6 ritos de passagem que potencializam a aprendizagem autodirigida

Na minha adolescência, houve um momento em que eu senti muito forte a virada de chave para a vida adulta: quando saí da minha cidade natal e fui para a “cidade grande”.

Isso aconteceu quando eu tinha 17 anos.

Em grande parte, eu ainda era bancado pelos meus pais, mas a sensação era de que, a partir dali, eu estava por minha conta. Um mundo de possibilidades se abriu, assim como uma série de medos.

E a sua transição para a vida adulta, como foi?

Muitos de nossos ancestrais criavam ritos de passagem para marcar essa transição na vida dos jovens de suas tribos. Elementos como símbolos, danças, histórias, tokens, imersões na natureza, momentos de conexão e até mesmo dor física eram frequentemente utilizados.

Na medida em que passamos a viver em cidades e em uma economia industrial, esses ritos foram sendo eliminados. Pouquíssimas instituições continuaram a oferecê-los, notadamente as igrejas.

Da forma como vejo, ritos de passagem são como banhos de significado em meio à transformação. Eles nos fornecem confiança, direcionamento e pertencimento nos momentos em que mais precisamos.

É por isso que perdê-los, especialmente em uma das transições mais importantes — da infância para a vida adulta — , é um problema.

E se as escolas, durante o Ensino Médio, pudessem fornecer uma estrutura de ritos de passagem para apoiar os jovens nesse período embaralhado de suas vidas?

Uma escola pública no estado do Colorado, nos EUA, tem feito isso há quatro décadas.

Jefferson County Open School: uma escola autodirigida

Eu já havia lido sobre essa escola anos atrás, mas apenas algumas histórias específicas. Agora, estou lendo o livro Lives of Passion, School of Hope ( Vidas de Paixão, Escola da Esperança, em tradução livre) do Rick Posner, PhD em aprendizado autodirigido e um dos educadores da escola.

A Jefferson County Open School — ou apenas Open School — não tem matérias fixas, provas, professores despejando conteúdo nem nada do que costumamos encontrar em escolas tradicionais.

Ela foi fundada na década de 70 por um grupo de pais e mães que não acreditavam no sistema convencional. Queriam uma alternativa viável e disruptiva, e estavam dispostos eles mesmos a criá-la.

No livro, Posner apresenta não apenas a história e os elementos constitutivos da escola, mas também vários relatos de ex-alunos já adultos. Em meio a muitas ideias e práticas interessantes tendo como centro a autodireção, uma delas se destaca: o Walkabout.

Algumas das lembranças mais marcantes dos ex-alunos têm relação direta com esse programa.

Walkabout: ritos para dar contorno à aprendizagem livre

Na década de 80, alguns anos depois da escola ser fundada, os anos equivalentes ao Ensino Médio passaram a ter uma dinâmica diferente.

A partir do trabalho de Maurice Gibbons com ritos de passagem modernos — que, por sua vez, se inspirou nas culturas aborígenes australianas — , os educadores da escola criaram um programa composto de seis ritos de passagem para dar contorno à aprendizagem dos estudantes mais velhos.

Os parágrafos a seguir são uma tradução minha do trecho em que Rick Posner apresenta essa ação.

WALKABOUT, inspirado por um rito de passagem australiano, é a fase final da vivência na escola em que cada aluno demonstra prontidão para funcionar como um adulto fazendo seis passagens, em uma verdadeira transição para a idade adulta.

As passagens são iniciadas quando o tutor concorda que o aluno tem a base de habilidades, conhecimentos, atitudes e comportamentos necessários para ter sucesso e demonstra a capacidade de definir objetivos significativos e alcançá-los.

As passagens são projetos pessoalmente desafiadores desenvolvidos por cada aluno em seis áreas diferentes para demonstrar a capacidade de aplicar suas habilidades no mundo real.

O processo de aprovação inclui a redação de uma proposta que é aprovada por um comitê de pares, o tutor e mais um educador. Mentores e pais também podem participar. Após a conclusão da passagem, o aluno reúne o comitê e apresenta um resumo por escrito para aprovação final.

As seis áreas de passagem são:

AVENTURA: uma missão ou um desafio pessoal significativo cuja busca requer coragem, resistência, autoconfiança e decisões inteligentes.

EXPLORAÇÃO DE CARREIRA: uma ampla investigação sobre uma área de trabalho, incluindo um estudo aprofundado de pelo menos uma possibilidade profissional concreta dentro desse campo, com particular atenção às possibilidades para o futuro.

CRIATIVIDADE: desenvolvimento de um produto que seja expressão da imaginação pessoal do aluno, juntamente com uma análise detalhada do processo pelo qual foi criado.

CONSCIÊNCIA GLOBAL: identificação de uma questão com impacto global, seguida por um estudo de como a própria cultura do aluno e pelo menos uma outra cultura lidam com essa questão, culminando em um projeto voluntário criado para influenciar a questão em nível local.

INVESTIGAÇÃO CIENTÍFICA: uma pesquisa que inclui a geração de uma hipótese, o desenvolvimento de uma abordagem sistemática para a coleta de dados e documentação suficiente para permitir a replicação do estudo posteriormente.

HABILIDADES PRÁTICAS: desenvolvimento de proficiência em uma habilidade ou um conjunto de habilidades das quais o aluno era anteriormente dependente de outras pessoas e que poderão ser úteis ao longo da vida.

Embora os anos finais dos estudantes na Open School continuem sendo povoados por diferentes atividades, as seis passagens do Walkabout funcionam como eixo central desse período.

Para que se forme na escola, é esperado que cada aluno apresente o resultado de seus projetos em cada área de passagem. Juntas, elas representam um marco na transição para a vida funcional em sociedade.

(Só eu que lembrei dos 12 trabalhos de Hércules?)

“Quanto de estrutura é suficiente?” e outras reflexões

Ao me deparar pela primeira vez com o Walkabout, fiquei extasiado — talvez por ter desejado muito algo assim na minha época de adolescente. Senti intuitivamente que esse tipo de “ritualização que abre espaço para a liberdade” é poderoso, e que também poderia ser aplicado em outros contextos.

Analisando do ponto de vista das arquiteturas de aprendizagem autodirigida, o programa pode ser entendido como um um conjunto de seis jornadas individuais em comunidade, cada uma delas com um contorno temático diferente.

No entanto, um aspecto que, ao meu ver, reduz a “dose” de autodireção da iniciativa é a obrigatoriedade de se cumprir as seis passagens para se formar na escola (ainda não está claro pra mim se é de fato obrigatório, mas, ao que tudo indica, ao menos existe uma expectativa de que os alunos cumpram os seis ritos do programa, razão pela qual ele não foi 100% bem recebido pelos estudantes da escola quando foi criado).

Penso que, se o Walkabout fosse oferecido como um convite genuíno, sem quaisquer represálias ou constrangimentos caso algum aluno não quisesse fazê-lo, a ação poderia ser mais bem aproveitada, além de estimular ainda mais o comportamento autodirigido.

Somado a isso, o fato de os adultos da escola controlarem quais estudantes poderão iniciar a jornada pelos ritos de passagem e quais tiveram êxito ou não também reduz o incentivo à autodireção (lembrando que uma ação de aprendizagem autodirigida “pura” prevê que a pessoa possa escolher livremente o que e como irá aprender, além de definir em última instância quais serão os critérios de sucesso de seu aprendizado).

Mesmo tendo alguns pontos de melhoria na minha visão, o programa propõe um modelo interessante ao conciliar contorno, estrutura e clareza com liberdade e estímulo à busca do que mais importa para cada um.

Propositalmente, as áreas de passagem não definem o que deve ser feito, mas sim contextos amplos nos quais o jovem pode navegar. Nessas buscas, cada estudante cria seu próprio processo e encontra seus próprios tesouros.

Desde que comecei a pesquisar e criar o que hoje chamo de arquiteturas de comunidades de aprendizagem autodirigida, tenho observado esse padrão que consiste em misturar diferentes doses de estrutura e liberdade.

Se o pêndulo se move muito para a estrutura, as pessoas podem não se sentir convidadas a criar o próprio caminho e, com isso, perdem a motivação. Por outro lado, se há liberdade demais, o aprendiz pode se perder no oceano de possibilidades de sua própria mente e nunca sair do lugar.

É por isso que programas como o Walkabout, mesmo sendo um pouco “burocráticos”, são grandes estimuladores da aprendizagem autodirigida.

Além das habilidades conquistadas ao realizar as seis passagens, há ainda um outro ganho desse modelo para os alunos da Open School: uma abordagem concreta para lidar com todas as demais transições de suas vidas.

Quem dera todas as pessoas do mundo soubessem como criar jornadas de aprendizagem para si mesmas nos momentos em que a vida lhes convoca à transformação.

Obs.: até o momento em que finalizo este texto, o site da Open School não está funcionando. Ainda assim, vou deixar o link aqui.

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TEDx Speaker | Autor | Facilitador de comunidades de aprendizagem autodirigida — www.alexbretas.com

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