O motivo oculto da falta de consistência (ou como não sofrer de TDPH)

“Em um número surpreendente de áreas, você conseguirá chegar ao sucesso se você simplesmente estiver disposto a fazer a coisa razoável por mais tempo do que a maioria das pessoas” (James Clear)

Por muito tempo, eu pensei que o inimigo nº 1 do aprendizado e do trabalho consistentes era a procrastinação.

Faz algum sentido: eu não consigo ter consistência/disciplina ao longo do tempo porque em muitos momentos eu fico adiando as ações mais importantes, por menores que elas sejam e por menos ameaçadoras que elas sejam.

Depois, ao refletir mais sobre o ato de procrastinar, entendi que o “buraco era mais embaixo”. Afinal, por que as pessoas procrastinam? Há três caminhos para se pensar aqui: perfeccionismo, autossabotagem e hábitos.

Se eu não consigo tolerar a ideia de que minha ação seja imperfeita — e ela sempre será, porque a perfeição é uma fantasia criada pela mente -, então eu tendo a postergá-la por medo de revelar minhas rachaduras para o outro.

Caso eu consiga ser consistente durante certo tempo, então começo a correr o risco de as coisas “darem certo”, o que talvez seja demais pra mim. Como vou lidar com uma versão de mim mesmo que “deu certo”? Como vou suportar viver sem a minha teimosa e agridoce mania de autoflagelação?

Se eu até consigo ser consistente em alguns momentos, mas em muitos outros não, o motivo pode ter a ver com os hábitos não estarem na mesma direção daquilo que se deseja. Hábitos alteram nosso padrão de pensamento de forma que o normal “não fazer” se torna um “fazer”.

Ainda assim, perfeccionismo, autossabotagem e hábitos não conseguem explicar totalmente nossa falta de consistência crônica. E eu nem vou entrar aqui na questão referente ao quanto os sistemas de educação e trabalho tradicionais nos atrapalham a construir autodisciplina (o ebook “A Autodisciplina na Aprendizagem” aborda essa questão, assim como este texto aqui).

Além dos três fatores acima, existe uma tendência comum em várias pessoas que apoio em mentorias e comunidades de aprendizagem: ter ideias demais. E o problema, é claro, não está no excesso de imaginação, mas na falta de priorização.

Não é só que elas têm ideias demais: elas buscam conteúdos demais, fazem cursos demais, marcam reuniões demais — muitas delas completamente inúteis -, e aí não sobra tempo nem energia para decidir e se comprometer com os 20% que garantiriam 80% do resultado (conforme nos ensina o princípio de Pareto).

E nao para por aí. Mesmo que consigam eleger uma única ideia/caminho e priorizá-lo de verdade, essas pessoas com frequência caem na tentação de torná-lo extremamente complicado, perdendo de vista as noções de que “feito é melhor que perfeito” e de que “a genialidade está no simples”.

Por não conseguirem domar sua mente, elas andam em círculos. Por quererem fazer demais, acabam fazendo muito pouco. Se identificou?

Essas pessoas sofrem do que eu chamo provocativamente de “Transtorno de Déficit de Priorização com Hiperansiedade” ou TDPH. E, ainda que as causas dessa “condição” tenham profundas raízes sistêmicas e contextuais, existem alguns caminhos concretos para trabalhá-la no nível individual.

Três ações simples que eu utilizo na minha rotina são:

1. Tenha um commonplace book e construa o hábito de utilizá-lo sempre

Por que é importante? Com um commonplace book, você tem onde “desaguar” suas ideias e pensamentos toda vez que se depara com eles e, sempre que faz isso, é como se seu cérebro “liberasse espaço” para continuar perseguindo suas prioridades.

2. Abra espaço na sua agenda cortando o excesso de cursos, reuniões e consumo de conteúdo

Por que é importante? Quando estamos desenvolvendo um novo hábito — algo fundamental para sermos consistentes em basicamente qualquer coisa na vida -, isso requer não apenas tempo, como também energia vital para acontecer. Experimente, por exemplo, tentar resistir a um bolo de chocolate na geladeira depois de um dia exaustivo. É pouco provável que você consiga porque sua energia/atenção está baixa, de modo que você tenderá a seguir os velhos hábitos de sempre.

3. Seja qual for a sua prioridade, transforme-a em uma rotina simples e frequente

Por que é importante? Quanto menor e mais frequente for a ação que você conseguir “recortar” a partir da sua prioridade, mais chances você tem de ser consistente ao longo do tempo. Por mais que um ou outro conteúdo que se tornou viral ouse lhe dizer o contrário, o sucesso ainda é fruto de pequenas ações sendo sustentadas continuamente no tempo. Como aprendi com meu amigo André Camargo, “leva 10 anos pra fazer sucesso da noite pro dia”.

A vida hoje nos faz sucessivos convites que nos levam à distração e à falta de consistência. E é justamente por isso que a frase de James Clear faz tanto sentido: em muitos casos, o principal caminho para ser bem sucedido é persistir fazendo a “coisa razoável” por tempo suficiente.

Em tempos de atenção despedaçada, quem tem consistência é rei.

Saiba mais sobre mim e assine minha newsletter semanal em www.alexbretas.com.

TEDx Speaker | Autor | Facilitador de comunidades de aprendizagem autodirigida — www.alexbretas.com

TEDx Speaker | Autor | Facilitador de comunidades de aprendizagem autodirigida — www.alexbretas.com