Universidade Alternativa: entrevista com Traian Brumă

Traian Brumă é um dos fundadores da Universidade Alternativa em Bucareste, na Romênia, e hoje em dia tem viajado por diferentes países no mundo com o objetivo de conhecer experiências educacionais inspiradoras. Sua meta é escrever um livro contando sua trajetória e convocando jovens de todos os continentes a empreender espaços de aprendizagem transformadores em suas comunidades.

Conheci o Traian por ocasião de sua passagem pelo Brasil em outubro e novembro deste ano. Ele tem acompanhado de perto o início da Multiversidade e o projeto que ele ajudou a criar na Romênia é uma grande inspiração para nós.

Confira o papo que tive com o Traian abaixo. Antes, porém, vale dar uma olhada no texto que escrevi sobre a Universidade Alternativa.

Alex: O que você considera que a Universidade Alternativa ainda não alcançou?

Traian: Há algo importante que ainda não conseguimos alcançar em termos filosóficos: os estudantes codirigirem a universidade. Não chegamos lá ainda, estamos no meio do caminho. Nós temos um time composto por estudantes e colaboradores em tempo integral, e isso já é uma conquista, mas os alunos de forma geral ainda não têm real controle sobre as questões da universidade. A maioria das pessoas na Universidade Alternativa faz alguma coisa, isto é, os estudantes contribuem, dão cursos, organizam acampamentos e tudo mais, e isso é muito positivo, mas o fato de que eles não tomam as decisões de forma conjunta e de que ainda não há um processo coletivo que envolva a todos, isso é algo ainda a ser alcançado.

Todos da minha equipe provavelmente mencionariam outro objetivo que ainda não atingimos: sustentabilidade financeira. Estamos sempre lutando por isso e ainda não chegamos lá. É complicado.

Na verdade, penso que mesmo nossa missão como universidade ainda não foi completamente atingida. Nossa missão é de alguma forma ajudar as pessoas a serem felizes e também mudar o mundo. A parte de mudar o mundo funciona menos — talvez somente em 10 ou 20% dos casos. O restante das pessoas precisa encontrar um lugar para elas dentro do sistema. Talvez pudéssemos assumir que também é possível mudar o mundo de dentro do sistema, mas eu acredito que essa mudança tem mais a ver com a invenção de — e a participação em — novos sistemas. Por exemplo: se um aluno nosso criasse uma empresa democrática em que todos os funcionários fossem iguais e tomassem decisões juntos, algo como uma cooperativa talvez, então eu diria que ele está propondo uma verdadeira mudança, ainda que o negócio da empresa seja vender hambúrgueres ou qualquer outra coisa. No limite, não importa, porque ele estaria fazendo as coisas de um jeito diferente, ou seja, estaria criando e participando em um outro tipo de sistema. Mas isso acontece em apenas 10% dos casos, então ainda temos os outros 90% para alcançar.

Alex: O que você considera como os principais erros que vocês cometeram ao empreender a Universidade Alternativa e como nós aqui poderíamos não os repetirmos?

Traian: É difícil falar sobre erros como algo que não deveríamos ter feito porque de alguma forma eles nos ensinaram algo e nos fizeram chegar onde chegamos. Mas acho que o caminho mais errado que já pegamos tem a ver com a questão financeira. Por dois anos, tentamos financiar todas as operações da universidade por meio de editais, patrocínios e doações. Éramos um time de mais ou menos umas 14 pessoas e durante esse período pelo menos sete de nós — metade da equipe — estávamos fazendo alguma coisa relacionada a captação de recursos. A maior parte do tempo dessas pessoas estava dedicada a isso. Fizemos realmente um grande esforço com o intuito de solucionar a questão financeira: muitos de nós submetemos propostas para editais, corremos atrás de patrocínios e tudo mais, mas no fim acabamos desperdiçando nossa energia. Durante dois anos metade da equipe desperdiçou energia tentando criar um sistema que não era adequado para a universidade.

Hoje, nossa maior fonte de recursos são as contribuições dos próprios alunos, e a segunda maior também está diretamente relacionada com eles — os projetos propostos por empresas a equipes formadas por alunos (NT: Rent a Team no original). A partir da nossa experiência, eu evitaria financiar uma universidade principalmente através de editais e patrocínios. Não é sustentável. É claro que você deve abraçar as oportunidades que aparecem, mas não deve basear toda sua estratégia nelas. Se aparecer uma oportunidade verdadeira de captação de recursos por meio de um edital ou patrocínio, nós a agarramos, mas não creio que se deva criar um time somente para isso e sair procurando por esse tipo de possibilidade em todos os lugares. É um desperdício de energia. Acredito que a sustentabilidade deve ser construída a partir da troca de valor. Assim, se o espaço está ali para os alunos, então são eles quem devem trazer os recursos para fazê-lo funcionar.

Alex: É uma boa perspectiva.

Alex: Você sabe onde eu posso encontrar mais informações sobre a Universidade Alternativa? Alguém já escreveu algo em outros idiomas?

Traian: Uma menina que nos visitou escreveu um post recentemente contando sobre sua experiência. Tem também o Guia do Estudante, que é a maior fonte de informações a respeito da universidade disponível em inglês. Atualmente há uma outra menina visitando a Universidade Alternativa que disse que fará um vídeo, e ela é de fora, então provavelmente será em inglês. Não sei se temos muito mais que isso…

Alex: Tudo bem, se você puder compartilhar esses materiais comigo já será ótimo.

Alex: Queria te fazer uma pergunta mais reflexiva. Quando penso na aprendizagem autodirigida, vejo um equilíbrio importante entre projetos e atividades focadas nos interesses pessoais do aprendiz, e projetos focados nas necessidades dos outros — do mundo, da sociedade ou da comunidade ao redor. Você acha que existe um risco de as pessoas acostumadas a aprender de forma autodirigida se tornarem um pouco egoístas e começarem a ter problemas em criar projetos e soluções para outras pessoas, não apenas para elas mesmas?

Traian: Não, na verdade eu penso o contrário. Existe um outro termo que gosto de usar, aprendizagem autodeterminada, então vou falar a partir dessa perspectiva: não apenas autodirigido em relação às formas de aprender, mas também autodeterminado, ou seja, o aprendizado é ancorado nos valores da pessoa, em quem ela é. Vejo que, essencialmente, olhando as pessoas que conheço e até para mim mesmo, eu diria que nós somos mais service-oriented. Queremos ser parte de uma comunidade, queremos servir, queremos criar valor. É uma via de mão dupla: um relacionamento equilibrado entre aproveitar o que a comunidade tem a oferecer e também contribuir com ela, ter o seu lugar na comunidade.

Fonte: Akcees.

Assim, penso que as pessoas que estão aprendendo de forma autodeterminada estão se ancorando numa comunidade, até porque o ser humano não é uma espécie solitária, não sabemos viver sozinhos. É natural para as pessoas buscarem seu lugar na comunidade, e vejo que a aprendizagem autodirigida te dá força para imaginar que você tem algo a oferecer para o coletivo, e assim é possível superar aquela ideia super egoísta de que só precisamos encontrar o nosso lugar ao sol e pronto. Isso é pobreza de vida, é uma forma pobre de se viver. E a aprendizagem autodirigida te dá a perspectiva de uma vida mais plena em que, ao contribuir para algo maior, você é recompensado com aquele caloroso sentimento de propósito, de pertencimento a uma comunidade. É o oposto de se esconder atrás de uma máscara egoísta e ficar apenas fazendo coisas para si próprio. Não acho que alguém que tenha opção escolheria viver dessa forma individualista. Assim, penso que a aprendizagem autodirigida te dá o poder de superar uma mentalidade egoísta e energia para partir em busca de algo mais significativo.

Alex: Muito interessante!

Alex: Na Universidade Alternativa, vocês têm vários dispositivos de apoio à aprendizagem. Como exemplos temos as comunidades de prática e as sessões de aconselhamento em aprendizagem autodirigida que você havia comentado comigo na nossa outra conversa. Talvez seja uma pergunta capciosa, mas quais são, na sua opinião, os cinco dispositivos que mais fazem diferença para os alunos da universidade?

Traian: Na verdade, nós mesmos nos fizemos essa pergunta: queríamos saber como reduzir nossas atividades para chegarmos na essência. Mas não conseguimos encontrar uma resposta. É complicado mesmo.

No entanto, o dispositivo que com certeza eu destacaria em primeiro lugar são as sessões de aconselhamento em aprendizagem autodirigida. Outra atividade que eu ressaltaria é o processo de construção de comunidade. O acampamento anual que fazemos, por exemplo, é muito poderoso.

Uma das coisas que deu certo na universidade é a incubadora de novos negócios. Já tivemos, se não me engano, mais de 40 empresas sendo criadas e a experiência é sempre muito intensa. As pessoas trabalhando por dias e dias para fazer a empresa funcionar, os estudantes ativando uma enorme quantidade de energia para fazer acontecer, é realmente algo muito interessante.

Na verdade, o próprio espaço da universidade, ainda que não seja um processo, é uma estrutura, e ter um espaço em que as pessoas podem se encontrar nos seus próprios termos e se articular em grupos é super importante. No nosso espaço há essa flexibilidade, as pessoas podem simplesmente vir sem terem um motivo específico, elas podem pegar um livro na biblioteca, conhecer pessoas novas, inventar seus próprios projetos… Várias salas da Universidade Alternativa são agendadas pelos próprios alunos que querem fazer suas coisas, não por nós da equipe. Acredito que o espaço é uma estrutura fundamental, desde que ele seja livre e possa ser utilizado por qualquer estudante.

Fonte: The Alternative University.

No que se refere aos outros dispositivos, não é possível aplicá-los a todos, então é difícil nomear um em particular. Para algumas pessoas a mentoria funciona muito bem, para outras o coaching funciona perfeitamente, mas se você pensar nos 120 alunos que temos, são poucos os que se aproveitam disso. Não é tão difundido. Em relação ao que esses processos são capazes de fazer, acredito que eles podem ter um grande impacto no aprendizado, mas apenas para as pessoas que realmente possuem essa necessidade. São atividades mais personalizadas.

Eu realmente acredito nas comunidades de prática, esses grupos em que as pessoas se juntam e começam a projetar sua própria aprendizagem, a compartilhar o que sabem e o que querem descobrir e a se auto-organizar. Essas comunidades são muito potentes, mas nunca conseguimos fazê-las funcionar de fato. Estamos experimentando. Tivemos sucesso algumas vezes e em outras não, portanto sou um grande entusiasta da ideia, mas ainda estamos no processo de torná-la algo eficaz.

Alex: Entendi. Talvez numa outra conversa possamos entrar mais nisso, fiquei curioso para saber o que vocês experimentaram, o que deu certo e o que não deu. Mas como estamos com o tempo um pouco apertado, vamos pular para outro tópico.

Alex: Quais são os elementos do passado que você acredita que mereciam ser resgatados na educação do futuro?

Traian: Elementos do passado? Como assim?

Alex: Há uma premissa implícita nessa pergunta na qual eu acredito bastante, mas não sei se você também acredita. A premissa é que se resgatarmos certos processos que já experienciamos em diferentes épocas e culturas e os aplicarmos em nossos sistemas educacionais hoje, talvez isso traga bons resultados. Você acredita nisso? E, em caso afirmativo, que elementos do passado você resgataria?

Traian: Acredito muito nisso. Vivemos num mundo hiper burocratizado e nossa educação também é super burocratizada, o que faz dela terrivelmente mecânica. Este talvez seja o pior cenário para alguém que realmente queira aprender algo. Por outro lado, não sei exatamente como eram as coisas no passado, mas do que consigo imaginar, posso dizer que a aprendizagem informal por exemplo era muito poderosa, e as pessoas antigamente não tinham estruturas formais para se apoiar, e por isso elas precisavam confiar em processos educacionais informais. Li recentemente sobre Benjamin Franklin, quando ele e outras pessoas estavam construindo sua própria biblioteca, e eles estavam criando grupos que se juntavam para discutir sobre diferentes questões. As pessoas nessa época liam muito. A informalidade no aprendizado é algo que precisamos resgatar.

Antigamente algumas pessoas, talvez as mais privilegiadas, saíam viajando pelo mundo para se desenvolver, para aprimorarem sua prática. Ainda que isso continue acontecendo atualmente, é algo que merece ser reforçado. O que você disse sobre os journeymen numa de nossas conversas, por exemplo, é uma evidência de que havia muitas tradições relacionadas à aprendizagem em torno das guildas que eram muito mais potentes do que as que dispomos hoje. Os programas em que um aprendiz acompanhava um mestre num determinado ofício são bons exemplos disso. A ideia de que alguém podia seguir aprendendo com um mestre durante sete anos — talvez precisemos de menos hoje — , trabalhando lado a lado com alguém que sabe muito é atemporal.

Acho que isso é tudo que me ocorre agora… Mas, calma, falta uma coisa! Existe um elemento ainda mais importante do que os que acabei de falar. Penso que as comunidades indígenas também cultivam poderosos processos de aprendizagem atemporais, haja vista os ritos de passagem e os rituais. Os índios da América do Norte, por exemplo, tinham jornadas de inspiração (NT: vision quests no original), e eu realmente adoro essa ideia de se passar cinco dias numa montanha sem comer buscando seu propósito no mundo enquanto sua comunidade mantém uma fogueira acesa para te apoiar na travessia. Essa tradição gera aprendizagem, gera transformação, e ela é cheia de simbolismos, cheia de vida, e é por isso que vejo esses rituais como uma maneira muito significativa de encarar nossa existência. E tenho certeza que as jornadas de inspiração são apenas um exemplo dentre as centenas ou milhares de rituais que poderíamos resgatar que trabalham com esses símbolos tão profundos. Seria uma forma de tê-los novamente em nossas vidas.

Alex: Sim, e eu penso que quando se trata de tribos indígenas, temos também as conversas em torno da fogueira. Para mim, como facilitador de grupos, isso é algo realmente significativo. O costume de se passar um bastão da fala de mão em mão para que as pessoas compartilhem suas histórias e aprendizados no círculo, por exemplo, é maravilhoso.

Traian: Eu imagino as pessoas mais velhas da comunidade compartilhando histórias, sendo envolvidas no processo e ofertando seus conhecimentos. Um tipo de educação que vai na contramão do que temos hoje: professores ensinando conteúdos… Não há história aí, não há uma chama acesa, não há valorização das experiências de cada um.

Alex: Sim, definitivamente.

Fonte: The Alternative University.

Alex: Não sei o quanto você pôde acompanhar da nossa primeira conversa sobre a Multiversidade, mas no final, duas questões apareceram de maneira intensa em várias falas — inclusão e diversidade no contexto de projetos educacionais inovadores. Minha última pergunta tem a ver com isso: gostaria de ouvir sua perspectiva a respeito desse assunto, e como talvez poderíamos incluir mais pessoas e termos mais diversidade nesses ambientes de aprendizagem alternativos dos quais estamos falando.

Traian: Certa vez, algo que uma de nossas alunas me falou me atingiu como um soco. Ela era uma ativista LGBT e me disse que não via a Universidade Alternativa como um lugar muito inclusivo, diverso, tolerante ou aberto. E eu lembro de ter dito algo como: “não é verdade, essas são justamente as ideias que movem esse lugar”. Ela teve alguma dificuldade em me explicar porque, mas depois de um tempo finalmente entendi que não tínhamos tanta diversidade quanto poderíamos ter porque havia um certo modelo de pessoa que costumava responder ao nosso chamado. E um modelo muito bem definido e pouco diverso, embora eu pensasse que nós éramos um grupo diversificado. Fiquei digerindo isso por um bom tempo.

Por conta disso, penso que nós na Universidade Alternativa não conseguimos tanto sucesso ao promovermos diversidade. Até temos alguma diversidade em termos de idade — algumas pessoas de 38 anos tornaram-se estudantes –, mas elas são exceções. Ainda que sejamos abertos, a proporção deixa a desejar. Há um certo padrão de pessoa, as trajetórias de cada um são parecidas, a forma de falar, a forma de entender o mundo e tudo mais, e é por isso que não acredito que tenhamos uma diversidade de cosmovisões. É uma palavra forte, mas nós não temos pessoas vindas de tribos indígenas, de comunidades rurais, de comunidades pobres, só gente hipster e intelectual.

Pra mim, diversidade é uma das coisas mais valiosas a serem alcançadas, mas também uma das mais difíceis de alcançar. Isso porque não temos consciência nem dos nossos próprios vieses. Eu mesmo não tinha consciência dos meus, mas agora, viajando pelo mundo, percebi que eu adoraria ver na Universidade Alternativa pessoas vindas de lugares menores, pessoas mais velhas, pessoas de todos os tipos, gente que não sabe ler nem escrever — isso também é diversidade e a gente nem se dá conta disso. Contudo, não sei como isso poderia acontecer, só sei que quem tem a oportunidade de vivenciar ambientes diversos aprende muitas coisas.

É preciso muito esforço para colocar pessoas diferentes juntas e para mantê-las juntas. Não é fácil criar um espaço em que alguém, além de tolerar o outro, reconhece o valor de se conhecer perspectivas distintas. Para fazer isso você precisa de pessoas super abertas a aprender, loucas por aprender, que conseguem trabalhar com as diferenças, abraçá-las e ainda enxergar esse processo como uma oportunidade de aprendizagem.

É isso que penso sobre diversidade: não tenho muitas experiências para compartilhar, apenas um grande desejo que isso aconteça de fato.

Alex: São ótimos insights!

Alex: Obrigado pela entrevista, Traian.

Traian: Obrigado a você.

Para saber mais sobre mim, acesse o site www.alexbretas.com.

TEDx Speaker | Autor | Facilitador de comunidades de aprendizagem autodirigida — www.alexbretas.com

TEDx Speaker | Autor | Facilitador de comunidades de aprendizagem autodirigida — www.alexbretas.com