Manish Jain, o arquiteto de universidades 100% ilegais

Manish Jain, luz forte no campo da (des)educação mundial, esteve no Brasil para uma série de eventos nas últimas semanas. A vinda dele é resultado de uma articulação impressionante, costurada a muitas mãos. E também é resultado da visão e vontade dele, que vê no nosso país um potencial gigante. Não em termos de crescimento econômico, porque de crescimento não precisamos mais, mas de transformação social e cultural. De resgate dos conhecimentos locais e das sabedorias ancestrais.

Em outubro, estive na Índia e ingressei na Aliança de Ecoversidades, uma rede de universidades livres que Manish ajudou a fundar. Me inspira muito como ele, ao mesmo tempo que sai pelo mundo plantando sementes e provocando desaprendizagens, tem raízes firmes em Udaipur e projetos sólidos por lá, como a Swaraj University, o Shikshantar Institute e o Creativity Adda. O segredo disso, acredito eu, é pensar, sentir e agir de maneira abundante.

A gift culture ou cultura da dádiva, muito citada por ele em sua passagem pelo Brasil, é uma forma de se relacionar que não cai nas armadilhas da escassez que o dinheiro frequentemente cria. As duas bases da gift culture são pedir sem medo e ofertar com generosidade. Às vezes não é preciso nem pedir. Manish ganhou de presente de um conhecido o terreno que hoje sedia a Swaraj. Seu amigo tinha um ashram nos arredores de Udaipur e cedeu o local para que a universidade pudesse funcionar. A cultura da dádiva, para além de uma economia da dádiva, é dar algo de presente para alguém e “ficar em dívida” com ela. Mas essa dívida não é paga diretamente. Ela é paga quando você passa a dádiva adiante. Assim o ciclo da abundância continua. Vejo que Manish se prontifica para compartilhar tudo que tem aprendido porque se vê sempre em dívida. Que bom.

Quando agimos em conexão com o que precisa emergir, não faz muito sentido esperar pelas estruturas e instituições tradicionais. Demoraria muito mudá-las radicalmente, e talvez isso não seja mesmo possível, então o que é necessário é arregaçar as mangas e criar do zero. Com a ajuda de todo mundo que se conecta com aquilo que quer nascer. Manish está convocando todas as comunidades que conhece, quilombolas e indígenas inclusive, para criarem suas próprias universidades. Criar uma universidade é um ato político necessário quando as universidades existentes não nos representam. E melhor se forem 100% ilegais. Colocar na fôrma do governo é perigoso demais. Precisamos bater na porta, mas entrar sem pedir licença para retomar o que é nosso.

Um sinal que mostra como as instituições tradicionais conseguem criar loucuras coletivas é a obsessão pelo diploma. Manish está articulando para que organizações empreguem pessoas que não têm titulações. É preciso curar a sociedade da doença dos certificados. Mas como toda doença, ela tem uma importância: evidenciar que algo não está bem. No caso, o que não está bem é nosso estoque de confiança nas pessoas. Nossa coragem de ver além dos muros da formalidade escolar/acadêmica e de desbloquear o potencial infinito do ser humano.

Obrigado, Manish, por sua generosidade. Seguimos em sintonia!

Vídeo sobre a Swaraj University (legendas em inglês):

Vídeo sobre o Creativity Adda (legendas em inglês):

TEDx Speaker | Autor | Facilitador de comunidades de aprendizagem autodirigida — www.alexbretas.com

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