Tudo que é visto é sempre visto por alguém

Existe um tópico que me interessa muito e que transcende o meu trabalho com educação — não antes de afetá-lo enormemente.

Esse tópico reflete, pra mim, a principal mudança de mentalidade necessária para a prática de uma aprendizagem realmente transformadora.

Podemos começar com a pergunta: pra você, o que é realidade?

(Filosófica, sim, mas com implicações práticas em todas as esferas da vida)

Para me ajudar a refletir sobre essa pergunta, trago para a conversa a autora Maria José Esteves de Vasconcellos, que escreveu um dos livros que até hoje mais influenciaram minha visão de mundo, Pensamento sistêmico: o novo paradigma da ciência.

Muitas das ideias que compartilho a seguir foram extraídas do pensamento dela, que, por sua vez, bebe de vários outros autores.

Entre o materialismo e o solipsismo

É impossível ter um conhecimento objetivo do mundo. E isso já é demonstrado não apenas pelas artes ou pela filosofia, mas também pela ciência.

Por muito tempo, os debates filosóficos sobre o que constitui a realidade apontavam para dois polos opostos: o materialismo, ou seja, a afirmação de que a realidade existe independentemente do observador, e o solipsismo, que afirma que tudo que existe só existe por causa do olhar de um observador.

É do solipsismo aquela ideia que talvez você já tenha ouvido: uma árvore não existiria se não houvesse alguém olhando pra ela.

No entanto, diversos pesquisadores e pensadores já convergiram para uma terceira possibilidade de constituição da realidade: a intersubjetividade.

A partir dessa perspectiva, “objeto e sujeito só existem relacionalmente”.

“Para um sujeito observador que não estivesse se relacionando com a árvore, ela não existiria mesmo. Mas a árvore continuaria existindo nas relações que continuaria mantendo: com os pássaros, com as outras árvores, com o solo, com os outros sistemas da natureza. Se esses acoplamentos desaparecessem todos, também a árvore deixaria de existir” (Maria José Esteves de Vasconcellos)

Ou seja: o mundo que você percebe não está lá, fora de você, nem você é capaz de se perceber fora da teia de relações do mundo. Você constrói o mundo junto com outros sujeitos observadores através da linguagem.

A realidade que conhecemos é coconstruída por meio da linguagem.

Quando eu entendi isso, toda a minha forma de olhar e agir no mundo mudou. E de aprender também.

A filosofia no início do século 20 já tinha entendido essa ideia de coconstrução da realidade na linguagem. Mas boa parte da ciência ainda não, pois essa hipótese entrava em rota de colisão com a própria ideia do fazer científico: conhecer “A Verdade” sobre a vida e o mundo.

Foi quando Heisenberg, um físico que estudava as partículas atômicas na década de 20, chegou a uma conclusão inusitada a partir de seus experimentos. Toda vez que Heisenberg observava o interior do átomo, sua observação interferia e alterava as propriedades do objeto.

Essa conclusão ficou conhecida como o Princípio da Incerteza. Ainda assim, muitos cientistas continuaram resistentes, acreditando em suas certezas.

Sobre salamandras e esquimós

Nas décadas de 70 e 80, dois cientistas chilenos, Humberto Maturana e Francisco Varela, começaram a criar uma teoria que ficou conhecida como Biologia do Conhecer.

Para que você entenda uma das principais implicações dessa teoria, imagine por um momento um experimento com uma salamandra, um anfíbio bastante habilidoso na captura de insetos com sua enorme língua.

O que acontece se girarmos o olho da salamandra em 180º e colocarmos um inseto na sua frente? Ela lança a língua pra trás e erra sua pontaria.

Esse experimento foi de fato realizado na década de 40, graças a uma invejável capacidade da salamandra de regenerar seus tecidos rapidamente.

O que é possível concluir a partir dessa experiência é que “o ato de lançar a língua e capturar o bichinho não é um ato de apontar para um objeto externo, mas de fazer uma correlação interna” (Humberto Maturana).

Nosso conhecimento — e todo o conhecimento passível de ser construído por todos os seres — é fruto de correlações internas.

A depender de sua “aparelhagem” cognitiva, a depender do seu histórico de experiências e como lidou ou não lidou com elas, cada ser vivo irá perceber, interpretar e agir no mundo de maneira diferente.

Cada ser vivo constrói a sua própria realidade, ou seja, não é possível para nós conceber a realidade independente de um observador.

(Maturana ainda vai além e pergunta, provocativamente: “O que é que acontece quando o observador vê um bichinho, fora da salamandra, e ela lança a língua e o captura? O que é isto de dizer que há um bichinho lá no momento que a salamandra lança a língua?”)

Assim como a salamandra, nós também percebemos e extraímos sentido de nossas experiências a partir de nossas próprias correlações internas. E essas correlações são permeadas a todo momento pela linguagem — que, por sua vez, é atravessada pela cultura.

Quer outra prova disso? Os esquimós usam uma grande variedade de palavras para se referir ao branco. Eles conseguem distinguir tonalidades da cor branca que nem eu nem você seríamos capazes de perceber. Sua cognição adaptada ao contexto e sua linguagem é que permitem que isso ocorra.

Assim que nascemos, começamos a nos acostumar com o fato de que existem nomes e interpretações consideradas como “certas” a respeito das coisas. 2 + 2 = 4, por exemplo. Como duvidar disso?

A partir da teoria de Maturana e Varela, é possível entender que 2 + 2 = 4 é um grande consenso de linguagem. Socialmente, nós acordamos que, dentro do contexto da linguagem matemática, isso é uma verdade. Talvez em outros contextos, não.

“Tudo que é dito é dito por um observador”. “Tudo que é dito é dito a um observador”. Não tem como escapar da nossa própria forma de enxergar a realidade. Não há como provar a existência de uma realidade (ou de uma verdade) objetiva.

E agora?

A partir da compreensão da intersubjetividade, ideias diferentes sobre um mesmo acontecimento são um convite à conversação entre elas, e não à refutação de umas pelas outras.

Além disso, esse entendimento abre caminho para a definição de amor de Maturana: “aceitar o outro como legítimo na convivência”. Afinal, ele também é um ser que, assim como eu, vive a partir da sua própria realidade, gerada a partir do conjunto de suas relações com o meio.

Relações baseadas no amor, nesse sentido, são relações em que eu não busco convencer, instruir, mudar, moldar ou manipular o que o outro vê, pensa, sente ou faz.

O que não significa que eu não possa expressar o que eu vejo, penso, sinto e faço, além de como eu reajo a partir das ações do outro.

Por tudo isso, aprender, pra mim, não é uma busca por conhecer A Verdade, e sim uma jornada rumo ao desconhecido.

É se aventurar com gosto na arte de cozinhar em vez de comprar comida manufaturada.

É criar intencionalmente o próprio caminho, se apropriando do fato de que é você quem cria a sua própria realidade.

Obs. 1: eu não acredito em “cocriação de realidade” nos sentidos místicos de “lei da atração” ou “vibrar na frequência da abundância ou escassez”. Quando falo em criar a própria realidade no texto, é outra coisa.

Obs. 2: publicado originalmente no portal O Futuro das Coisas.

Referências

TEDx Speaker | Autor | Facilitador de comunidades de aprendizagem autodirigida — www.alexbretas.com

TEDx Speaker | Autor | Facilitador de comunidades de aprendizagem autodirigida — www.alexbretas.com