Multiversidade: um convite

Procuro pessoas que queiram estudar em — e cocriar — uma universidade democrática em São Paulo-SP, com início em 2017

Se você acompanha meu trabalho, então já sabe que sou fascinado por investigar e criar ambientes de aprendizagem autônoma para jovens e adultos. Fundei o projeto Educação Fora da Caixa, articulei junto com outras pessoas o movimento do doutorado informal, cocriei o programa Desaprender e tenho facilitado junto à Kailo diversas edições do Train the Trainers — Formação de Facilitadores.

Agora, quero dar mais um passo. Estou com medo, mas decidi ir com medo mesmo.

Estudar/se desenvolver de maneira autodirigida (o que é diferente de estudar sozinho, mas acredito que você já saiba disso) não é algo que estamos acostumados a fazer. Embora, no mundo de hoje, fazer isso seja talvez mais possível do que jamais foi, muitas vezes — e para muita gente — continua não sendo uma tarefa fácil.

Frequentemente recebo pedidos de ajuda de pessoas que anseiam por pesquisar/criar/se aprimorar em algo novo. Questões como falta de tempo, falta de motivação, falta de disciplina, falta de (auto)confiança, ausência de clareza, não saber por onde começar e pouco estímulo das pessoas ao redor são recorrentes. Alguns desses pedidos vêm embalados sob a forma de uma ideia ou projeto já bem definido, outros não.

Mas sabe o que mais me chama atenção nisso? A enorme quantidade de pessoas que estão ávidas por criar seus caminhos com as próprias mãos. Projetar o próprio processo de aprendizagem faz parte disso e, embora sejam muitas as esferas de nossas vidas que estejamos transformando por meio da filosofia Do It Yourself, a educação é uma das mais fundamentais, dado que ajuda a sustentar todas as outras.

Só que a universidade, aquele lugar que sabemos que precisa se remexer para sair da inércia, ainda detém o poder de cultivar relacionamentos. É fato: pessoas se encontrando e passando por experiências juntas são os ingredientes principais para quem quer nutrir uma comunidade. E a universidade, preciso admitir, acaba fazendo isso de um jeito ou de outro. Alan Webb, um dos criadores do Open Master’s — um movimento semelhante ao doutorado informal — defende esse ponto em um TEDx (que pode ser visto abaixo, mas que infelizmente ainda não foi legendado em português).

Além disso, já faz um tempo que conheci a Universidade Shure, em Tóquio, no Japão, uma iniciativa que há 17 anos vem reconfigurando as práticas educativas e administrativas típicas de uma universidade a partir de uma visão democrática (isto é, com o envolvimento de todos e primando pela liberdade e autonomia na aprendizagem). Você talvez tenha visto que, no mês passado, terminei de publicar aqui no blog a entrevista que fiz com Kageki Asakura, professor e um dos fundadores da Shure.

Tudo isso tem me deixado super entusiasmado com um novo projeto. E sinto, sinceramente, que a hora é agora.

A Multiversidade será uma universidade livre e democrática. Você já imaginou como seria uma universidade livre e democrática? Eu já. Pra mim, seria mais ou menos assim:

A Multiversidade é uma comunidade de pessoas que querem se aprofundar nos assuntos que mais as fascinam. Que querem desenvolver as habilidades que julgam imprescindíveis para fazerem o que querem fazer e para serem quem elas querem ser. Nos apoiamos na ideia de universidade democrática, um conceito que surge a partir da educação democrática — um movimento global de transformação educacional em prol da autonomia e da corresponsabilidade. Acreditamos que todos nós temos plena capacidade de decidir por nós mesmos os rumos da nossa educação. Na verdade, mais do que isso: acreditamos que podemos criá-la, desde que estejamos conectados a pessoas que nos apoiam e inspiram. Temos grupos de aprendizagem autônomos, mentorias e acompanhamentos individuais, imersões de aprofundamento focadas em temas específicos, cursos e aulas livres cocriadas e às vezes até oferecidas pelos alunos, pesquisas baseadas nos temas de interesse dos estudantes, uma rede colaborativa de estágios e eventos abertos como Festivais, Saraus, Feiras, Hackathons, Open Spaces etc.

A história abaixo foi o jeito que encontrei para imaginar melhor como seria essa experiência (se você está ansioso para ver como isso funcionaria na prática, então pule direto para a próxima parte).

Imaginando uma universidade democrática

O Festival de Documentários

Chego um pouco atrasado e toco a campainha da casa, uma construção não muito imponente, mas singela e caprichada nos detalhes. No que a porta se abre, vejo pessoas andando pra lá e pra cá e conversando animadamente em todo canto. Pergunto onde posso deixar o homus que trouxe para contribuir com o lanche, e a simpática moça que me recebeu — uma das curadoras dos filmes daquela edição do Festival — aponta para a cozinha. Talvez nem fosse preciso que ela me indicasse o local, dado que meu nariz já havia dado pistas de que pratos muito gostosos estavam me aguardando por ali.

A primeira vez que vi algo sobre o Festival de Documentários foi num folheto pregado num poste na rua. Lembro que fiquei instigado com aquilo: acostumado a só ficar sabendo de eventos pela Internet, achei interessante ver uma iniciativa como essa sendo também difundida offline. Além disso, o folheto ainda me contou que o Festival estava sendo organizado por alunos de uma universidade… democrática. Afinal, o que é uma universidade democrática? Se vivemos numa democracia — eu pensei, logo sendo invadido por toda sorte de questionamentos — , não seriam democráticas todas as universidades?

Fui voltando para o salão principal e ouvi uma pessoa da organização dizendo que o evento atrasaria um pouco para começar, por conta de alguns problemas técnicos. Olhei no relógio e, de fato, já era para ter começado. Ao olhar meu relógio, lembrei de certa vez ter ouvido dizer que a presença de um relógio no braço de alguém poderia indicar sua idade: provavelmente quem usa relógio tem mais de 25 anos, porque quem é mais novo que isso já se acostumou a olhar as horas no celular. Comecei a reparar nas pessoas nos pulsos das pessoas à minha volta: meio a meio, eu diria.

No meio da minha observação participante de pulsos, sou interrompido por um jovem curioso: “Oi, você é o…? De quais grupos aqui na Multiversidade você faz parte?” Devo ter gastado alguns segundos tentando entender o que ele me perguntara. “Ahn, não, na verdade eu não sou daqui, só vim assistir os documentários, mesmo” (agora que percebi que não lembrei de dizer meu nome a ele). “E você, faz parte de algum grupo?”, devolvi a pergunta. “Sim, estou em dois: no de biomimética e no de escrita. Eu não sabia direito o que era o primeiro termo que ele havia dito, mas preferi não revelar minha ignorância. Por outro lado, não pude conter minhas dúvidas em relação a tal da universidade democrática: “Entendi, legal! Você que frequenta aqui sabe me dizer como funciona uma universidade democrática?” Ele respondeu: “é tipo uma universidade normal, mas cada um tem liberdade pra estudar o que quiser, e todos podem participar na criação das regras”.

Ele estava prestes a me contar mais coisas, mas subitamente vi um monte de braços se levantando e, de uma hora para outra, as vozes fizeram silêncio. Entendi que eu também deveria levantar os braços e parar de conversar. Ok. A moça que havia me anfitriado, então, pede para todos abaixarem os braços e dá as boas-vindas. Para minha sorte, ela começa a fazer uma introdução sobre a Multiversidade antes de falar sobre o Festival.

A Multiversidade é uma comunidade de pessoas que querem se aprofundar nos assuntos que mais as fascinam. Que querem desenvolver as habilidades que julgam imprescindíveis para fazerem o que querem fazer e para serem quem elas querem ser. Nos apoiamos na ideia de universidade democrática, uma noção que vem da educação democrática, um movimento global de transformação educacional. Acreditamos que todos nós temos plena capacidade de decidir por nós mesmos os rumos da nossa educação. Na verdade, mais do que isso: acreditamos que podemos criá-la, desde que estejamos conectados a pessoas que nos apoiam e inspiram. Temos aqui grupos de aprendizagem autônomos, mentorias e acompanhamentos individuais, imersões de aprofundamento focadas em temas específicos, cursos e aulas livres cocriadas e às vezes até oferecidas pelos alunos, uma rede colaborativa de estágios e, periodicamente, organizamos eventos abertos como o Festival de Documentários.

Aquela fala me entortou tanto que eu até estava disposto a engolir a vergonha para fazer minhas inúmeras perguntas em público: “Mas como vocês fazem isso? Como vocês asseguram a qualidade do ensino? Como são as provas? Isso é reconhecido pelo MEC?” Eu estava em chamas. Contudo, logo após sua fala de apresentação, a moça avisou que seria melhor abrir para perguntas depois da exibição dos filmes. Segundo ela, assistir os documentários — todos sobre educação — ajudaria os marinheiros de primeira viagem a compreenderem melhor as bases da universidade. Relutei, mas como eu já estava ali, usei da inércia e fiquei quieto.

O Festival estava programado para durar o sábado inteiro e os filmes selecionados, em ordem de apresentação, eram: “A Educação Proibida” e “O Emprego” — um longa e um curta argentinos — , “Quando sinto que já sei”, brasileiro, e por último, o norte-americano “Escolarizando o Mundo”. O almoço, feito pelos próprios alunos e professores da universidade, seria servido numa grande mesa no fim das duas primeiras exibições.

Enquanto comíamos, conversamos intensamente sobre os filmes. Tudo aquilo ainda não fazia muito sentido, mas ocupava um espaço cada vez maior dentro da minha cabeça. Assistimos aos outros dois filmes e, ao final, você é capaz de imaginar meu estado… Sentamos todos numa roda e conversamos com o auxílio de um tal de “objeto da fala” que passava de mão em mão no círculo. Meu coração palpitava com cada relato, um pouco de emoção e um pouco porque eu estava desesperado para falar, mas precisava esperar a minha vez. E então, minha vez chegou. Não lembro muito bem o que falei, mas me senti num grupo terapêutico. Me abri completamente para pessoas que eu havia acabado de conhecer.

Minha desconfiança cedeu lugar a uma enorme curiosidade de viver na pele aquela experiência. E isso provavelmente acabou escapando na minha fala. No final, a moça me convidou para experimentar 15 dias na universidade. Eu já tinha topado antes até de terminar de ouvir a frase, mas disse que ia pensar.

Fui pra casa, e no caminho meu rosto teimava em sorrir. Havia uma saída…

Como fazer uma coisa dessas funcionar?

Basicamente, imagino que a estrutura básica da universidade seria composta por:

  • Um calendário anual de atividades, dividido em três ciclos de três meses + três meses de férias. A construção desse calendário seria feita por todos (alunos, professores e parceiros) como uma forma de orientar as ações e tangibilizá-las (é incrível como tudo fica mais concreto se colocamos uma data). O calendário ficará disponível publicamente online por meio de alguma ferramenta digital (ex: Teamup), e haverá espaço também para que novas proposições de atividades sejam feitas no decorrer do ano. No que se refere ao formato das ações, a ideia é compor um cardápio variado com atividades em grupo e individuais livremente escolhidas (e, porque não, criadas) pelos alunos. Cada estudante definirá seu próprio itinerário com o apoio de um professor.

(Professor, na nossa universidade, é alguém que ajuda o aluno a fazer suas próprias descobertas. Não é alguém que professa conhecimento ou que necessariamente “sabe mais”. É mais um coach/mentor do que um professor no sentido tradicional.)

(Tipos de atividades possíveis: cursos, palestras, aulas, workshops, grupos de investigação, grupos de leitura e diálogo, visitas, vivências, ensaios, caminhadas, saraus, cortejos, festivais, conversações, pesquisas, projetos em parceria com outras organizações e comunidades, desafios, viagens, imersões, retiros e tudo mais que nossa imaginação for capaz de criar.)

(Como aprendi com o Kageki, da Universidade Shure, acostumar-se às dinâmicas da educação democrática leva tempo. Por isso é que estamos falando de um processo mais longo — anual — , ainda que subdividido em ciclos trimestrais.)

(Não definiremos quantos anos cada pessoa deverá ficar na universidade. Isso caberá a cada um decidir, a partir de suas próprias vivências e necessidades)

  • Um espaço físico ou uma rede de espaços que permita a realização das atividades. Tanto o espaço quanto os recursos necessários para o que formos fazer poderão ser viabilizados de maneira colaborativa (permutas, empréstimos, doações), além da tradicional via financeira.
  • Reuniões deliberativas mensais, cujo objetivo seria avaliar o funcionamento da universidade e, se for o caso, propor, discutir e decidir por mudanças. A princípio, a participação nas reuniões não será obrigatória, mas as pessoas que eventualmente faltarem deverão anuir às decisões tomadas. Todos (alunos, professores e parceiros) poderão participar. Idealmente, as decisões serão tomadas por consenso/consentimento (na linha do que preconiza a educação democrática e outros métodos decisórios como a sociocracia).
  • Grupos de responsabilidade, cada um responsabilizando-se por aspectos específicos do bom funcionamento da universidade: alimentação, biblioteca (física e/ou digital), financeiro, limpeza e organização, gestão das atividades etc. Os grupos seriam compostos por quaisquer pessoas vinculadas à universidade, via adesão voluntária.
  • Uma rede de pessoas das mais diversas especialidades que poderiam ser convidadas para contribuir com aulas, cursos, mentorias e apoios individuais, desafios, conversas etc. Uma vez que a “turma” (ou as turmas) da universidade estiver formada, mapearemos os interesses e necessidades de aprendizagem dos alunos e, a partir disso, iremos em busca de pessoas que possam contribuir com suas experiências e conhecimentos. Poderíamos aproveitar as redes de parceiros do Desaprender e de mentores do Gap Year do UnCollege, além de outras já existentes. Quando alguém da rede for chamado para contribuir de alguma forma, dois pontos devem ser considerados: 1) a atividade deverá ser proposta levando em consideração os princípios da educação democrática (por exemplo: a ementa de um curso idealmente sendo criada pelo professor em conjunto com os alunos, ou, se somente o professor a criar, que haja consentimento ativo por parte dos estudantes); 2) deverá haver algum tipo de contrapartida para os membros da rede (remuneração, trocas etc).
  • Um evento aberto para encerrar, avaliar e compartilhar os aprendizados de cada ciclo trimestral, além de uma “formatura” anual (possivelmente organizada por um grupo de responsabilidade). Esses eventos serão importantes pontos de contato entre a universidade e a comunidade ao entorno, e seu formato irá variar.
  • Um período de 15 dias de “experiência” para alunos novos seguido de uma conversa com algum professor, de modo que a pessoa possa decidir de maneira consciente e embasada se quer realmente se vincular à universidade.

Dá pra pensar em muitas outras coisas: essa lista é só um esboço inicial. No entanto, o mais importante é fazer, testar, ver como funciona na prática. O que nos leva ao nosso próximo ponto.

Agora sim, o convite

Quer participar disso? Estou à procura dos futuros alunos e cocriadores da Multiversidade.

Se essa ideia te faz vibrar, apareça no nosso primeiro encontro, dia 2 de novembro (quarta-feira), das 19 às 22 horas, na Casinha 161 (Rua Professor João Marinho, 161, Paraíso, 15 min de caminhada do metrô Brigadeiro).

Mais detalhes sobre o encontro aqui.

TEDx Speaker | Autor | Facilitador de comunidades de aprendizagem autodirigida — www.alexbretas.com

TEDx Speaker | Autor | Facilitador de comunidades de aprendizagem autodirigida — www.alexbretas.com