Uma análise menos ingênua dos rankings de escolas

Por Bruno Costa

Os crentes — e as vítimas — dos rankings das escolas (Enem e outros, inclusive as próprias escolas e seu marketing) poderiam, ao menos, moderar sua devoção dando uma olhada nas informações dos gráficos abaixo, retirados da apresentação do responsável pelo PISA, em um seminário da FGV na semana passada. O primeiro, especificamente sobre o Brasil, mostra a relação entre o nível socioeconômico dos alunos e o desempenho das escolas do país em matemática, no teste do PISA.

Como se vê, o desempenho aumenta à medida que o status socioeconômico aumenta. Além disso, nos níveis bem mais altos de status desempenho (e de status socioeconômico) estão as escolas privadas. Vejam que quase não há sobreposição ou mistura, no gráfico, entre os pontos azuizinhos (escolas públicas) e pretinhos (escolas privadas). A maior parte dos pontos azuizinhos que estão nos níveis mais altos de status e de desempenho são as escolas federais (que, como se sabe, têm processos seletivos competitivos academicamente e socialmente enviesados).

Ou seja, o gráfico indica duas coisas bastante intuitivas: primeiro, que nosso sistema educacional é muito, mas muito segregado socialmente, o que é péssimo tanto para a defesa e sustentabilidade política da educação pública de qualidade (já que os grupos com mais poder e capacidade de vocalização não estão na escola pública) quanto para o desempenho, equidade e eficácia da educação (entre outros fatores, porque está fartamente demonstrado que mais heterogeneidade nas salas e nas escolas produz mais desempenho, beneficiando desproporcionalmente mais os grupos em desvantagem socioeconômica).

Em segundo lugar, o gráfico aponta que parte do desempenho superior das escolas privadas provavelmente decorre das características de seus alunos e dos recursos familiares (capital econômico, social e cultural) de que dispõem e não propriamente da qualidade da oferta educacional das escolas. O segundo gráfico, que compara vários países, inclusive o Brasil, demonstra exatamente esse ponto.

Ele mostra a diferença observada na pontuação em matemática entre as escolas públicas e privadas e estima qual seria essa diferença se retirássemos o peso das condições socioeconômicas dos alunos. E aí podemos ver, inclusive no caso brasileiro, como a diferença se reduz em mais de dois terços. Significa dizer que o grosso da vantagem das escolas privadas no Brasil tem bem menos a ver com o que a escola faz — digamos, sua “qualidade”, seja lá o que isso for — , do que com as características de seus alunos e famílias. Se levássemos em conta os recursos e a infraestrutura das escolas (que são muito desigualmente distribuídos), essa diferença seria ainda mais reduzida.

Portanto, como diz a propaganda de cerveja, aprecie com moderação os rankings das escolas na hora de escolher a escola de seu filho. E, principalmente, pense nos critérios de sua escolha; pense que boa parte daquilo que a educação envolve e que depende da escola não é medido pelas provas (valores, atitudes, autonomia moral e intelectual, capacidade de resolver conflitos, capacidade de se organizar, solidariedade, quando cooperar e quando competir, capacidade de trabalhar em equipe etc). Pense também que uma escola que tenha como objetivo único ou principal ter uma boa posição em rankings tipo Enem tenderá a um conjunto de práticas de exclusão, seleção e adestramento que são pedagógica e socialmente detestáveis.

Texto originalmente publicado no Facebook do Bruno. Veja aqui o original.

TEDx Speaker | Autor | Facilitador de comunidades de aprendizagem autodirigida — www.alexbretas.com

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