Num mundo de 140 caracteres, textão é rebeldia — parte 1

O textão, aquele que já vem com aviso em cima nos convidando ou para nos concentrarmos nele ou para ignorá-lo solenemente, é cada vez mais visto nas minhas mídias. Trata-se de um fenômeno curioso, já que nos cursos de marketing digital a tônica é sempre evitar escrever muito se você quiser ser lido por alguém. Por que, afinal, o textão surgiu?

Para responder à essa pergunta, faz sentido refletir sobre a arquitetura das mídias sociais. Tomemos o Facebook como exemplo — é a rede que mais utilizo e também a que possui o maior número de usuários. Algumas ponderações:

O Facebook disseminou o “Curtir” e, mais recentemente, suas variações.

Isso não é por acaso. Curtir é o Mínimo de Interação Possível a um Mínimo Esforço Possível, isto é, está ao alcance do dedo que não precisa sequer digitar no teclado (a força exigida em um clique é certamente menor que aquela demandada para apertar uma tecla). Se eu posso simplesmente me manifestar empreendendo um Mínimo Esforço Possível, por que eu iria fazer mais? Por que eu iria escrever uma mensagem de agradecimento efusiva e verdadeira àquele amigo que me marcou num post de discussão sobre 13 Reasons Why que mudou minha vida? Ah, mas existem os comentários, você poderia dizer. É, mas a quantidade de comentários é sempre muito menor que a de curtidas. O Curtir está nos viciando em interações vazias, pouco significativas para nós e para nosso interlocutores. Adivinha quem acha o Curtir super significativo? (especialmente volumes gigantescos de Curtir de bilhões de pessoas agregados em algoritmos de publicidade) Pois é.

O Facebook esconde mensagens longas e, em seu lugar, cria um link para “Ver mais”.

Assim como o Curtir, o “Ver mais” está a serviço de uma falsa pressa, de uma urgência desvairada que estão nos metendo goela abaixo. Sentimos necessidade de rolar o “feed” de notícias infinitamente, numa eternização do presente que nos confina aos muros da instantaneidade. Não é raro eu ter dificuldade em ler um texto inteiro na internet. Imagine se, na mundo real, de carne e osso, nós só ouvíssemos 50, 30% do que outra pessoa nos diz e depois sua voz fosse subitamente cortada. A partir daí, escolheríamos se queremos ouvir mais ou se já é o suficiente. É uma forma fácil de darmos um basta no outro. Afinal, ele não importa tanto, o que importa é nos alimentarmos (feed) do maior volume de informações possível, além de regurgitar pensamentos e momentos cuidando para que não seja em excesso, isto é, para que não exceda o limite do “Ver mais”. Afinal, quem quer ter sua voz cortada?

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