O que a sociocracia me ensinou sobre tomar decisões e gerir comunidades

Lembretes pra mim mesmo

Muita gratidão à Fabi Maia e ao Rafael Oliveira, do Terra Luminous, que facilitaram a oficina de sociocracia que participei. Devo meus aprendizados a essas duas pessoas incríveis!

Lista de aprendizados:

  • Crenças que a sociocracia ajuda a desconstruir: “não tem para todo mundo”; “mais é melhor”; “não há escolha”; “é preciso controlar para que as coisas aconteçam”.
  • Nunca sabemos se uma decisão é boa ou não antes de colocá-la em prática. Nunca sabemos se um caminho é bom ou não antes de trilhá-lo. Podemos supor, podemos apontar riscos, podemos analisar a situação de diversas perspectivas. Mas tudo que conseguiremos ter no final do dia são hipóteses. Hipóteses precisam ser testadas.
  • Precisamos, então, testar o mais rápido possível. Buscar a solução “suficientemente boa para o momento e segura o suficiente para ser tentada”.
  • A inteligência coletiva supera a inteligência individual. Acreditar nisso é a base da cocriação e do próprio significado da sociocracia, “governança entre pares”. No entanto, dizer que acreditamos nisso é uma coisa, praticar é outra. Criar o campo para a inteligência coletiva emergir envolve mexer nas estruturas de poder, o que provavelmente fará com que algumas pessoas percam poder (ou abdiquem de seu “poder-sobre” para praticar “poder-com”, e essa transição dói).
  • Ao se tomar uma decisão, é melhor buscar as objeções do que as aprovações. A pergunta clássica da sociocracia quando alguém formula uma proposta é “alguém tem alguma objeção?” De outra maneira, poderíamos dizer: “alguém está enxergando algum risco que impede que essa proposta seja suficientemente boa para o momento e segura o suficiente para ser testada?” Buscar aprovações é partir da desconfiança. Inverter essa lógica funciona também como um nudge, isto é, a busca sociocrática por objeções é uma arquitetura de escolha que amplia a eficácia da tomada de decisão.
  • Uma objeção é sempre um presente que alguém dá para o grupo. Objetar significa que eu vejo algo — um risco, um perigo, um problema em potencial — que ainda não foi integrado à proposta.
  • O equilíbrio entre eficácia e equivalência é um dos pontos-chave para uma boa governança. Eficácia = alcançar os objetivos; equivalência = igualdade de condições entre as pessoas, de modo que todas possam ser escutadas.
  • A prática do consenso, muito comum em comunidades, coletivos e ONGs, é um avanço importante em relação a modelos autocráticos. Porém, o consenso frequentemente é cansativo e pouco eficaz (foco exagerado na equivalência em detrimento da eficácia). Isso não raro faz com que os grupos retornem a formas hierárquicas e autoritárias de gestão.
  • Há um prazo para avaliar cada proposta, decidido no momento de sua aprovação. Pensando de maneira ágil, é interessante que esses prazos não sejam muito extensos. Nos ALC, por exemplo, é comum que haja um momento semanal para avaliar as decisões tomadas (chamado de reunião de mudança).
  • O modelo sociocrático trabalha com três tipos de reuniões: de governança; operacionais; e emocionais. Uma premissa importante é que, sem trabalhar o emocional (as feridas, os julgamentos, as inseguranças), a governança e o operacional acabam emperrando (e as pessoas acabam adoecendo ou deixando a organização ou comunidade).
  • Uma forma de criar espaços de “limpeza” emocional é o Ukitavivu, um método desenvolvido no Terra Luminous a partir do Fórum.
  • A inteligência coletiva surge quando deixamos de olhar para a estratégia e passamos a olhar para a necessidade subjacente. É por isso que, na sociocracia, construímos drivers (motivadores). Se um grupo consegue construir um driver que explicita a necessidade não atendida, então todas as pessoas podem ter ideias para saná-la. Um driver é como um container propício à cocriação. Todas as pessoas veem o container e, ao vê-lo, ganham a chance de agir de maneira cooperativa sobre ele. Cada círculo (grupo de trabalho) na sociocracia é animado por um driver. Somos condicionados a pular direto para as estratégias, olhando pouco para as necessidades. É preciso recuar sempre que entendermos que as necessidades de um driver não estão claras o suficiente.
  • Estratégias podem tomar a forma de ações, acordos, papéis e círculos.
  • Cada papel é definido em conjunto por cada círculo. Assim, é possível ter clareza a respeito das atribuições de cada pessoa e avaliá-las coletivamente (não com o intuito de punir/reprimir, e sim melhorar).
  • O processo para seleção de pessoas que irão desempenhar os papéis é muito interessante na sociocracia. É transparente e horizontal.
  • Em uma governança entre pares (sem uma liderança que centraliza o poder), as decisões são tomadas por um círculo geral, e não por uma diretoria. As reuniões assumem o lugar da chefia. Vários círculos com funções específicas podem coexistir, de modo que elegem representantes para estarem nas reuniões do círculo geral.
  • Antes de cada reunião sociocrática, há um conjunto de lembretes chamado “ADMIN”.

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TEDx Speaker | Autor | Facilitador de comunidades de aprendizagem autodirigida — www.alexbretas.com