez sejam a fonte primária de aprendizagem da espécie humana desde que desenvolvemos a capacidade de comunicação oral. Ao longo do Learning Sprint, um almoço, um papo em um café ou mesmo uma troca de mensagens podem ser fundamentais para você ter sucesso em momentos de dúvidas ou desmotivações. Pessoas também são ótimas para nos ajudar na difícil tarefa de curar conhecimento. Se você pedir, elas te indicarão tudo que foi (e é) mais relevante para elas em relação a seu tema de interesse. Além disso, quando elas contam sobre suas próprias experiências, as falhas e os sucessos, elas elaboram ainda mais seu pensamento e nos entregam valiosas lições que às vezes nem elas sabiam. Quando acessamos pessoas para aprender, elas nos entregam conhecimento vivo, isto é, conhecimento em processo de transformação constante.

Redes de aprendizado são as pessoas com interesses parecidos com o seu e/ou que convivem com os objetos que você está estudando, oferecendo experiência, motivação para persistir e, principalmente, novas fontes de conteúdos, experiências e pessoas. No início de um projeto de aprendizagem, vale reservar um tempo tanto para montar sua própria rede de aprendizagem pessoal (quem próximo a você ou que você pode acessar poderia contribuir mais com seu projeto?), quanto para mapear redes ou comunidades já existentes dentro do seu tema. Para quase todo assunto é possível encontrar grupos mais ou menos organizados ao redor do mundo que se propõem a estudá-lo e a produzir conhecimento sobre ele. No capítulo de comunidade, exploramos mais sobre como esses grupos podem nos ajudar não só a aprender, mas também a fazer coisas grandiosas e viver com mais significado.

Você não vai fazer uma lista definitiva e extensa de cada um desses elementos logo no início. Se fizesse, é bem provável que boa parte dos itens da lista não fosse utilizado. Ao longo de todo o seu projeto de aprendizagem, certamente você acrescentará novos itens em cada uma das categorias. Descobrir novas e boas fontes é um dos momentos mais prazerosos da jornada e, às vezes, essa descoberta muda todo o percurso. Isso é aprender.

Em um percurso autodirigido, trocamos a obrigatoriedade pela intencionalidade. Com intenção, conseguimos aprender com as experiências que estamos tendo o tempo todo. A capacidade de dirigir nosso aprendizado está diretamente relacionada à capacidade de conduzir a nós mesmos. Estarmos presentes e sermos verdadeiros conosco mesmos são as únicas obrigações ao longo do processo.

3. Compartilhando os tesouros

Por isso, uma boa prática é, no início do projeto, divulgar para quem você quiser (amigos, redes sociais ou seu time na empresa) que você está fazendo um projeto de aprendizagem e propor uma data para apresentar algo que comprove sua realização.

Se alguém pedisse uma prova do que você aprendeu ao longo do projeto, o que você mostraria? Isso é a sua evidência de aprendizagem.

Pode ser qualquer coisa: um texto ou um livro, uma foto com um cliente, um jantar feito por você, um relato sobre uma decisão importante na sua vida, uma mensagem ou um áudio de WhatsApp de alguém reconhecendo seus feitos. Vale tudo que deixe claro que a melhora de desempenho que você queria aconteceu.

É interessante que a evidência venha acompanhada da descrição do processo que a gerou. Assim, se alguém te perguntar como você conseguiu aprender o que aprendeu, você conseguirá justificar claramente mesmo sem ter vivido um curso formal.

Para além da evidência, uma boa prática é compartilhar o que você aprendeu com outras pessoas. Isso te ajudará a elaborar ainda mais os aprendizados, uma vez que sempre que temos que comunicar algo a alguém, estruturamos melhor nosso pensamento. O mesmo acontece quando sabemos que alguém vai nos visitar em nossa casa: deixamos tudo limpo e arrumado como nunca.

Compartilhar também contribui para que suas descobertas ganhem o mundo e ajudem outras pessoas, que talvez até se conectem com você ao acessarem o que você produziu. Nem o conteúdo nem o formato do que vai ser compartilhado precisa ser complexo: é mais interessante ter consistência e compartilhar pouco com frequência do que muito de uma vez só (acabamos perdendo a motivação se nos colocamos objetivos muito grandes).

Ao divulgar no início do processo que você vai realizar um projeto de aprendizagem e “prometer” algo — escrever um artigo, organizar um encontro ou construir um móvel —, você cria uma pressão social positiva que pode te ajudar bastante nos momentos de maior dificuldade, descrença ou mesmo preguiça. Por exemplo: “daqui a três meses, farei um jantar para cinco pessoas só com receitas que aprendi nesse período” ou “daqui a dois meses eu terei realizado duas reuniões utilizando ferramentas de design thinking”.

Isso funciona quase como uma armadilha para você criar disciplina no processo. E criar armadilhas para si mesmo não é uma estratégia nova.

A Odisséia de Homero, livro escrito há mais de 2.000 anos, narra a jornada de Ulisses e seus companheiros na volta para casa após a Guerra de Troia. Em uma das passagens da história, o grupo de Ulisses estava prestes a navegar pela ilha de Capri, um lugar rochoso e cheio de sereias. Eles estavam cansados e ansiosos para reencontrar suas famílias. O canto das sereias, sabia Ulisses, seduzia os homens e os fazia quererem se jogar na água desesperadamente. Ele, então, tapou os ouvidos de seus marujos com cera e pediu para ser amarrado ao mastro do barco. Ao rodear a ilha, Ulisses ouvia as sereias e gritava alucinado pedindo para ser desamarrado, mas o restante da tripulação não o escutava, assim como também não eram atraídos pelo canto. Foi assim que eles conseguiram resistir à tentação e passar ilesos pela ilha.

Essa história demonstra o quanto a disciplina é algo que pode ser desenvolvido e, mais ainda, ressignificado. Criar oportunidades para compartilhar o que se aprende é uma ótima forma de fazer isso. Disciplina não é algo que nascemos com ou sem, ou seja, não é verdade que existem pessoas disciplinadas e pessoas sem disciplina. A questão é que a educação escolar nos convenceu de que a disciplina é uma imposição externa sobre nós, e não um poder que nós mesmos somos capazes de cultivar.

Quando o aprendizado é autodirigido, o poder de compartilhar as descobertas do processo torna-se natural. Isso ocorre porque as pessoas adoram falar sobre aquilo que as encanta. Quando sentimos que sabemos, ou quando sentimos que estamos descobrindo coisas muito interessantes, ficamos com vontade de contar para todo mundo. É aquela ideia do copo que vai enchendo, enchendo, até que começa a transbordar. O transbordamento é quando não conseguimos mais guardar o conhecimento só para a gente.

E compartilhar nossos aprendizados de uma forma que faça sentido, que não seja apenas um acúmulo de informações desconexas e sem alma, é cada vez mais importante no mundo em que estamos vivendo. Informação e conhecimento “de prateleira” viraram commodities: a gente encontra em todo lugar e a preço baixo (ou sem custo). Tudo que podemos encontrar facilmente no Google não é mais tão relevante. O que tem muito valor hoje são histórias que emocionam, descobertas surpreendentes e aprendizados que transformam. Isso é o que realmente precisa ser compartilhado, até porque, como disse o pesquisador do futuro do trabalho Jonathan Anthony, “Share is the new save” ou “Compartilhar é o novo salvar”.

Vivemos a era do compartilhamento. E adivinha qual processo gera compartilhamentos que merecem ganhar o mundo? Aprendizagem autodirigida.

Ao final de uma jornada autodirigida, talvez você não ganhe um certificado formal, mas isso não quer dizer que estratégias de reconhecimento e celebração não possam ser criadas. Que tal convidar as pessoas mais próximas de você durante seu percurso de aprendizagem para pensarem em algum ritual de “formatura”? Que tal você mesmo criar um momento capaz de marcar o fim do processo, como ofertar uma palestra seguida de um happy hour, por exemplo? Seja criativo e imagine algo que simbolize sua trajetória. Muitas vezes esquecemos de apreciar nossas conquistas e celebrar o que vivemos.

E aí, como poderia ser o seu projeto de aprendizagem?

Este é um trecho do livro Core Skills que lançarei este ano junto com Alexandre Santille, Conrado Schlochauer e Tonia Casarin pela Teya.

Se quiser saber mais sobre a Teya e se juntar a esse movimento, clique aqui.

TEDx Speaker | Autor | Facilitador de comunidades de aprendizagem autodirigida — www.alexbretas.com

TEDx Speaker | Autor | Facilitador de comunidades de aprendizagem autodirigida — www.alexbretas.com