Meu caminho de aprendizagem autodirigida a partir do doutorado informal

Versão em português da palestra que apresentei no Congreso AÁgil, San Luis Potosí, México.

Olá amigos e amigas mexicanas e de todas as outras nacionalidades aqui presentes. O que é uma nacionalidade, afinal? Será que escolhemos olhar para as fronteiras e as línguas e os costumes com um olhar para o que une ou para o que separa? Aprendi com Milton Santos, um geógrafo negro e brasileiro, que a alienação vem do olhar que separa. É sempre uma escolha, no fim das contas, se vamos nos conectar com a outra pessoa ou não, se vamos nos permitir enxergar para além do certo e errado, para além do feio e do belo, para além dos julgamentos que povoam nossa mente. Sim, eu sou brasileiro e honro minha terra, mas aqui eu escolho ser somente um ser humano, habitante da casa que convencionamos chamar de universo. A humanidade que há em mim celebra a humanidade que há em vocês. Somos perfeitos nas nossas imperfeições. Somos bons o suficiente.

No mês passado, estive em Udaipur, na Índia, para participar do Encontro Global de Ecoversidades. Era a chance de rever alguns amigos queridos e conhecer mais sobre o que está sendo feito para reimaginar a “educação superior” (muitas aspas aqui) no mundo. Lá, conheci o Dada, um guru espiritual neohumanista. Ele estava oferecendo sessões introdutórias de meditação em que você pode descobrir o seu mantra pessoal. No início, fiquei um pouco cético, mas resolvi dar uma chance depois que meu amigo Traian consultou-se com ele. Dada me disse que meu mantra é “you are that”, ou você é aquilo. Você e o que está fora de você são uma coisa só. Não há separação. O bem que você provoca em algo ou alguém é também um bem que você está provocando em si. O mal, idem.

Eu fiquei com muito medo quando recebi o convite para estar aqui. Ainda consigo identificar várias células assustadas no meu corpo hoje. Ao saber que viria ao México, minha cabeça logo se apressou e começou a martelar: “eu não sei falar espanhol”, “será que vou passar vergonha?”, “será que meu trabalho é bom o suficiente para justificar um convite desses?” Meu medo surge com a ilusão da separação. Por eu ser de outro país e falar uma outra língua, achei que éramos separados. Estou aqui de frente pra vocês buscando limpar todas as distrações que me impedem de enxergar o óbvio: nós somos um. Esse processo de limpeza, de desbloqueio, assim como um rio que flui quando retiramos dele as pedras, é a essência da conexão. E conexão, acredito eu, é a essência da aprendizagem.

Meu encontro com o Dada na Índia foi resultado de inúmeros outros acontecimentos marcantes que se sucederam a partir do momento em que embarquei num percurso de aprendizagem autodirigida. Desde cedo, eu gostava de pesquisar coisas por minha conta na internet. Eu encontrava ali um refúgio que me protegia do bullying da escola tradicional, que não tolerava muito bem um menino gordinho, de sardas, nerd e que usava óculos e aparelho nos dentes. A internet me conectou com pessoas do mundo todo a partir dos assuntos que me interessavam: espiritismo, técnica vocal, nutrição, musculação. Eu aprendi muito sobre esses temas lendo artigos e participando de fóruns de discussão. Diferentemente das matérias da escola, eu nutria uma relação muito íntima com esses assuntos. Eles diziam respeito a aspectos fundamentais da minha vida naquele momento.

Foi só quando eu estava na faculdade que consegui nomear o que se passava comigo nas inúmeras horas em que ficava sentado no computador anos antes. Na graduação, eu me apaixonei perdidamente, não por uma pessoa, mas por uma metodologia: o World Café. Esse era o nome que a Juanita Brown, uma consultora dos Estados Unidos, havia dado a uma abordagem de diálogo para grupos voltada para cocriação. Vamos poder experimentar o World Café aqui no congresso. Aconteceu que um amigo me apresentou o método num evento acadêmico. Foi amor à primeira vista. Depois de ver o Café em ação, eu não conseguia parar de pesquisar tudo sobre ele. A primeira tese de doutorado que li inteira foi sobre… adivinha? Sabe quando você esquece de comer e dormir porque está tão vidrado em alguma coisa? Pois é. Ao mesmo tempo em que eu estudava sobre o World Café, também comecei a me interessar por modelos alternativos de educação. Foi assim que descobri Paulo Freire e educação democrática. Eu precisava entender como minha motivação para aprender sobre World Café era tão alta e minha vontade de estudar as matérias da faculdade era tão baixa. Descobri, então, que existiam escolas que deixavam as crianças escolherem o que queriam aprender. Foi um choque e também um alívio porque agora eu entendia que pelo menos eu não estava ficando louco. Foi importante saber que havia outras pessoas loucas junto comigo. O que é a loucura, afinal? Talvez precisemos de mais loucura numa sociedade tão normal quanto doente.

A aprendizagem apaixonada que vivi com o World Café foi a mesma que eu havia experimentado na minha pré-adolescência. Minha paixão era tanto pelo conhecimento quanto pelo processo de investigação. Hoje mais do que nunca, sou capaz de perceber o quanto a busca por aprender é prazerosa. Mesmo quando ela deixa de ser prazerosa e passa a ser dolorosa, porque entramos em crise em muitos momentos da aprendizagem livre, ela não deixa de ser significativa. Há alguns anos, entendi que isso de ser arrebatado por uma experiência tem nome: fluxo. Mihaly, um psicólogo húngaro cujo sobrenome eu não vou nem tentar pronunciar, descobriu que muitas atividades são capazes de despertar em nós um estado de fascínio e conexão tão grande que a gente até esquece da gente. O fluxo acontece quando executamos uma tarefa com níveis muito bem equilibrados de desafio e habilidade. A tarefa é desafiadora, mas temos a habilidade necessária. Nossa motivação intrínseca, um nome luxuoso para vontade, está no pico. Nós não queríamos estar em nenhum outro lugar fazendo qualquer outra coisa: na verdade, nem nos lembramos que existem outros lugares ou outras coisas.

A aprendizagem autodirigida é ótima em promover experiências de fluxo. Blake Boles, um amigo escritor e ativista educacional, diz que aprender de maneira livre é um processo “autotélico”, isto é, ele se justifica em si mesmo. O prazer de aprender, a significância desse ato em nossas vidas é o suficiente para despertar em nós a vontade para tanto. Mas é claro que um percurso de aprendizagem não se encerra em uma pessoa. Assim como uma árvore quando atinge a maturidade, ele pode dar frutos. Ele pode beneficiar a humanidade.

Pouco tempo depois de me formar na faculdade, me mudei pra São Paulo, onde vivo hoje, e começou a me dar uma grande vontade de mergulhar de cabeça no tema da educação livre. Naquele momento, eu só estava começando a explorar o assunto, e minha formação em administração pública não tinha nada a ver com o que eu queria fazer. Lembro que a pergunta que martelava na minha cabeça era: “qual poderia ser a minha contribuição para esse tema?” Ou seja, eu já estava pensando nos frutos. Passei alguns meses encantado com a possibilidade de aprender mais sobre esse campo. Eu ia a eventos, conversava com pessoas que já estavam envolvidas com educação, e aquilo ia me dando um brilho no olho e redemoinhos internos difíceis de descrever. Eu estava desejando profundamente dar aquele passo. Em outras palavras, estava apaixonado. De novo.

De repente, lá estava eu de madrugada devorando o livro Pedagogia da Autonomia de Paulo Freire, relacionando-o com outras leituras e fazendo anotações freneticamente. Aquilo me preenchia de entusiasmo, me fazia esquecer de dormir e comer. Foram mais alguns meses assim, aproveitando cada sensação, criando novas conexões neurais e me abastecendo para o que poderia surgir a partir dali.

Rubem Alves, um conhecido educador e escritor brasileiro, cita William Blake para dizer: “prazer engravida!” O prazer é uma experiência tão forte que é capaz de criar uma nova vida. No contexto da aprendizagem, é aí que eu me defronto com uma escolha: vou fazer algo com isso? Vou empreender esforços no sentido de materializar uma nova criação a partir das minhas investigações? Não há problema algum em ficar só no desejo e no prazer. Mas como eu pensava nos frutos antes mesmo de começar a me engajar no processo, estava claro pra mim que eu queria engravidar. A gravidez sinaliza uma mudança de polaridade: do sonho, que congrega as etapas de desejo e prazer, para a realização.

Ao engravidarmos, mudanças físicas e fisiológicas começam a acontecer no corpo. É que ele está se preparando para criar algo novo, único, uma vida que brilhará por si mesma. Começamos a trabalhar duro para materializar o sonho de aprendizagem que tivemos, gestando um projeto, uma criação, um novo conhecimento que logo verá a luz do dia. A passagem da polaridade do sonho para a realização indica um comprometimento por parte de quem aprende, uma firmeza no sentido de assumir para si o trabalho de sair do abstrato e fincar os pés no concreto. Nesse processo, ganhamos a chance de compartilhar o que estamos aprendendo com o mundo, o que é o mesmo que dizer que somos presenteados com a dádiva de parir.

Quando temos liberdade para aprender, compartilhar nossas reflexões e descobertas passa a ser algo natural. As pessoas adoram falar sobre aquilo que as encanta. Quando estava descobrindo o World Café, eu provavelmente era a pessoa mais chata do mundo porque só falava sobre isso com as pessoas ao meu redor. Alguns amigos meus produziram um documentário sobre formas inovadoras de educação que se chamava “Quando sinto que já sei”. Isso porque havia uma escola cujos momentos de avaliação aconteciam quando as crianças “sentiam que já sabiam” sobre o tema que estavam investigando e decidiam compartilhar seus aprendizados. Quando sentimos que sabemos, ou quando sentimos que estamos descobrindo coisas muito interessantes, ficamos com vontade de contar para outras pessoas. É aquela ideia do copo que vai enchendo, enchendo, enchendo até que começa a transbordar. O transbordamento é quando não conseguimos mais guardar o conhecimento só pra gente. E compartilhar nossos aprendizados de uma forma que faça sentido, de uma forma que não seja apenas um acúmulo de informações desconexas e sem alma, é cada vez mais importante no mundo em que estamos vivendo. Informação e conhecimento “de prateleira” viraram commodities, a gente encontra em todo lugar. Tudo que podemos encontrar facilmente no Google não é mais tão relevante. O que tem muito valor hoje são histórias surpreendentes, aprendizados que emocionam, conhecimentos que transformam, ações que constroem futuros desejáveis. Isso é o que precisa ser compartilhado, até porque, como Jonathan Anthony disse, “Share is the new save” ou “Compartilhar é o novo salvar”. Vivemos na era do compartilhamento. E adivinha que tipo de processo gera histórias vivas, conhecimentos frescos e ações ousadas? Aprendizagem livre, autodirigida.

Engravidar, pra mim, significou entender como eu poderia sustentar o processo de aprendizagem que estava vivendo. Sustentar no sentido de dar estrutura e ritmo, e sustentar também no sentido financeiro. Nesse momento, eu flertei seriamente com o sistema formal e quase ingressei em um programa de pós-graduação acadêmico. Cheguei a escrever um projeto de pesquisa cumprindo com todas as exigências burocráticas e conversei muito com uma amiga que estava fazendo doutorado. Foi aí que um amigo, o André Gravatá, um poeta e ativista da educação, me disse que ele estava fazendo um “doutorado informal”. Ele queria continuar estudando, mas não queria voltar para a universidade. Queria algo profundo, mas ao mesmo tempo leve. Queria conciliar liberdade e consistência. Eu também queria tudo isso.

Decidi fazer do meu percurso um doutorado informal sobre novas formas de aprendizagem. A meta era escrever um livro com os resultados da investigação que seria disponibilizado gratuitamente. Mas como? Eu via várias pessoas próximas a mim criando projetos de financiamento coletivo e a ideia me fascinava. No crowdfunding, qualquer pessoa pode testar uma ideia e entender se há público interessado nela. Geralmente, as ideias são associadas a causas e a relação que se constrói entre quem realiza o projeto e quem apoia é baseada em altos estoques de confiança. Por isso, acredito que a lógica do financiamento coletivo está transformando nossa forma de consumir.

A primeira coisa que eu precisei aprender uma vez tendo decidido pelo doutorado informal foi, então, como criar uma campanha de crowdfunding. Li bastante, conversei com pessoas e comecei a planejar meu projeto. Nesse período, descobri que quando você precisa comunicar seu projeto de maneira convincente, você ganha mais clareza sobre o projeto em si. Comunicar te ajuda a estruturar porque você sabe que a outra pessoa não está dentro da sua cabeça, portanto você precisa contar uma história que a faça entender sua linha de raciocínio. Lancei meu projeto em julho de 2014 e, ao fim da campanha, consegui arrecadar 15.917 reais, o que representava 178% da meta inicial. 158 pessoas me apoiaram e, ao longo dos dois anos seguintes, eram nessas 158 pessoas que eu pensava sempre que alguma coisa me tirava do eixo e me fazia questionar minha capacidade. Se tantas pessoas acreditaram e confiaram em mim, então eu também acredito. Mãos à obra!

Além de ganhar autoconfiança, ter pedido apoio para minha ideia também foi importante como uma forma de comprometimento público. Se eu desistisse no meio do caminho ou simplesmente entregasse algo de baixa qualidade, o custo seria muito alto. Eu me sentiria muito mal pelas pessoas que me apoiaram e minha reputação talvez nunca mais fosse a mesma. Foi assim que descobri que, em percursos de aprendizagem autodirigida, pode ser útil às vezes criar armadilhas de comprometimento pra gente mesmo. Um pouco de motivação extrínseca pode nos ajudar a ir mais longe a partir dos nossos interesses, ou seja, da nossa motivação intrínseca. Sites como o stickK permitem que pessoas cadastrem objetivos e sejam incentivadas a alcançá-los por meio de armadilhas como monitoramento externo e até mesmo perda de dinheiro. Em 2016, Blake Boles utilizou o stickK para ajudá-lo a criar um site sobre aprendizagem autodirigida, uma meta que ele adiava há tempos. Caso ele não entregasse no prazo estipulado, a plataforma iria debitar 1.000 dólares de seu cartão de crédito e enviar diretamente para o comitê de campanha de Donald Trump. Isso era a última coisa que ele queria fazer. Não preciso nem falar que sua meta foi atingida e o site que ele criou, Off-Trail Learning, vale a pena ser visitado.

Criar armadilhas para si mesmo não é uma estratégia nova. A Odisséia de Homero, livro escrito há mais de 2.000 anos, narra a jornada de Ulisses e seus companheiros na volta para casa após a Guerra de Troia. Em uma das passagens da história, o grupo de Ulisses estava prestes a navegar pela ilha de Capri, um lugar rochoso e cheio de sereias. Eles estavam cansados e ansiosos para reencontrar suas famílias. O canto das sereias, sabia Ulisses, seduzia os homens e os fazia quererem se jogar na água desesperadamente. Ele, então, tapou os ouvidos de seus marujos com cera e pediu para ser amarrado ao mastro do barco. Ao rodear a ilha, Ulisses ouvia as sereias e gritava alucinado pedindo para ser desamarrado, mas o restante da tripulação não o escutava, assim como também não eram atraídos pelo canto. Foi assim que eles conseguiram resistir à tentação e passar ilesos pela ilha.

Essa história me lembra o quanto a disciplina é algo que pode ser desenvolvido e, mais ainda, ressignificado. Disciplina não é algo que nascemos com ou sem. Não é verdade que existem pessoas disciplinadas e pessoas sem disciplina. A questão é que a cultura dominante, com destaque para o processo de escolarização, nos convenceu de que a disciplina é uma imposição externa sobre nós, e não um poder que nós mesmos somos capazes de cultivar. Ou seja: disciplina, para muita gente, virou sinônimo de obediência.

Gosto muito de uma fala da Helena Singer, pesquisadora na área de educação democrática, sobre esse tema:

A disciplina pode ser de dois tipos: a da orquestra e a do exército. Normalmente a disciplina das escolas e das famílias é do segundo tipo, o que leva ao ódio. A disciplina da orquestra caracteriza-se por conjugar todos num mesmo espírito, e por permitir que cada um se desenvolva ao máximo. Já a disciplina do quartel precisa lidar com escravos, incapazes de apreciar a liberdade, inferiores, masoquistas.

Como muitos dos lugares que habitamos, inclusive as escolas, universidades e os espaços de trabalho, assemelham-se mais a exércitos do que a orquestras, viramos escravos quase sem perceber. Se existe alguém me cobrando o tempo todo, especialmente para realizar algo que eu mesmo não considero importante, a musculatura da autodisciplina vai ficando fraca, pois não está sendo utilizada.

A autodisciplina, então, pode ser entendida como uma maneira de ser livre, só que ser livre de você mesmo. Ou pelo menos de uma parte de você que não contribui para você chegar aonde quer.

Depois da campanha de financiamento coletivo, era a hora de arregaçar as mangas e fazer o que precisava ser feito. Aquele novo ser crescia dentro de mim e e eu sentia necessidade de cuidar dele e ancorar seu desenvolvimento. Na época, eu trabalhava como consultor em projetos ligados a facilitação de processos na área governamental e conciliava isso com as atividades de pesquisa e escrita do livro. Após algum tempo, ficou claro pra mim que eu precisava abrir mais espaço na minha vida para me aprofundar na investigação. Era um salto rumo ao desconhecido, já que poucas vezes até então eu havia tido a experiência de não estar em um trabalho fixo. Aquilo me causava medo e ansiedade, especialmente porque pra mim é difícil lidar com a instabilidade financeira. Por tudo isso, penso que estar grávido de um projeto intercala momentos de prazer e dor, saber e não saber, confiança e desconfiança. Viver um percurso de aprendizagem livre é como viver uma odisseia.

Cada semana que se passava fazia eu me aproximar um pouco mais do momento tão aguardado do parto, que no meu percurso era o equivalente ao lançamento do livro. O parto pra mim é como um ritual, um batismo cuja magia é a de fazer desabrochar um novo ser, um novo sonho que subitamente encontra a concretude do mundo. O sistema educacional formal tem seus ritos, como por exemplo as provas e as formaturas. Não precisamos jogar o bebê fora com a água do banho: podemos nos apropriar do poder dos rituais e recriá-los de uma forma que faça sentido pra nós no contexto da aprendizagem livre. No meu caso, fiz um evento de lançamento e convidei pessoas que eu admirava e que de algum modo estiveram presentes durante o processo. Contei a elas sobre a jornada, ainda sem a maturidade que tenho hoje ao contá-la para vocês. Talvez este seja um dos grandes presentes que um percurso de aprendizagem autodirigida nos dá: uma história que será lembrada ao longo de toda nossa vida, e que cada vez que é contada, ganha novos contornos. Agradeço a vocês por esta oportunidade de me compreender mais a partir deste momento que estamos compartilhando.

Muitas coisas saíram diferente do planejado. Na verdade, o que era pra ser um livro apenas acabou virando dois. Participei do Caminho do Sertão, uma rota semelhante ao Caminho de Santiago, só que brasileira, e minha experiência por lá se transformou em um dos capítulos do livro, substituindo outro que eu antes havia pensado em escrever. Foram 160 km a pé durante 7 dias pelo sertão, uma região semidesértica no interior do Brasil. Algumas perspectivas e oportunidades só se mostraram pra mim ao longo do percurso. Pessoas e situações com as quais eu esperava aprender muito não foram tão relevantes assim, mas outras se agigantaram e me fizeram perceber o quanto a serendipidade é importante na aprendizagem. Há quem diga que serendipidade é quando fazemos descobertas “por acaso”, mas eu acredito que é quando nosso nível de conexão é tão forte que somos capazes de fazer relações de maneira criativa entre coisas aparentemente desconexas. Com isso, pude vivenciar duas coisas que eu já havia lido nos livros: o mapa não é o território e o caminho se faz caminhando. E que bom que é assim: a criança que nasce é sempre uma surpresa pra nós.

Até dar à luz a um sonho, existe uma estrada que deve ser aproveitada nos mínimos detalhes. Basta ver como o corpo do feto vai sendo preparado, a arquitetura cuidadosa de cada célula, de cada tecido. O DNA é o mesmo a cada empreendimento celular, pois revela a essência originada a partir do desejo de aprender. Ao mesmo tempo que aquela nova vida vai fortalecendo seu vir-a-ser, ela já é. Não é a mãe que gera o filho: é ele que se constrói, que emerge, dispondo do ambiente privilegiado que o corpo e a alma materna sustentam. Pensando em nossos percursos de aprendizagem, fico imaginando que talvez seja impossível controlarmos todos os detalhes da geração de nossos “bebês”. Tudo que podemos fazer é sustentar as condições para a emergência do novo, confiando que a essência do sonho que estamos gestando não pode ser baseada em outra coisa que não o desejo que o originou, seu DNA. O DNA de uma investigação livre é o nosso interesse, nossa vontade. Por favor, não negligenciemos isso. O mundo precisa de mais pessoas como Albert Einstein, Jimi Hendrix, Frida Kahlo e Aaron Swartz, que entenderam como suas motivações intrínsecas poderiam estar a serviço do mundo. O mundo precisa de mais pessoas que aprendam de maneira autodirigida.

Eu fiz um pouco de tudo ao longo desse percurso. Aprendi a pedir, entrevistei muita gente, descobri respostas que vinham sempre com novas perguntas, viajei, caminhei com bolhas nos pés, me apaixonei por um filósofo, ajudei a criar um movimento, escrevi intensamente, vivi intensamente. Meu olhar para a pesquisa era antropológico, ou seja, eu buscava mergulhar fundo nas experiências para poder compreendê-las. Até hoje, esse olhar é como um lema de vida pra mim. É preciso sentir na pele, experimentar. Como já disse o intelectual e ativista social Frei Betto: “a cabeça pensa onde os pés pisam”. Fazer um doutorado informal é alinhar cabeça, coração, pés e mãos em torno do que mais importa para você. É viver a integralidade do processo de nascimento, também conhecido por aprendizagem, que pode ser compreendido a partir das etapas desejo — prazer — gravidez — parto. E dar à luz às nossas invenções faz com que tenhamos ainda mais vontade de iniciar novos processos.

A aprendizagem autodirigida não é só uma experiência significativa e apaixonante. Não se resume a uma habilidade que as empresas e o mercado estão cada vez mais demandando. Não é somente uma forma de entregar novos conhecimentos e projetos capazes de reinventar a sociedade e a vida das pessoas. Ela também pode ser entendida como uma poderosa estratégia de autoconhecimento, e quando eu me refiro a autoconhecimento, também estou falando sobre “autoignorância”. Aprender livremente nos faz tirar a bunda da cadeira para enxergar com outros olhos, porque “a mesa de escritório é um lugar perigoso de onde se ver o mundo”, como disse o escritor John le Carré. Mas aprender livremente também nos faz sentar a bunda na cadeira na hora de sistematizar e elaborar o que aprendemos, portanto o que importa não é só o caos ou só a ordem, é o equilíbrio dinâmico entre os dois. O autoconhecimento, como todo conhecimento, é do domínio da ordem, o que significa dizer que ele serve para nos organizar internamente. A autoignorância, pertencente ao domínio do caos, é a consciência de que é sempre possível se surpreender consigo e se transformar. Nós somos capazes de fazer muito mais do que imaginamos. E eu gosto sempre de ressaltar a ignorância, porque é por meio dela que aprendemos. Que a curiosidade, a humildade e a consciência da ignorância estejam sempre com vocês. Uma descoberta ou uma resposta é uma forma de olhar, mas será que estamos vendo as infinitas outras formas de olhar que existem? Será que estamos enxergando com atenção para entender que a verdade sempre se afasta quando descobrimos um pequeno pedaço dela?

Minha visão da aprendizagem livre como um processo que favorece o autoconhecimento e a autoignorância se baseia muito no que Blake Boles diz. Para ele, aprendemos de maneira autodirigida quando:

  • Escolhemos aprender, estudar ou praticar algo porque é interessante, importante ou significativo para nós;
  • Buscamos de forma proativa pessoas, recursos, parceiros e demais ajudas que precisamos ao longo do caminho;
  • Definimos o sucesso da aprendizagem nos nossos próprios termos;
  • Assumimos a responsabilidade final pelo resultado dos nossos esforços.

Quando vi essas quatro frases, achei que seria interessante resumir cada uma como se fosse um princípio da aprendizagem autodirigida. Temos, então, liberdade, proatividade, autenticidade e responsabilidade. Quando pergunto para uma mãe se ela gostaria que seu filho fosse livre, proativo, autêntico e responsável, a resposta quase sempre é que sim. Por que, então, não se pratica aprendizagem autodirigida nas escolas? Por que isso não é mais divulgado, comentado, vivido? Talvez seja por medo de que as pessoas e as coisas fujam do nosso controle. Talvez seja porque não interessa às estruturas de poder dominantes. Mas penso que interessa muito a nós, exemplares da espécie humana. Interessa muito a nós, pessoas com sonhos, vontades, talentos e histórias. O sistema hegemônico distorce nossa humanidade.

Conexão é a essência da aprendizagem. Quando conseguimos operar em um estado de conexão, entendemos que a consciência da ignorância vale mais do que o conhecimento. Todos os conhecimentos são temporários. Entendemos que aprender é muito diferente de ser ensinado. Aprender requer, em primeiro lugar, a tarefa mais difícil de todas, desaprender. Entendemos que, entre nós e o mundo, entre nós e as outras pessoas, não há separação. A separação é ilusória, é uma miragem criada pelo córtex pré-frontal a qual não devemos nos apegar. É por isso que a aprendizagem deve ser feita cada vez mais em comunhão, como queria Paulo Freire. Não nos deixemos cair na tentação do isolamento, porque a aprendizagem autodirigida não precisa ser uma aprendizagem solitária. Precisamos criar mais grupos de estudo autônomos, grupos de investigação, grupos de cocriação. Cada pessoa vive sua própria jornada, mas tem no grupo o apoio e o contraditório necessários para potencializar seu caminho. É isso que tenho buscado fazer desde que emergi do meu processo de doutorado informal.

A aventura de viver não veio com manual e, se tem algo que me consola, é que está todo mundo junto nessa.

Um abraço infinito, daqueles que dura o tempo que tiver que durar, em cada coração que pulsa aqui. Coração com coração, como aprendi com os povos tradicionais do Havaí na Índia.

Muito obrigado.

Para saber mais sobre mim, acesse o site www.alexbretas.com.

TEDx Speaker | Autor | Facilitador de comunidades de aprendizagem autodirigida — www.alexbretas.com

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